(publicado em Gazeta do Povo, 11 de janeiro de 2016)

ciceroA página do Ministério da Cultura no Facebook compartilhou recentemente uma mensagem catequética que afirmava: “funk é cultura, sim”. A mensagem faz parte de uma campanha intitulada “Dialoga, Brasil”, que supostamente se destina a livrar os brasileiros de seus terríveis preconceitos. Mas o Ministério da Cultura sabe que está usando a palavra “cultura” numa acepção diferente daquela em que o povo, ao negar ao funk esse estatuto, se fundamenta; a catequese governamental não é senão mais uma tentativa de obliterar um sentido da palavra, de modo que não mais seja possível distinguir obras de arte de produções vulgares.Quando Cícero usou o termo em contexto intelectual pela primeira vez, tratava-se de metáfora: a expressão cultura animi, o “cultivo do espírito”, insinuava que a alma humana era como que um campo a ser arado, semeado, cuidado, até que, enfim, nos desse seu fruto – a filosofia. Uma palavra de mesma raiz, cultus, já era associada não exatamente à vida de estudos, mas à religião, que é sua parente. O conceito era de “cuidado com os deuses” (cultus deorum), e implicava também uma relação com o cultivo da terra. A religião precisa ser cultivada para crescer e dar frutos na alma.

Não é difícil perceber o abismo entre essa noção e a “cultura” em sentido antropológico, como nas expressões “cultura nacional”, “cultura empresarial” etc. Nesse caso, dizem os especialistas, a cultura é um “sistema de crenças, costumes, valores, artefatos e comportamentos”. Para Cícero, ela era uma atividade, um rito; para nós, é um sistema. Há muito significado nesta diferença. É por meio dela que se compreende como o Ministério da Cultura equipara funk e Villa-Lobos.

Uma tradição, por exemplo, como o Terno de Reis é cultura de ambos os pontos de vista; mas, enquanto nós a chamamos assim meramente porque é algo “que o povo faz”, o homem antigo lhe daria esse nome por presumir que, ao participar da celebração, sofre-se alguma espécie de melhora espiritual. É a diferença entre um sistema comportamental e o cultivo da alma; entre maquinário e humanidade.

E embora seja aceitável, no sentido clássico, dizer que o Terno de Reis possui valor cultural, o funk só pode ser anticultural. A participação rotineira nos chamados “bailes” inclina o homem à histeria, à dispersão intelectual e sabe-se lá quantos outros vícios; para falar segundo a metáfora ciceroniana, o rito destrói o campo, em vez de cultivá-lo. De modo geral, pode-se dizer que esse é o efeito da “cultura de massas”, mesmo em suas manifestações mais aceitas pelo público médio: por sua própria natureza, ela se inclina aos mais baixos instintos humanos, pois, ao satisfazê-los, adquire popularidade; mas (como costuma ocorrer nos organismos vivos) é precisamente por satisfazê-los que ela os estimula. O resultado é que, ao longo do tempo, seus produtos vão ficando piores, e o público também.

Se é verdade, porém, que alguns costumes populares podem receber o estatuto de “cultura”, até que ponto podem eles ser comparados às mais elevadas produções do espírito humano? Em outras palavras, qual é a diferença entre cultura e alta cultura? Mas esse é outro assunto, para outra oportunidade.