Litor carregando os "fasces"

O Prof. Paulo Sérgio de Vasconcellos, em artigo à revista Nabuco (n. 1), informa que os estudos clássicos vivem no Brasil um momento áureo, e chega mesmo a profetizar nossa apoteose como “referência internacional na área”. Afinal, diz ele, temos grande número de traduções lançadas no mercado, todas feitas no âmbito universitário, e alguns professores-doutores brasileiros apresentaram um painel num evento da American Philological Association – fenômeno inédito, reforça o Prof. Vasconcellos. Não deixa também de lembrar-nos do interesse crescente de estudantes universitários nas graduações em latim e grego, e ressalta que tudo isso ocorre apenas nas universidades estatais, verdadeiras detentoras de tão excelsos méritos.

Tais coisas só se tornaram possíveis, explica-nos o artigo, porque escrupulosos professores abandonaram a imagem tradicional do latinista ranzinza, conservador e, o que é pior, “de direita” (sic). Os classicistas entendemos agora que nossos estudos não possuem qualquer relação com “valores morais” (sic) e que o latim não é “nem de direita nem de esquerda” (sic!mil vezes sic!). Mais ainda: foi essa compreensão que despertou o interesse dos jovens e colocou-nos, alfim e ao cabo, na posição “de ponta” que ora ocupamos. Não farei (prometo!) nenhuma outra piada com essa história de “ponta”.

É assombroso, mas acredito que o Prof. Vasconcellos realmente não tenha percebido como o crescimento de interesse nos estudos clássicos é um sintoma claríssimo do seu total fracasso no Brasil. Falo desse assunto com bastante propriedade, tendo sido eu mesmo um dos ingressantes, em 2006, no curso de latim da USP. Eu e meus colegas nos surpreendemos ao tomar conhecimento da imensa importância dos autores antigos, da sua relação orgânica, indissociável, com praticamente qualquer livro que valha a pena na cultura ocidental. Chamar tal sentimento de “interesse” seria prosaico demais; ficamos chocados, isso sim.

A causa profunda de nossa curiosidade, e mesmo de nosso empenho no latim e no grego, não é outra senão o sumiço indesculpável, o seqüestro criminoso de qualquer referência aos clássicos na educação fundamental e média; e os responsáveis, numa palavra os culpados do crime, não foram outros senão os burocratas ignorantes (Napoleão Mendes os apelidou de “ratos de ministério”); muitos dos quais, pertencentes a esses depósitos de papel a que chamamos universidades, ainda roubam e vilipendiam o digno nome de professor.

É verdade que, a princípio, o choque dos jovens estudantes não se manifesta de acordo com a situação objetiva que o gerou, e em vez de produzir indignação beira o entusiasmo. Como um cego que enxergasse (muito mal) pela primeira vez, não nos concentramos na miséria de nosso estado presente, e sim na luminosa promessa de visões futuras. Mas o otimismo desorientado desses jovens não desculpa, antes condena a omissão (quando não a participação consciente e ativa) de professores e jornalistas diante do estupro intelectual que se pratica contra nossas crianças, cotidianamente, nesses pardieiros, nessas feiras vulgares, nesses lupanares que têm se tornado as escolas brasileiras.

O Prof. Vasconcellos, porém, insiste que nossa verdadeira motivação para escolher os clássicos foram professores animados e bonzinhos. O único, dentre os meus professores na graduação, que se encaixava de algum modo nesse perfil, e que tinha, ao mesmo tempo, competência real, era João Angelo Oliva Neto – um sujeito tão rigoroso que, segundo contavam seus colegas, corrigia até Machado de Assis. O que nos levou aos clássicos foi a percepção de que eles eram importantes. Se os professores fossem carrascos assustadores, alguns colegas talvez tivessem fugido. Eu, não; e falo também pelas pessoas mais inteligentes que conheci nas disciplinas de latim e grego. Nós teríamos topado qualquer negócio para corrigir a educação que recebemos.

Porém, se vamos falar de qualidade técnica, o exemplo do próprio articulista – traduções acadêmicas – é de fato o mais eloqüente. Um português terrível, não raro eivado de erros de concordância e pontuação, uma incapacidade assombrosa de traduzir os termos antigos sem recorrer ao literal ou ao etimológico, em suma, a inépcia na língua de partida e o iletramento na de chegada – essas são as características da tão louvada torrente tradutória que jorra de nossas universidades. Nem poderia ser diferente, num país em que a suposta erradicação do analfabetismo vem acompanhada do crescimento avassalador de sua variante funcional (que, segundo pesquisa recente, afeta mais da metade dos universitários brasileiros). A suposição de que jovens semiletrados possam tornar-se “pesquisadores de ponta” em questão de cinco anos é pura insanidade. O fato, que testemunhei com estes olhos que a terra há de comer, é que mesmo os estudantes mais talentosos terminam a graduação em latim sem serem capazes de ler uma peça clássica, não digo com fluência de vocabulário, mas sequer com compreensão adequada da sintaxe.

Se o latim (ou o grego) tem algo a oferecer ao Brasil, este algo é a absorção – trabalhosa e atrasada – de uma cultura que nos foi sonegada por burocratas tão ignorantes quanto presunçosos. O latim pode não ser “de direita ou de esquerda”, já que o significado concreto dessas categorias varia com o tempo, e ele, não; mas é exatamente por ter alguma permanência, por estar ligado a valores tradicionais, que foi tratado como inimigo pelas forças revolucionárias (algumas das quais, segundo ouvimos, eram de direita). Quem escolheu para ele esse papel? Cícero, César, Virgílio? Se alguém é culpado da associação entre latim e direita, esse culpado é a esquerda, cujo proverbial desprezo pelos bens da cultura forçou-os a tomar refúgio “do outro lado”. Não é bem o latim que é direitista; mas a direita é, neste momento, a única que está disposta a protegê-lo contra o assédio de mil variantes da esquerda política e universitária. O mesmo se pode dizer de muitos outros assuntos e doutrinas supostamente conservadores, whatever that means.

Ademais, confessar – como o Prof. Vasconcellos – que o latim é a porta para a cultura ocidental, enquanto nega qualquer relação sua com valores morais, é querer dissociar a cultura dos valores. Esta idéia pode perfeitamente ocorrer a um cidadão comum, que não tenha qualquer familiaridade com os clássicos; num latinista, ela deixa de ser apenas inconseqüente e começa a soar absurda. Se os clássicos não têm qualquer relação com a formação moral do estudante, tampouco se pode dizer que possuam alguma significância intelectual – a não ser que o Prof. Vasconcellos acredite num intelecto abstrato que não tem coisa alguma a ver com as idéias de bem e mal, certo e errado, numa palavra, com a vida. Suspeito que seja nisso mesmo que ele crê: no estudo artificial e estéril duma língua e duma literatura morta, irrelevante para o homem moderno, fechada em si mesma e em suas convenções “interessantes” – objeto de curiosidade mórbida; cadáver literário para legistas iletrados.

No fundo, é sempre a este ponto que as idéias do Prof. Vasconcellos retornam: a defesa duma corporação de legistas lingüísticos, financiados por verba estatal para brincar de acadêmicos respeitáveis e apresentar seus painéis irrelevantes nos States enquanto novos ignorantes são abandonados à própria sorte nas infladas e falidas universidades. Se ele se esforça tanto para ver “pesquisa de ponta” onde tudo indica existir um oceano de vigaristas e semi-analfabetos, não é por outro motivo, senão porque discursa em causa própria. O latim, para ele, não é “nem de direita, nem de esquerda”: é dele e dos seus amigos. E o país que se dane.