abril 14

Auxílio para obter o arrependimento dos pecados — do Venerável Frei Luís de Granada

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(Traduzido do Memorial da Vida Cristã, Tratado da Penitência e Confissão, Capítulo III. Considerações que podem ajudar a ter dor e horror dos pecados, Parte I. Quanto à multidão deles;)

Ora, para provocar esta dor em tua alma, deves primeiramente pôr diante dos olhos todo o curso de tua vida passada – em outras palavras, todos os pecados que nela cometeste, juntamente com o abuso de todos os benefícios e favores que recebeste de Deus. E, porque o pecado é um desvio do sumo bem e do fim para que o homem foi criado, considere ele primeiro este fim, e verá mais claro quão desviado andou dele.

O fim para que Deus neste mundo criou o homem não foi, por certo, plantar vinhas, nem construir casas, nem amontoar riquezas e viver em deleites, como as obras de alguns dão a entender, mas para que conhecesse a Deus, e O amasse, e guardasse Seus mandamentos; e por este meio alcançasse o sumo bem para que foi criado. Para isto lhe deu lei em que vivesse, e graça com que a guardasse, e Sacramentos que lha administrassem, e mestres que a ensinassem, e inspirações que a isto o provocassem; e, acima de tudo isto, Se deu a Si mesmo como pagamento e remédio de todos os seus males. Para isto também lhe deu os bens da natureza, que são a vida, a saúde, as forças, as potências da alma, os sentidos e membros do corpo; para que empregasse tudo isso em serviço de quem lho havia dado.

E para isto mesmo lhe proveu também dos bens que chamam “da sorte”, para que com eles conservasse a vida, e ajudasse a necessidade alheia, e deles, finalmente, se ajudasse também para merecer a glória.

Esses e outros tais são os bens e auxílios que Deus te deu para que por eles O amasses e conhecesses, e com eles O servisses.

Vê, pois, agora, como usaste tu de todos estes benefícios, como cumpriste com todas estas leis e obrigações. Primeiramente, se vês o fim para que Deus te criou, e consideras o que escolheste tu, verás claramente quão desencaminhado andaste e quanto te desviaste d’Ele. Pois Ele te criou para Si, isto é, para que n’Ele empregasses todo o teu entendimento, tua memória, tua vontade, e n’Ele tivesses todo o teu amor, tua fé, tua esperança; e tu, esquecido de tudo isso, empregaste tudo na baixeza das criaturas, menosprezando o Criador, aplicando e atribuindo a elas o que se devia somente a Ele. A elas amaste e adoraste, e nelas puseste tua fé, tua esperança, teu descanso e todo o teu contentamento; e isso foi dar às criaturas o que era próprio do Criador, e pôr nas coisas da terra o que tinhas de pôr nos bens do céu. Por aqui também verás quão mal cumpriste com a primeira de tuas obrigações, que é com o primeiro dos mandamentos de Deus, que pertence a este fim. Se duvidas, olha quão esquecido viveste deste Senhor — pois quase toda a vida te passou sem que te desses conta d’Ele; quão ingrato foste a Seus benefícios, pois tão pouco agradeceste por eles; quão pouco caso fizeste de Seus mandamentos, pois tantas vezes os quebraste; quão pouco amor tiveste a quem tanto merecia ser amado, tendo-o tão grande às pequenezas e ninharias deste século; e, finalmente, quão pouco temor tiveste àquela tão grande majestade, enquanto temias tanto aos vermes nojentos da terra.

E, além disto, quantas vezes juraste e perjuraste Seu nome em vão, arrastando-O em tua boca suja, como testemunha em tuas disputas e mentiras? Como santificaste as festas ordenadas para glorificá-Lo e louvá-Lo, e para chorar os pecados passados, pois estavas aguardando estes dias para somar pecados a pecados e fazer festa aos demônios?

Que honra guardaste a teus pais naturais? E aos espirituais, que são teus diretores e superiores, pois tão pouco caso fizeste de todas as suas regras e ordens? Que amor e fraternidade tiveste para com o próximo, pois tantas vezes por tuas vaidades e mesquinharias o pisaste e desprezaste, e maltrataste e lhe desejaste a morte? Como guardaste teu corpo e alma do vício carnal, pois que tantas vezes, por obras, por palavras, por pensamentos, por desejos e deleites voluntários, tu te emporcalhaste nesta lama e profanaste o templo que Deus sustentava para ser santificado? Quem explicará aqui a soltura de teus olhos, a torpeza de teus pensamentos, a indecência de tuas palavras, tuas festas, teus passeios, tuas relações e conversações, e invenções de maldades? Pois que direi dos furtos de tua avareza, já que não estimavas nem adoravas coisa alguma mais que o dinheiro, fazendo dele teu último fim, servindo-o, amando-o, e fazendo por ele o que somente por Deus se devia fazer?

E a soltura de tua língua, tuas murmurações, detrações, infâmias, injúrias, lisonjas, maldições e mentiras, quem as poderá explicar, pois quase todas as tuas falas e conversações se gastavam nisto?

Depois dos mandamentos divinos, discorre também por aqueles sete pecados que chamam capitais, e verás quanto te cabe deles. Qual foi tua ambição, a presunção, a vanglória e soberba de teu coração, a jactância de tuas palavras e a vaidade de tuas obras? Quantas foram tuas iras, tuas invejas, tua glutonaria e os favores a teu corpo, tua preguiça e lentidão para tudo o que é bom, e a ligeireza e prontidão para todo o mal? Olha também para as obras de misericórdia, tanto as corporais como as espirituais, quão pouca conta tiveste delas, e quão pouco caso fizeste das necessidades e misérias alheias, sendo tão compassivo para com as tuas.

Agora, quanto aos benefícios divinos, dize-me, por favor: de que maneira fizeste uso deles? A vida que Ele te deu, em que a ocupaste? O engenho, as forças e habilidades naturais, em que as empregaste? A fazenda e os outros bens temporais, em que os gastaste? Porque, a bem da verdade, tudo isso foi em vaidades e ofensas a Deus. De maneira que, dos bens que d’Ele recebeste, contra Ele fizeste armas, e ali onde estavas mais obrigado a fazer-Lhe maiores serviços, cometeste maiores pecados, tirando razão para mais O ofender justamente de onde tinhas que tirar para mais amá-Lo.

Enfim, de tal maneira viveste, como se nunca tivesses obrigação com Deus, como se nada tivesses recebido d’Ele, ou como se tu mesmo te houvesses criado e não dependesses d’Ele.

Ora, quem tem olhos para ver todas essas lástimas, e entender quão perdidos e descarrilados foram seus caminhos, e quão mal cumpriu com todas essas obrigações e mandamentos, não será bem que chore e se dissolva todo em lágrimas com a consideração de males tão grandes? O que é que sente, quem isto não sente? O que chora, quem isto não chora, a não ser quem não tenha olhos para ver tão grande estrago como ele mesmo fez em todos os bens de sua alma?


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Cristianismo, Tradução


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