Os Graus de Letramento e o Trivium
Este curso, ministrado online para uma turma experimental em fins de 2018, surgiu como resultado de anos de trabalho com o ensino de línguas e literatura. Tendo dedicado meus estudos universitários à linguística e aos estudos clássicos, descobri por fim a tradição pedagógica das artes liberais. Em seu estudo e aplicação, gastei uma década da minha vida.
Embora hoje muito se fale de educação clássica, Trivium e artes liberais, encontrei muito poucos interessados que respeitassem os princípios básicos do sistema. Quantos, ao descrever-se como mestres de todas as sete artes, no mesmo ato mostram não ter nenhuma sensibilidade para a primeira delas? Quantos ensinam retórica ou geometria sem saber manipular a pontuação da língua portuguesa?
Não desejando incorrer neste erro, tão logo descobri que a primeira arte liberal, fundamento de todas as outras, era a grammatica — entendida como estudo formal da língua e da alta poesia — investiguei os métodos clássicos e procurei aplicá-los rigorosamente em mim mesmo e nos meus alunos.
Graças a esta fidelidade crescente à tradição, foi-se tornando cada vez mais difícil para mim dialogar com as instituições existentes, inclusive as que se propõem ensinar uma “educação clássica” de sua própria invenção. Não escolhi a via independente: fui obrigado a ela, seja por não conseguir ignorar a superioridade dos métodos antigos, seja por querer aplicá-los em sua essência, enquanto muitos se contentavam com sua aparência e nomes.
Não obstante, nunca me recusei a adaptar elementos acidentais e fazer certos experimentos, salvo o cuidado e respeito pela tradição: ensinei latim, como se fazia antes, mas além disso experimentei usar as mesmas técnicas com a língua e a literatura portuguesa, e vi as diferenças concretas de cada abordagem. Porém, em cada experimento, atentei para as perdas que decorriam de cada adaptação, e não raro tive de voltar atrás e reconhecer aos pedagogos antigos as melhores razões.
Os resultados que surgiam dessas práticas ditas “ultrapassadas” — alguns chegam a chamá-las “ineficazes” e até “inaplicáveis”, embora tenham sido realizadas por centenas de anos e gerado homens do calibre de um Platão ou de um Sto. Agostinho — comprovaram minha intuição de que estavam fundamentadas numa experiência muito mais profunda do processo educacional.
Conforme os estudantes avançam nos estudos “gramaticais” do Trivium, sua percepção da linguagem — e, como testemunhei muitas vezes, da realidade como um todo — sofre alterações notáveis. Embora os antigos não tenham teorizado sobre esses “graus de letramento”, sem dúvida percebiam sua existência em alguma medida; pois ela está implícita nas práticas educacionais que os pedagogos clássicos professavam.
Ao longo de anos estudando, aplicando e experimentando com as técnicas clássicas e medievais, presenciei o desenvolvimento de alunos de idades e estratos sociais muito diferentes. Aos poucos, vi emergirem padrões reconhecíveis na sua evolução, suficientes para elaborar uma sistematização preliminar do avanço na arte grammatica. Desde então, alguns alunos meus também se tornaram professores e começaram a aplicar este sistema para avaliar e auxiliar seus próprios estudantes, com grande sucesso.
Os graus de letramento são uma explicação original da primeira disciplina do Trivium, com base em uma década de investigação histórica, teórica e prática. Ajudam a recuperar a importância intelectual e pedagógica da grammatica, devolvendo-lhe seu lugar como “primeira parte da filosofia”, e dão, por assim dizer, o caminho das pedras pelo qual, segundo a admirável expressão de Montesquieu, “torna-se mais inteligente um ser inteligente”.