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A Educação do Orador: Tradução anotada do livro II da Institutio Oratoria, de Quintiliano

educacao-do-oradorA “Institutio Oratoria”, de Quintiliano, é uma obra significativa para os Estudos Clássicos, devido, por exemplo, à relevância e extensão das discussões retóricas nela promovidas. Dentre os doze livros que constituem a “Institutio”, o livro II tem a especificidade de ser intermediário entre a técnica pedagógica e a teoria retórica. Fornece exercícios (“progymnasmata”) próprios do professor de retórica (“rhetor”) e discute princípios teóricos que nortearão a obra inteira. Nosso propósito neste trabalho foi realizar uma tradução acadêmica, com notas que tornassem viável a leitura crítica e a compreensão aprofundada da obra.

MaquiavelPedagogo

O Vocabulário Diabólico da UNESCO (Notas a Pascal Bernardin)

MaquiavelPedagogoAs coisas terríveis às quais aludirei neste texto estão documentadas no livro Maquiavel Pedagogo, de Pascal Bernardin (publicado em português pela VIDE Editorial): são idéias sistematicamente defendidas e propagadas, em documentos oficiais, por cientistas e pedagogos da UNESCO. Se não cito aqui as fontes específicas de cada uma delas é por falta de tempo, e por saber que esse grosso trabalho já está feito e publicado. Por outro lado, mesmo que não houvesse provas textuais, algo deveria trazer-me o benefício da dúvida: muito do que vou dizer aqui pode provocar no leitor, como provocou em mim, lembranças de uma idade mais inocente, em que um pervertido obteve permissão de meus pais para estuprar minha consciência, assim aviltando o nome e a nobreza da profissão de professor.

Não tratarei aqui dos fins das ações da UNESCO. Ela possui um ideário que é, de resto, o mesmo da ONU, e que não deixa de ter muito em comum com a mentalidade jornalística brasileira (ou, o que dá no mesmo, com os liberals americanos). Tudo o que se diz nos documentos da organização é sempre justificado pela necessidade de acabar com o preconceito, a discriminação, o atraso cultural da sociedade, etc. Não preciso dizer que, múltiplas vezes, vemos essas lindas palavras ligadas à célula familiar (“transmissora de preconceitos”), às religiões e às culturas nacionais e tradicionais (“preconceito étnico”). Numa palavra, a Unesco sonha com uma “ética universal” (sic) fundamentada nos chamados direitos humanos – explicitamente, no internacionalismo, no materialismo, cientificismo, pacifismo radical (“não-violência”) e ecologismo. Esse, porém, não é o meu objeto, porque já vem sendo discutido com seriedade por autores como o Mons. Juan Claudio Sanahuja.

Para eliminar os preconceitos e demais mazelas das nações, os pedagogos da UNESCO vêm estudando, há décadas, uma disciplina chamada Psicologia Social (muitas vezes aludida com o nome genérico de “Ciências Sociais”, mas facilmente interpretada no contexto como significando especificamente a Psicologia Social). Meu objetivo aqui é explicitar o significado concreto da terminologia (vaga e de difícil interpretação, aos olhos de um leigo) que vem sendo utilizada nos documentos da UNESCO e, consequentemente, no ensino universitário de Pedagogia. Esses termos aparecem na boca de pedagogos do Brasil e do mundo, com ares de sabedoria esotérica, e é importantíssimo que cada pai e mãe saibam seu real significado, para poderem dar-lhes resposta apropriada.

O conceito-chave é, evidentemente, educação. A palavra tem um sentido muito específico, que é delineado pelas exigências que dela se fazem. Os maníacos da UNESCO admitem que todo projeto educacional é determinado pelo seu objetivo, pelo seu fim; e neste caso, dizem eles, o fim não pode ser um “intelectualismo elitista”, que privilegie o “acadêmico”. A educação segundo a UNESCO visa, ao contrário, ao desenvolvimento social. “Desenvolvimento social” quer dizer a construção de um certo tipo de sociedade, em que as pessoas se comportam assim-assado — e isso remete, evidentemente, à “ética universal” de que falei acima. A idéia é, numa primeira fase, desenvolver uma educação multicultural, isto é, uma educação que facilite a convivência de diversas “culturas” (no sentido de “sociedades distintas”). Em seguida, passar-se-á a uma educação intercultural, que deveria ser chamada “unicultural”, pois visa à ética supracitada. A oposição multicultural x intercultural é importantíssima, pois diz respeito, respectivamente, a uma fase de transição e ao objetivo propriamente dito.

Ora, uma “educação” que pretende produzir um conjunto de atitudes, visando ao “desenvolvimento social”, não pode prescindir de um método adequado – o qual, como vimos, não pode ser o método tradicional, cuja fundamentação “acadêmica” é pouco eficaz na criação de culturas (os cientistas enfatizam bastante a ineficácia “prática” do método tradicional, “intelectualista” e “elitista”, isto é, que ele não consegue transformar as crianças em autômatos pré-programados). Aqui entram as “Ciências Sociais”, e por isso a UNESCO encomendou um estudo intitulado A Mudança de Atitudes (“atitude” significa o comportamento, a conduta, behavior). A educação tem de tornar-se não-cognitiva ou, como os pedagogos preferem, ativa, multidimensional, experimental. Isso se deve a psicólogos comportamentais (behaviorists) terem demonstrado experimentalmente a eficácia das ações na mudança de comportamento.

Descobriu-se, por exemplo, um fenômeno chamado dissonância cognitiva. Suponha que uma pessoa faz, um pouco por acidente, algo incompatível com alguma de suas crenças. Não encontrando razão plenamente confessável para o ato, a mente tenderá a justificá-lo a posteriori (o que se chama normalmente de racionalização). Isso é particularmente comum em confissões escritas. Um prisioneiro americano que odiava a China comunista foi induzido a escrever um elogio do país, como uma espécie de jogo. Seu texto foi publicado na prisão e muito elogiado. Em alguns dias, o americano passou a defender convictamente o regime*. A dissonância cognitiva mostra que existe um modo praticamente seguro de mudar rapidamente o comportamento das pessoas. E esse não é o único método. A título de exemplo, há outro chamado norma de grupo, que significa basicamente que se um grupo de pessoas começa a discutir um fenômeno elas tenderão a adotar um consenso. O que interessa aos “pedagogos” é que esse consenso não precisa ser verdadeiro. Ele pode ser influenciado de diversos modos. O mais simples é a inserção de uma figura de autoridade no grupo: as pesquisas mostram que em praticamente todos os casos a figura de autoridade determina o resultado da “discussão”, e ainda assim permanece o efeito de “consenso”.

Esses dois conceitos são especialmente relevantes porque o primeiro é a origem do uso pedagógico do psicodrama, enquanto o segundo resultou em diversas práticas de grupo. Toda vez que temos encenações em sala de aula, apresentações teatrais ou simulações as mais variadas, é o psicodrama que está em jogo. Os cientistas da UNESCO comemoram que o psicodrama tem imenso sucesso na “modificação de atitudes”. A criança que joga lixo no chão, depois de fazer o papel de um herói ecológico que passa sermão na plateia inteira, tende a tornar-se uma ecochata fanática (para a UNESCO, um exemplo de santidade). Isso se dá porque o psicodrama é uma eficaz técnica hipnótica, usada por terapeutas para transformar crenças e hábitos. As práticas de grupo se manifestam nos supostos “debates” (que, como sabemos, são filtrados e controlados pelo professor para chegar à conclusão esperada). Também se estimula todo tipo de atividade que atribua mais autoridade ao grupo do que aos pais ou à tradição (pois ambas, na opinião dos cientistas, são fontes de “preconceitos”). Segundo os psicólogos, é muito fácil influenciar a opinião dos grupos de jovens, o que torna esses grupos autoridades desejáveis (especialmente em comparação com outras como pais e sacerdotes). Isto é, mina-se a autoridade da família e da religião, substituindo-a pela do grupo, ao mesmo tempo em que se aplicam técnicas de psicologia social para controlar as opiniões do grupo.

Quando se fala de educação multidimensional, também surge a ideia de que a educação não deve “apenas” transmitir “informações”, mas atingir a totalidade da personalidade. Fala-se que toda educação pressupõe a dimensão dos valores, e que deve assumi-los e trabalhar por eles. O significado concreto disso é que a educação deve moldar o comportamento dos estudantes, e essa formatação deve ser completa: emoções, convicções, hobbies, sonhos, tudo deve ser influenciado o quanto possível dentro do quadro dos “valores” da UNESCO. Ensinar uma doutrina não é o bastante, nem é desejável, porque uma doutrina precisa persuadir a inteligência. O melhor é “modificar atitudes”, isto é, condutas, de preferência sem que o sujeito perceba que está sendo induzido. Ele deve sentir que está fazendo tudo porque quer. A mudança é sub-reptícia. Repito que tudo isso está dito, tal e qual, nos documentos da UNESCO.

Quando escolas promovem atividades práticas (outro jeito de dizer ativas ou experimentais), que colocam os estudantes numa posição ideologicamente comprometida, isso não deve ser encarado como acidental. Os pedagogos que citei preconizam explicitamente atividades extracurriculares que ajudem a internalizar as “atitudes” apropriadas. Quando se fazem discussões em grupo sobre temas “atuais”, com intromissões sutis do professor, não se trata de coincidência. A UNESCO vem promovendo artigos, manuais pedagógicos e cursos de atualização que ensinam os professores a fazer exatamente isso. E o poder dessa coisa sobre a mente de crianças e adultos está documentado. É o mais extenso controle cerebral já feito na História, com grau elevadíssimo de sucesso. A primeira coisa que pretendo com este texto é divulgar a terminologia pseudopedagógica que vem sendo utilizada para esconder essas técnicas de manipulação mental.

Em segundo lugar, eu gostaria também que os leitores pensassem sobre os efeitos que essa pedagogia teve em seus próprios casos. Quaisquer pessoas que tenham estado na escola nas últimas duas décadas devem ter sido submetidas a técnicas como as que descrevi. Quanto mais jovem a pessoa, pior, pois os métodos se desenvolveram e disseminaram. Lembrem-se de que essa educação visa simplesmente a desenvolver reflexos condicionados, e despreza totalmente o desenvolvimento intelectual. Lembrem-se também de que, com o tempo, tendemos a nos dessensibilizar e achar natural que sempre reajamos a tudo de modo automático e semi-consciente. Achamos normal nunca termos lido Os Lusíadas, não sabermos diferenciar uma oração subordinada de uma coordenada, não conseguirmos escrever um texto sem erros grotescos, demorarmos para fazer uma conta simples, não sabermos as diferenças situacionais entre um debate e um discurso, nunca termos lido uma fonte primária de algum evento histórico etc.

Isso significa que há grandes chances das minhas e das tuas capacidades linguísticas, matemáticas, etc. estarem numa situação tenebrosa. É urgente que desenvolvamos uma grande desconfiança de nossas próprias inteligências, e que corramos contra o tempo para corrigir esse processo. É igualmente urgente que aqueles que possuem filhos passem, além de conscientizar as crianças a respeito dessas técnicas, a vigiar cada passo de seus professores e cobrar as escolas fazendo quanto escândalo possível. Quando falarem de “multidimensionalidade”, digam que é bestialidade. Quando falarem de “habilidades sociais” digam que é engenharia social, estupro intelectual e abuso de menores. Quando falarem de “valores”, digam que quem ensina valores a seus filhos são vocês, e que não vão aceitar que pressionem e induzam as crianças contra a família. Seu filho é um ser humano. Não deixe a escola adestrá-lo como um animal.

* A mesma técnica é aplicada diariamente na escola, quando se pede que alunos escrevam redações sobre temas que desconhecem totalmente. É claro que, antes da redação, eles têm uma “aula” em que o professor lhes diz exatamente tudo o que devem pensar a respeito. Depois de escrever o texto, as crianças adotam aquelas opiniões como se as tivessem formado sozinhas, com grande convicção.

grammatica

Notas sobre o Estudo do Latim

grammaticaComo celebro agora o primeiro Natal depois da conclusão das gravações para o Curso de Latim Online, sinto-me inclinado a avaliar a experiência, levando em consideração os depoimentos de alunos e o contato que tive com outros professores de latim e áreas próximas.

Encontrei o latim enquanto procurava minha origem. A princípio mero símbolo de uma jornada ainda obscura, provou-se legítimo soberano, tendo sido por mim abandonado e redescoberto mais de uma vez; pode-se dizer que afinal entendi, num sentido mais profundo que o usual, por que todos os caminhos levam a Roma.

Ao contrário de muitos (talvez a maioria) dos latinistas, não me interessei propriamente pela língua do Lácio, instrumento precioso dos filólogos, chave da etimologia, manual dos eruditos. Queria mesmo era estudar filosofia. Enquanto a maioria dos meus semelhantes saltava, ávida, para o grego ático (tentação que sofri eu mesmo), tive a felicidade de perceber que, mais que da “língua original”, era preciso participar da “tradição cultural” que levava à filosofia. O templo de Apolo não se abria aos ímpios; antes os envolvia numa teia de ilusões, guiando-os para o mais denso da floresta, onde envelheciam delirantes, privados para sempre da luz do sol. A verdadeira Sibila só respondia a quem se dirigisse a ela na linguagem correta: a língua perpétua da humildade, da submissão aos ancestrais, da “pietas” impiedosa representada pelo Rei Anquises, no mundo dos mortos, instruindo seu filho Eneias sobre a vontade dos deuses. Não o brilho, o chamariz, o Olimpo; sim as sombras, o reino desprezado ou temido, o inferno. Foi este o caminho de Virgílio; foi este o de Dante. É o verdadeiro sentido dos versos de Pope:

“A little learning is a dang’rous thing;
Drink deep, or taste not the Pierian spring”

“Drink deep”, e não “much”. Não se trata, aqui, de erudição, isto é, do acúmulo de estudos sobre um autor ou uma época, que poderíamos chamar de estudo “horizontal”. Ao contrário, é preciso descobrir a significância de cada elemento, o peso que adquiriram na história e na formação das maiores almas de todos os tempos e, consequentemente, da nossa civilização como um todo. Ironicamente, a língua latina, que normalmente atrai inteligências minuciosas, “fault-finders” e normativistas ranzinzas, impressionou-me justamente pela elevação, pelo desprendimento, pela transcendência dos seus autores e da tradição que eles compunham.

Em outras palavras, não eram os particípios, gerundivos e declinações que interessavam — embora fossem, evidentemente, parte do caminho. O foco (digo-o no sentido etimológico, que remete ao fogo sagrado do deus Lar) era, para mim, o latim como disciplina intelectual e, em certo sentido, espiritual. O latim como “lingua pontifex”, construtora de pontes, ligando Dante e Camões a Homero por intermédio de Virgílio (esse Príncipe e Sumo Pontífice dos poetas), o organismo vivo que, ao longo de dois mil anos, adaptou-se harmoniosamente à cosmologia neoplatônica, à religião cristã, à literatura e filosofia da Grécia. O latim, não como língua, mas como alma; como ancião do Ocidente, profeta longevo, “magister gentium”. Aos poucos ele se tornou, para mim, a mesma coisa que a filosofia. Mais tarde eu descobriria que assim o concebiam os mestres medievais, que chamavam o estudo da língua e literatura latina (“grammatica”) de “pars prima philosophiae”, e John de Salisbury, que lembrava a seus contemporâneos (como poderia lembrar aos nossos): “em vão se avança rumo às demais disciplinas, sem a posse desta”.

Os métodos tradicionais de latim costumavam apresentar a língua como uma espécie de “introdução à lógica matemática”. Não estavam inteiramente enganados, claro; não obstante, bravos guerreiros tombaram perante os rigorosos “magistri” ginasiais, entre gemidos de “rosa, rosam, rosae…”. Contra tais sofrimentos, levantaram-se muitos, dentre os quais destaca-se a corrente de Hans Ørberg, que rememora a natureza social da linguagem e pede que o latim seja ensinado mais ou menos como as línguas modernas.

Eu me formei, inicialmente, com a Gramática Latina de Napoleão Mendes de Almeida e com os “Gradus” de Paulo Rónai, ambos representantes do ensino tradicional; na universidade, estudei com um método intermediário, o “Reading Latin”, que procurava ensinar a teoria gramatical de passagem, enquanto enfatizava a quantidade de leitura. Quando conheci Ørberg, já dava aulas particulares há alguns anos, mas me interessei e li alguns de seus materiais complementares (minha paciência para os livros introdutórios já não era grande), cuja qualidade nunca me decepcionou.

Sou um sujeito simples: não tendo motivo contrário, gosto de tudo e todos. Achei difícil escolher entre as tantas virtudes dos vários métodos e, no esforço de aprender a língua com máxima eficácia, acabei compondo uma metodologia própria que de original tem nada ou muito pouco. É possível descrevê-la como um “Reading Latin” sem textos adaptados, em que a teoria gramatical foi substituída pelo método analítico de Napoleão Mendes, com o acréscimo da “enarratio poetarum” conforme a aprendi nos pedagogos antigos e medievais. Dentre os autores famosos, Ørberg foi quem menos influenciou minhas concepções, talvez porque eu já pensasse de modo semelhante a ele em vários aspectos, mas os pontos nos quais divergimos dizem respeito, simplesmente, a diferenças em nossos objetivos.

A língua latina é muitas coisas; entre elas, é uma língua. Já foi falada um dia, e pode ser falada de novo. Evidentemente, não se aprende latim para fazer compras ou turismo, nem para conversar sobre um programa de televisão; tais coisas cada um pode fazer em sua respectiva língua moderna. Há um ou outro americano maluco que, segundo li, organiza “acampamentos latinos” indignos de homens adultos, mas isso não está necessariamente ligado à ideia de ensinar “latim vivo”.

O latim já foi a língua da alta cultura e das universidades, e poderia voltar a ser (refiro-me agora ao bonito projeto de Luigi Miraglia); contudo, não é o caso no presente momento, nem creio que será pelas próximas décadas. No novo papel social que os acadêmicos passaram a desempenhar, o idioma dos antigos escolásticos não lhes interessa mais. Além do mais, a integração de universidade, Igreja e cultura clássica não parece poder ser restituída imediatamente. Tenho mesmo a impressão de que sua existência na Baixa Idade Média não foi causa do esplendor intelectual da época, mas um de seus efeitos: se quisermos de fato restaurar a possibilidade de uma língua única para a alta cultura ocidental, creio que, antes de tentar a “renovação” do latim em moldes humanistas, o correto seria empreender sua “restauração” à maneira carolíngia. Noutras palavras, o que interessa no latim são, primeiramente, os “auctores” clássicos; o resto pode esperar, e talvez espere muito.

Aprender latim como uma língua comum pode ser o objetivo de alguns; outros preferem, como já mencionei, fazer dele uma espécie de treinamento lógico. Do modo como o vejo, contudo, trata-se da “primeira parte da filosofia” e, de certo modo, “imagem da filosofia”: uma disciplina cujo objetivo é passar de aparências a essências, por intermédio da resolução dialética de interpretações contraditórias. Uma arte que começa na recitação e na análise sintática, transita pela apreciação de figuras de pensamento e de palavras, chega à crítica literária e aponta para as mais altas inspirações do gênio humano.

Segundo a lição de Olavo de Carvalho, “a filosofia é a busca da sabedoria; a poesia é a sabedoria em busca dos homens”, e facilmente se redescobre o mesmo sentido na fórmula de S. João: “amamos nós, porque Ele nos amou primeiro”. Se a sabedoria é o Verbo, segunda Pessoa da Santíssima Trindade, hoje encarnado e ressurreto sob o nome de Jesus Cristo, a poesia é Cristo que bate à porta e entra em nossas casas; a filosofia somos nós que abandonamos nossas casas, de portas escancaradas, para reencontrar Cristo. Este reencontro, expresso por diferentes autores como a modalidade suprema de consciência, é todo o objetivo da filosofia, e uma sombra dele resplandece em cada uma de suas partes menores. O estudo das letras não é exceção: seu objetivo deve ser, portanto, o estabelecimento de certa ordem na inteligência; a qual, não obstante ser ordem, impele para uma superação de si mesma, rumo àquela sabedoria que não pode ser abarcada por disciplina alguma. Todo e qualquer conhecimento só me interessa se contribui para esse fim, e testemunho que a língua latina, conforme a estudei e ensinei, sempre se mostrou tão eficaz quanto prometiam os mestres antigos e medievais.

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Saindo do atoleiro

Entre as perguntas que recebi ao final da minha última palestra, intitulada As Crianças e o Trivium ( http://www.icls.com.br/aula/as-criancas-e-o-trivium/ ), percebi uma inquietude generalizada sobre a preparação requerida para dar às crianças uma educação de qualidade superior. Minha resposta imediata consistiu em garantir que o trabalho não é tão difícil quanto parece, que qualquer um pode começar a fazê-lo com seus próprios filhos; mas senti que, em tão breve tempo, não pude transmitir a segurança de que aqueles pais precisavam. Segue uma tentativa mais elaborada de tranquilizá-los.

Primeiro, é preciso enfatizar a concepção educacional das artes liberais como um treinamento. Hoje se considera que educar é empilhar conhecimentos variados na cabeça de uma criança, na expectativa de que algum dia ela use cada um deles. Eu já esqueci a maior parte do que suei para aprender na escola, mas não sinto falta de nada; na verdade, esqueci porque tive de aprender outras coisas, essas sim realmente relevantes para tomar decisões acertadas e lidar com os problemas da vida. As artes liberais não servem para acumular conhecimento, e sim para desenvolver faculdades da alma. Uma vez afiados, os instrumentos da inteligência podem ser aplicados livremente ao que o estudante deseje.

Assim sendo, o trivium não tem compromisso com um currículo fechado ou com “avaliações de conhecimento”. Seus exercícios são isto mesmo: exercícios, como os que se fazem nas academias de musculação. E o dever essencial do professor, por melhor que seja sua formação, é simplesmente fazer com que o aluno exercite corretamente suas faculdades. Na arte literária — o primeiro estágio — o foco não é dar eruditas palestras sobre língua e literatura, mas desenvolver a sensibilidade para essas disciplinas. Em outras palavras, não é o fim do mundo perceber-se ignorante e incapaz: ao contrário, é um motivo extra para apresentar suas crianças às artes liberais e, junto a elas, descobrir você também o que os clássicos têm a oferecer-nos hoje.

Se você não conhece as palavras do texto, abra o dicionário e procure-as, junto com o seu filho. Se “não sabe” interpretar um poema, esta é sua chance de, discutindo-o à mesa da cozinha com as crianças, começar a desenvolver suas habilidades interpretativas. Não faz tanta diferença se o resultado não for o ideal, porque o “espírito da coisa” não é chegar a algum ideal. É justamente o processo, o esforço de entender o texto, que desenvolve a inteligência: a do seu filho, e a sua também.

Não estou dizendo que vai ser fácil, nem que é indiferente ter mais ou menos preparação. Estou, sim, chamando atenção para um fato: na atual situação do país, ou você educa seu filho, ou ninguém vai fazê-lo. Um pai ignorante, brigando para educar-se, ainda é melhor do que duzentos ignorantes fantasiados de professores, para quem educar os filhos dos outros é transmitir-lhes seus próprios preconceitos. Concentrando-se no essencial, e insistindo em obter tanta formação quanto possível, podemos esperar resultados muito bons.

conselhos

Conselhos para o Estudo do Latim

Tendo recebido uma mensagem de certa irmã carmelita, que me solicitava algum apoio para aprender o latim da liturgia de seu convento, e que não podia ter aulas particulares – já que vive em clausura – decidi gravar este pequeno vídeo para o benefício dos que não podem – ou não querem – estudar latim com um professor. Trata-se de alguns conselhos para um estudo eficaz e frutífero que, roubando o mínimo de energia e tempo, apresente máximo resultado. Espero que o vídeo seja transmitido para a estudiosa monja e quiçá, por meio da bondade divina, para outros que dele possam beneficiar-se.

Para conhecer melhor o Curso de Latim Online, acesse: www.cursodelatimonline.com.br

Esqueça o mandarim. O latim é a chave do sucesso

Texto original do The Spectator.

Confessemos que encorajar crianças a aprender latim não parece a solução para nossa atual crise de competências. Por que desperdiçar valioso tempo de currículo numa língua morta quando as crianças poderiam aprender uma que é falada de verdade? A importância do latim em escolas públicas é uma manifestação daquela tradição beletrista e cavalheiresca na qual assuntos esotéricos são preferidos a qualquer coisa que possua algum uso prático. Sem dúvida essa é uma das causas da crise, para começar!

Mas cave um pouco mais fundo e encontrará bastantes indícios de que esta língua morta em particular é precisamente o que os jovens de hoje precisam, se é que pretendem destacar-se no mundo contemporâneo.

Comecemos com a reputação do latim como assunto elitista. Embora seja verdade que 70% das escolas particulares oferecem latim, comparadas com apenas 16% das escolas públicas, essa dificilmente seria uma razão para não ensiná-lo em mais lugares. Segundo a OECD, nossas escolas privadas são as melhores do mundo, enquanto as estatais ranqueiam em média no vigésimo terceiro lugar.

Sem dúvida parte dessa diferença nos resultados pode ser atribuída ao fato de que a criança de escolas privadas tem, em média, vantagens que a criança de escola estatal não possui. Mas também pode ser devida às diferenças entre os currículos normalmente seguidos em escolas privadas e estatais.

Por difícil que pareça de acreditar, uma coisa que põe as crianças de escolas particulares no topo é o conhecimento de latim. Não o digo apenas nos sentidos mais óbvios – sua percepção da gramática e sintaxe básicas, sua compreensão das maneiras como nosso mundo é fundamentado no mundo clássico, sua habilidade de ler inscrições latinas. Quero dizer que há de fato um número significativo de indícios de que as crianças que estudam latim superam seus pares quando se trata de leitura, interpretação de textos e vocabulário, além de raciocínio de mais alto nível, como computação, conceitos e resolução de problemas.

Para um exame completo do assunto, recomendo um artigo de 1979 da educadora Nancy Mavrogenes que apareceu na revista acadêmica Phi Delta Kappan. Resumindo um estudo americano influente realizado no estado de Iowa, ela escreve:

Em 1971, mais de 4.000 alunos de quarto, quinto e sexto graus, de diversos contextos e capacidades, receberam entre 15 e 20 minutos de instrução diária em latim. O desempenho dos alunos de quinto grau no teste de vocabulário do Teste de Iowa de Habilidades Básicas foi um ano mais avançado do que o desempenho do grupo de controle que não havia estudado latim. Tanto o grupo de latim como o grupo de controle foram comparados segundo contextos e capacidades semelhantes.

Curiosamente, Mavrogenes descobriu que crianças de contextos pobres beneficiam-se ainda mais do estudo de latim. Para uma criança com pontos de referência cultural limitados, adquirir formação na vida e mitologia romanas abre “novos mundos simbólicos”, permitindo-lhe “crescer como personalidade, viver uma vida mais rica”. Ademais, o latim falado enfatiza a pronúncia clara, em especial o final das palavras, um corretivo útil para muitas crianças nascidas no interior. Finalmente, o latim fornece, a crianças que têm problemas de leitura, “experiência na leitura silenciosa e cuidadosa de palavras que seguem um padrão fonético consistente”.

Esta foi exatamente a experiência de Llewelyn Morgan, um classicista de Oxford e co-autor de recente panfleto da Politeia sobre por que se deveria ensinar latim em escolas primárias. “Essas crianças aprendem por meio do latim o que eu aprendi: o que são verbos e substantivos, como coordenar as ideias na fala e na escrita, todos os modos de dizer a mesma coisa”, declara. “Não aprendi e não poderia ter aprendido isso por meio do inglês, porque o inglês era demasiado familiar para mim. Foi por meio do latim que aprendi como expressar-me fluentemente em minha própria língua nativa”.

Ora, talvez você até reconheça que o latim tem estes benefícios, mas responda que não há nada de especial nisso. Por que em vez disso não aprender mandarim? Não apenas teria o mesmo efeito transformador, mas também o valor adicional da praticidade.

Mas quão útil é o mandarim? Tudo bem se você for à China, mas o latim tem a vantagem de ser a raiz de um conjunto inteiro de línguas europeias. “Se estou num voo da EasyJet com um grupo de europeus nativos, dos quais nenhum fala inglês, percebo que podemos nos comunicar se falarmos em latim”, diz Grace Moody-Stuart, professora de Clássicos em West London. “Esqueça o esperanto. O latim é a verdadeira língua universal dos europeus”.

Diferente de outras línguas, em latim não se trata só de conjugar verbos. Ele inclui um curso devastador em história antiga e cosmologia. “O latim é a matemática das humanidades”, diz Llewelyn Morgan, “mas também tem algo que as matemáticas não têm: a história e mitologia do mundo antigo. Latim é matemática com deusas, gladiadores e cavalos voadores, ou crianças voadoras”.

Sem dúvida, alguns persistirão em questionar a utilidade do latim. Para esses céticos tenho uma resposta de duas palavras: Mark Zuckerberg. O jovem fundador do Facebook, agora com 26 anos de idade, estudou Clássicos na Academia Phillips Exeter, e listou o latim como uma das línguas que falava em seu formulário de admissão para Harvard. Ele é tão versado no assunto que uma vez citou versos da Eneida durante uma conferência de produtos do Facebook, e agora considera o latim como uma das chaves para seu sucesso. O quão bem sucedido ele é exatamente? De acordo com a revista Forbes, ele vale $6.9 bilhões. Se essa não é uma habilidade útil, não sei o que é.