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Conservadores, Brás Cubas e a pedra filosofal

emplasto-bras-cubasQuem ouve falar aos sedizentes conservadores brasileiros fica, suponho eu, aliviado. Descobertas há as mais surpreendentes, declaradas em meio à celeuma de heurecas: existe verdade, não é relativa, Cristo isto, virtudes aquilo. As mesmas respostas, milagrosamente, solucionam todo gênero de problemas. Passou o tempo da ignorância. O Brasil tem futuro garantido.

Não importa o campo do conhecimento, o emplasto Brás Cubas resolve o dilema. A “dignidade humana” e a “lei natural” passeiam, enquanto falamos, pelas alamedas da inteligência; estavam há pouco com um biólogo pró-vida… agora cruzaram para a casa de um jurista – que escrevia sobre cotas – e parece que saíram de um bar na Rua Augusta. Amanhã visitarão um pedagogo, que com elas diagnosticará a educação brasileira; depois têm hora marcada com certo professor de matemática, que sabe-se lá como as envolverá em suas exatas ciências.

Agora há pouco me bateram à porta uns finórios de cartola e bengala, perguntando-me que tenho eu contra tão nobres senhoras. Sou eu inimigo da dignidade humana? Que me fez ela? E a lei natural? E quem mais pretendo insultar com vagas referências literárias? Os distintos cavalheiros me avisaram que nem cogite mencionar a “santa pureza” ou a “caridade”. Mas me entenderam mal: debaixo das cartolas, continuam brasileiros, e como ótimos brasileiros, péssimos leitores. Não tenho nada contra as damas citadas, que entre nós são, aliás, donzelas intocadas e desconhecidas. Parece-me que cá nunca pisaram, ou se o fizeram, já faz tempo e foi em segredo.

Não sou opositor da caridade, da santa pureza, da dignidade humana ou (de modo algum!) da lei natural. Cortejo-as todas de longe, quase sempre por carta e foto, já que não se dignam a visitar-me, nem tenho eu recursos para visitá-las com frequência.

Minha desconfiança – não a chamem inimizade! – é com o bálsamo universal, que às vezes usurpa os nomes a essas senhoras e a outras mui dignas. Percebe-se a fraude por sinais exteriores: de repente a caridade mostra impaciência, a santa pureza explode em tremores psicóticos, a dignidade humana soa cafona e burocrática, a lei natural rasga as vestes como um fariseu. E todas, sem exceção, ocupam lugares alheios, posando de soluções definitivas para grandes mistérios que, se encarados por um pobre mortal como eu, pareceriam exigir décadas de estudo cada um.

Lia eu, há não mais que algumas horas, em algum site conservador, assim de passagem, num artigo sobre outro assunto, uma observação rápida e impaciente, em tom de quem diz o óbvio ululante: “o propósito da educação é…”. É o quê? Adivinhe o leitor, optando entre: a) incutir virtudes/valores; b) nutrir bons afetos; c) apreciar a beleza; e d) todas as anteriores. Tanto faz, todos dizem o mesmo, todos sabem qual é o propósito da educação. Aristocles, o filósofo de ombros largos, desbravou o mistério; depois Cícero, Quintiliano, Boécio, Alcuíno, Dhuoda, Hugo de S. Vítor, John Milton, Rousseau, Tolstói, Jean Piaget… embalde. A solução para este problema, como para os demais, já estava reservada ao Brasil do século XXI.

Ora, se há um hábito que o brasileiro, conservador ou revolucionário, esquerdista ou direitista, criança ou adulto, jamais abandona, é o de ter respostas simples e pré-fabricadas para todos os problemas do universo, sem nunca ter-se dado ao trabalho de estudá-los individualmente. Não por acaso, o texto teórico parece exercer uma assombrosa atração sobre nossas classes pensantes, que o preferem a todos os demais gêneros literários. Quanto mais universais as pretensões do texto, mais sedutor ele se torna. O brasileiro não se aproxima de Aristóteles pelo interesse na metafísica, mas pelo desejo de valer-se da metafísica como de um elixir alquímico que tudo transformasse em ouro. Nem se aproxima de Karl Marx pelo interesse em economia, mas pelo ardor de, munido de conceitos econômicos, apresentar ao mundo uma solução final.

Se o leitor quiser, portanto, economizar anos de leitura de blogs intelectualóides, pode adotar o seguinte método: caso queira saber a opinião “de esquerda” a respeito de qualquer problema, recorra à ideia de luta de classes e à opressão da elite burguesa sobre as classes trabalhadoras; caso queira saber a opinião “conservadora”, recorra ao Catecismo Romano, com especial atenção ao exame dos Dez Mandamentos. Ali se encontram todas as respostas que o conservador brasileiro deu, dá e dará a respeito das mais intrincadas questões filosóficas, políticas, psicológicas, pedagógicas, mecânicas e esportivas. Na verdade, alguns de nossos conservadores já começam a considerar a literatura um passatempo perigoso e a filosofia pagã como mera peça de museu (já absorvida, em tudo o que nela havia de proveitoso, no Código de Direito Canônico). Nas drogarias, já não há espaço para outro fármaco; o emplasto Brás Cubas cura todas as dores, inclusive a consciência da própria burrice.

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