Esqueça o mandarim. O latim é a chave do sucesso

Texto original do The Spectator.

Confessemos que encorajar crianças a aprender latim não parece a solução para nossa atual crise de competências. Por que desperdiçar valioso tempo de currículo numa língua morta quando as crianças poderiam aprender uma que é falada de verdade? A importância do latim em escolas públicas é uma manifestação daquela tradição beletrista e cavalheiresca na qual assuntos esotéricos são preferidos a qualquer coisa que possua algum uso prático. Sem dúvida essa é uma das causas da crise, para começar!

Mas cave um pouco mais fundo e encontrará bastantes indícios de que esta língua morta em particular é precisamente o que os jovens de hoje precisam, se é que pretendem destacar-se no mundo contemporâneo.

Comecemos com a reputação do latim como assunto elitista. Embora seja verdade que 70% das escolas particulares oferecem latim, comparadas com apenas 16% das escolas públicas, essa dificilmente seria uma razão para não ensiná-lo em mais lugares. Segundo a OECD, nossas escolas privadas são as melhores do mundo, enquanto as estatais ranqueiam em média no vigésimo terceiro lugar.

Sem dúvida parte dessa diferença nos resultados pode ser atribuída ao fato de que a criança de escolas privadas tem, em média, vantagens que a criança de escola estatal não possui. Mas também pode ser devida às diferenças entre os currículos normalmente seguidos em escolas privadas e estatais.

Por difícil que pareça de acreditar, uma coisa que põe as crianças de escolas particulares no topo é o conhecimento de latim. Não o digo apenas nos sentidos mais óbvios – sua percepção da gramática e sintaxe básicas, sua compreensão das maneiras como nosso mundo é fundamentado no mundo clássico, sua habilidade de ler inscrições latinas. Quero dizer que há de fato um número significativo de indícios de que as crianças que estudam latim superam seus pares quando se trata de leitura, interpretação de textos e vocabulário, além de raciocínio de mais alto nível, como computação, conceitos e resolução de problemas.

Para um exame completo do assunto, recomendo um artigo de 1979 da educadora Nancy Mavrogenes que apareceu na revista acadêmica Phi Delta Kappan. Resumindo um estudo americano influente realizado no estado de Iowa, ela escreve:

Em 1971, mais de 4.000 alunos de quarto, quinto e sexto graus, de diversos contextos e capacidades, receberam entre 15 e 20 minutos de instrução diária em latim. O desempenho dos alunos de quinto grau no teste de vocabulário do Teste de Iowa de Habilidades Básicas foi um ano mais avançado do que o desempenho do grupo de controle que não havia estudado latim. Tanto o grupo de latim como o grupo de controle foram comparados segundo contextos e capacidades semelhantes.

Curiosamente, Mavrogenes descobriu que crianças de contextos pobres beneficiam-se ainda mais do estudo de latim. Para uma criança com pontos de referência cultural limitados, adquirir formação na vida e mitologia romanas abre “novos mundos simbólicos”, permitindo-lhe “crescer como personalidade, viver uma vida mais rica”. Ademais, o latim falado enfatiza a pronúncia clara, em especial o final das palavras, um corretivo útil para muitas crianças nascidas no interior. Finalmente, o latim fornece, a crianças que têm problemas de leitura, “experiência na leitura silenciosa e cuidadosa de palavras que seguem um padrão fonético consistente”.

Esta foi exatamente a experiência de Llewelyn Morgan, um classicista de Oxford e co-autor de recente panfleto da Politeia sobre por que se deveria ensinar latim em escolas primárias. “Essas crianças aprendem por meio do latim o que eu aprendi: o que são verbos e substantivos, como coordenar as ideias na fala e na escrita, todos os modos de dizer a mesma coisa”, declara. “Não aprendi e não poderia ter aprendido isso por meio do inglês, porque o inglês era demasiado familiar para mim. Foi por meio do latim que aprendi como expressar-me fluentemente em minha própria língua nativa”.

Ora, talvez você até reconheça que o latim tem estes benefícios, mas responda que não há nada de especial nisso. Por que em vez disso não aprender mandarim? Não apenas teria o mesmo efeito transformador, mas também o valor adicional da praticidade.

Mas quão útil é o mandarim? Tudo bem se você for à China, mas o latim tem a vantagem de ser a raiz de um conjunto inteiro de línguas europeias. “Se estou num voo da EasyJet com um grupo de europeus nativos, dos quais nenhum fala inglês, percebo que podemos nos comunicar se falarmos em latim”, diz Grace Moody-Stuart, professora de Clássicos em West London. “Esqueça o esperanto. O latim é a verdadeira língua universal dos europeus”.

Diferente de outras línguas, em latim não se trata só de conjugar verbos. Ele inclui um curso devastador em história antiga e cosmologia. “O latim é a matemática das humanidades”, diz Llewelyn Morgan, “mas também tem algo que as matemáticas não têm: a história e mitologia do mundo antigo. Latim é matemática com deusas, gladiadores e cavalos voadores, ou crianças voadoras”.

Sem dúvida, alguns persistirão em questionar a utilidade do latim. Para esses céticos tenho uma resposta de duas palavras: Mark Zuckerberg. O jovem fundador do Facebook, agora com 26 anos de idade, estudou Clássicos na Academia Phillips Exeter, e listou o latim como uma das línguas que falava em seu formulário de admissão para Harvard. Ele é tão versado no assunto que uma vez citou versos da Eneida durante uma conferência de produtos do Facebook, e agora considera o latim como uma das chaves para seu sucesso. O quão bem sucedido ele é exatamente? De acordo com a revista Forbes, ele vale $6.9 bilhões. Se essa não é uma habilidade útil, não sei o que é.

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