IICONGRESSOCONFRARIA

A unidade do Trivium

Esta palestra foi dada no II Congresso de Artes Liberais, em Porto Alegre. Seu tema é a relação entre as três disciplinas do Trivium, e de que modo elas compõem uma unidade, como sugere o tradicional esquema triangular em que cada arte leva, organicamente, às outras duas. Para demonstrar a relação entre as artes, é preciso examiná-las individualmente, ressaltando os elementos permanentes que parecem guiar o curso do Trivium do começo ao fim.

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Introdução a Os Lusíadas

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PROGRAMA

Aula I: Vida de Camões e contexto da obra
Aula II: Métrica e sintaxe
Aula III: Camadas de sentido

Estas aulas são parte do curso Formação Literária da Criança. Tendo discutido, nas aulas anteriores, como aplicar as técnicas clássicas de ensino usando os instrumentos modernos, percebi que os alunos sentiam necessidade de assistir a uma aplicação do método. Os exemplos dados ao longo das aulas teóricas não eram suficientes para formar uma visão integral do que seria ensinar segundo os princípios clássicos.

Os Lusíadas foi a obra que recomendei mais efusivamente como matéria-prima da formação literária, por atender a todos os critérios clássicos, ter sido composta na língua portuguesa e ter como autor o maior poeta do nosso idioma. Assim, decidi dar este curso, não como se eu fosse um especialista em Camões — pois não o sou — mas como um professor de literatura que deseja demonstrar o método clássico de formação literária, em sua primeira etapa: a interpretação de poesia.

Portanto, este curso pode ser útil àqueles que nunca estudaram Os Lusíadas, já que encontrarão nele uma introdução rápida e substanciosa, e ainda mais útil aos que desejam entender e aplicar o método clássico de explicação de textos. Diferentemente do Formação Literária da Criança, este curso não abrange a gramática do Trivium inteira, mas apenas a sua primeira etapa; isso porque é mais fácil ser conciso numa exposição teórica. Demonstrar tudo na prática exigiria muito mais tempo; mas dar continuidade a esse esforço está nos meus planos.

Hugo de São Vítor

Educação e Humildade (Hugo de São Vítor, trad. Rafael Falcón)

Hugo de São Vítor

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Este e-book gratuito é uma tradução comentada e bilíngüe (latim-português) do capítulo “Humildade” (Didascalicon III, 13), em que Hugo de São Vítor expõe as características da humildade estudantil, os tipos de soberba que ameaçam a busca pela sabedoria e o que se deve fazer para prevenir-se contra eles. Os comentários são puramente didáticos, e visam a esclarecer passagens mais ou menos obscuras, sem pretensões acadêmicas.

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As Metamorfoses (Ovídio, trad. Bocage, comentários de Rafael Falcón)

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Bocage já foi considerado por alguns o maior poeta da língua portuguesa. Ovídio, a quem ele traduz nesta seleção, se encontra em posição semelhante, seu nome nunca estando ausente das listas de “autores essenciais” da literatura antiga.

As Metamorfoses são o projeto mais ambicioso de Ovídio: um poema épico em quinze cantos, que narra a maior parte dos mitos greco-romanos de alguma importância.

Talvez já bastasse editar o livro bilíngüe, com Bocage e Ovídio lado a lado e valiosas ilustrações mitológicas de grandes pintores. Fizemos tudo isso; mas não queremos uma publicação de tal monta parada nas estantes, ininteligível e desvalorizada, como aconteceu com tantos clássicos no Brasil. Sonhamos que Ovídio e Bocage serão os mestres literários de uma geração. Para esse fim, oferecemos também neste volume: 1) extensos comentários que esclarecem obscuridades, figuras de linguagem, referências e detalhes de estilo, 2) um glossário ao final do livro, 3) um parágrafo-resumo em prosa antes de cada mito e 4) uma introdução que sugere como tirar o máximo da obra.

Esta publicação interessará aos amantes da literatura, mas sobretudo aos autodidatas, pais e professores em geral, que andam à procura de bom material para a instrução literária. Encontrarão aqui um clássico, que é clássico duas vezes, no original e na tradução, e cuja edição foi preparada especialmente para os que querem estudar e aprender.

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A Educação do Orador: Tradução anotada do livro II da Institutio Oratoria, de Quintiliano

educacao-do-oradorA “Institutio Oratoria”, de Quintiliano, é uma obra significativa para os Estudos Clássicos, devido, por exemplo, à relevância e extensão das discussões retóricas nela promovidas. Dentre os doze livros que constituem a “Institutio”, o livro II tem a especificidade de ser intermediário entre a técnica pedagógica e a teoria retórica. Fornece exercícios (“progymnasmata”) próprios do professor de retórica (“rhetor”) e discute princípios teóricos que nortearão a obra inteira. Nosso propósito neste trabalho foi realizar uma tradução acadêmica, com notas que tornassem viável a leitura crítica e a compreensão aprofundada da obra.

Ascensao-Universidades

A Ascensão das Universidades (C. H. Haskins, prefácio de Rafael Falcón)

“A raiz das universidades sempre foi, ao que tudo indica, um professor. Alguém se destacava no ensino de uma disciplina, e eis que a ele acorriam alunos de toda parte, seja para matar a curiosidade ou para obter desempenho superior em alguma profissão nobre (como advocacia, medicina ou teologia). Não fique o leitor espantado se isso lembrá-lo dos antigos sofistas, do próprio Sócrates ou do filósofo Pedro Abelardo, falecido pouco antes do surgimento da Universidade de Paris. De fato, parece ser essa uma lei universal do empreendimento pedagógico: o professor é a pessoa mais importante, aquela que determina o sucesso e o fracasso das escolas e faculdades e, em última instância, do aprimoramento cultural de todo o mundo.”
(excerto do prefácio de Rafael Falcón)

Ascensao-Universidades

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A origem e a natureza das primeiras universidades do Ocidente é o assunto desta famosa série de palestras proferida em 1923 pelo historiador americano Charles Homer Haskins, e traduzida pela primeira vez no Brasil.

Num estilo vibrante e entusiasmado, o autor explica como surgiram as instituições universitárias, além de pintar um retrato vivo do cotidiano dos alunos e professores de cidades como Paris, Oxford e Bolonha.

“A ascensão das universidades” é um livro que ilumina o conhecimento do público brasileiro sobre a Idade Média, época de importantes realizações culturais e intelectuais, mas que permanece inadequadamente associada ao obscurantismo na imaginação popular.

 

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Conservadores, Brás Cubas e a pedra filosofal

emplasto-bras-cubasQuem ouve falar aos sedizentes conservadores brasileiros fica, suponho eu, aliviado. Descobertas há as mais surpreendentes, declaradas em meio à celeuma de heurecas: existe verdade, não é relativa, Cristo isto, virtudes aquilo. As mesmas respostas, milagrosamente, solucionam todo gênero de problemas. Passou o tempo da ignorância. O Brasil tem futuro garantido.

Não importa o campo do conhecimento, o emplasto Brás Cubas resolve o dilema. A “dignidade humana” e a “lei natural” passeiam, enquanto falamos, pelas alamedas da inteligência; estavam há pouco com um biólogo pró-vida… agora cruzaram para a casa de um jurista – que escrevia sobre cotas – e parece que saíram de um bar na Rua Augusta. Amanhã visitarão um pedagogo, que com elas diagnosticará a educação brasileira; depois têm hora marcada com certo professor de matemática, que sabe-se lá como as envolverá em suas exatas ciências.

Agora há pouco me bateram à porta uns finórios de cartola e bengala, perguntando-me que tenho eu contra tão nobres senhoras. Sou eu inimigo da dignidade humana? Que me fez ela? E a lei natural? E quem mais pretendo insultar com vagas referências literárias? Os distintos cavalheiros me avisaram que nem cogite mencionar a “santa pureza” ou a “caridade”. Mas me entenderam mal: debaixo das cartolas, continuam brasileiros, e como ótimos brasileiros, péssimos leitores. Não tenho nada contra as damas citadas, que entre nós são, aliás, donzelas intocadas e desconhecidas. Parece-me que cá nunca pisaram, ou se o fizeram, já faz tempo e foi em segredo.

Não sou opositor da caridade, da santa pureza, da dignidade humana ou (de modo algum!) da lei natural. Cortejo-as todas de longe, quase sempre por carta e foto, já que não se dignam a visitar-me, nem tenho eu recursos para visitá-las com frequência.

Minha desconfiança – não a chamem inimizade! – é com o bálsamo universal, que às vezes usurpa os nomes a essas senhoras e a outras mui dignas. Percebe-se a fraude por sinais exteriores: de repente a caridade mostra impaciência, a santa pureza explode em tremores psicóticos, a dignidade humana soa cafona e burocrática, a lei natural rasga as vestes como um fariseu. E todas, sem exceção, ocupam lugares alheios, posando de soluções definitivas para grandes mistérios que, se encarados por um pobre mortal como eu, pareceriam exigir décadas de estudo cada um.

Lia eu, há não mais que algumas horas, em algum site conservador, assim de passagem, num artigo sobre outro assunto, uma observação rápida e impaciente, em tom de quem diz o óbvio ululante: “o propósito da educação é…”. É o quê? Adivinhe o leitor, optando entre: a) incutir virtudes/valores; b) nutrir bons afetos; c) apreciar a beleza; e d) todas as anteriores. Tanto faz, todos dizem o mesmo, todos sabem qual é o propósito da educação. Aristocles, o filósofo de ombros largos, desbravou o mistério; depois Cícero, Quintiliano, Boécio, Alcuíno, Dhuoda, Hugo de S. Vítor, John Milton, Rousseau, Tolstói, Jean Piaget… embalde. A solução para este problema, como para os demais, já estava reservada ao Brasil do século XXI.

Ora, se há um hábito que o brasileiro, conservador ou revolucionário, esquerdista ou direitista, criança ou adulto, jamais abandona, é o de ter respostas simples e pré-fabricadas para todos os problemas do universo, sem nunca ter-se dado ao trabalho de estudá-los individualmente. Não por acaso, o texto teórico parece exercer uma assombrosa atração sobre nossas classes pensantes, que o preferem a todos os demais gêneros literários. Quanto mais universais as pretensões do texto, mais sedutor ele se torna. O brasileiro não se aproxima de Aristóteles pelo interesse na metafísica, mas pelo desejo de valer-se da metafísica como de um elixir alquímico que tudo transformasse em ouro. Nem se aproxima de Karl Marx pelo interesse em economia, mas pelo ardor de, munido de conceitos econômicos, apresentar ao mundo uma solução final.

Se o leitor quiser, portanto, economizar anos de leitura de blogs intelectualóides, pode adotar o seguinte método: caso queira saber a opinião “de esquerda” a respeito de qualquer problema, recorra à ideia de luta de classes e à opressão da elite burguesa sobre as classes trabalhadoras; caso queira saber a opinião “conservadora”, recorra ao Catecismo Romano, com especial atenção ao exame dos Dez Mandamentos. Ali se encontram todas as respostas que o conservador brasileiro deu, dá e dará a respeito das mais intrincadas questões filosóficas, políticas, psicológicas, pedagógicas, mecânicas e esportivas. Na verdade, alguns de nossos conservadores já começam a considerar a literatura um passatempo perigoso e a filosofia pagã como mera peça de museu (já absorvida, em tudo o que nela havia de proveitoso, no Código de Direito Canônico). Nas drogarias, já não há espaço para outro fármaco; o emplasto Brás Cubas cura todas as dores, inclusive a consciência da própria burrice.

MaquiavelPedagogo

O Vocabulário Diabólico da UNESCO (Notas a Pascal Bernardin)

MaquiavelPedagogoAs coisas terríveis às quais aludirei neste texto estão documentadas no livro Maquiavel Pedagogo, de Pascal Bernardin (publicado em português pela VIDE Editorial): são idéias sistematicamente defendidas e propagadas, em documentos oficiais, por cientistas e pedagogos da UNESCO. Se não cito aqui as fontes específicas de cada uma delas é por falta de tempo, e por saber que esse grosso trabalho já está feito e publicado. Por outro lado, mesmo que não houvesse provas textuais, algo deveria trazer-me o benefício da dúvida: muito do que vou dizer aqui pode provocar no leitor, como provocou em mim, lembranças de uma idade mais inocente, em que um pervertido obteve permissão de meus pais para estuprar minha consciência, assim aviltando o nome e a nobreza da profissão de professor.

Não tratarei aqui dos fins das ações da UNESCO. Ela possui um ideário que é, de resto, o mesmo da ONU, e que não deixa de ter muito em comum com a mentalidade jornalística brasileira (ou, o que dá no mesmo, com os liberals americanos). Tudo o que se diz nos documentos da organização é sempre justificado pela necessidade de acabar com o preconceito, a discriminação, o atraso cultural da sociedade, etc. Não preciso dizer que, múltiplas vezes, vemos essas lindas palavras ligadas à célula familiar (“transmissora de preconceitos”), às religiões e às culturas nacionais e tradicionais (“preconceito étnico”). Numa palavra, a Unesco sonha com uma “ética universal” (sic) fundamentada nos chamados direitos humanos – explicitamente, no internacionalismo, no materialismo, cientificismo, pacifismo radical (“não-violência”) e ecologismo. Esse, porém, não é o meu objeto, porque já vem sendo discutido com seriedade por autores como o Mons. Juan Claudio Sanahuja.

Para eliminar os preconceitos e demais mazelas das nações, os pedagogos da UNESCO vêm estudando, há décadas, uma disciplina chamada Psicologia Social (muitas vezes aludida com o nome genérico de “Ciências Sociais”, mas facilmente interpretada no contexto como significando especificamente a Psicologia Social). Meu objetivo aqui é explicitar o significado concreto da terminologia (vaga e de difícil interpretação, aos olhos de um leigo) que vem sendo utilizada nos documentos da UNESCO e, consequentemente, no ensino universitário de Pedagogia. Esses termos aparecem na boca de pedagogos do Brasil e do mundo, com ares de sabedoria esotérica, e é importantíssimo que cada pai e mãe saibam seu real significado, para poderem dar-lhes resposta apropriada.

O conceito-chave é, evidentemente, educação. A palavra tem um sentido muito específico, que é delineado pelas exigências que dela se fazem. Os maníacos da UNESCO admitem que todo projeto educacional é determinado pelo seu objetivo, pelo seu fim; e neste caso, dizem eles, o fim não pode ser um “intelectualismo elitista”, que privilegie o “acadêmico”. A educação segundo a UNESCO visa, ao contrário, ao desenvolvimento social. “Desenvolvimento social” quer dizer a construção de um certo tipo de sociedade, em que as pessoas se comportam assim-assado — e isso remete, evidentemente, à “ética universal” de que falei acima. A idéia é, numa primeira fase, desenvolver uma educação multicultural, isto é, uma educação que facilite a convivência de diversas “culturas” (no sentido de “sociedades distintas”). Em seguida, passar-se-á a uma educação intercultural, que deveria ser chamada “unicultural”, pois visa à ética supracitada. A oposição multicultural x intercultural é importantíssima, pois diz respeito, respectivamente, a uma fase de transição e ao objetivo propriamente dito.

Ora, uma “educação” que pretende produzir um conjunto de atitudes, visando ao “desenvolvimento social”, não pode prescindir de um método adequado – o qual, como vimos, não pode ser o método tradicional, cuja fundamentação “acadêmica” é pouco eficaz na criação de culturas (os cientistas enfatizam bastante a ineficácia “prática” do método tradicional, “intelectualista” e “elitista”, isto é, que ele não consegue transformar as crianças em autômatos pré-programados). Aqui entram as “Ciências Sociais”, e por isso a UNESCO encomendou um estudo intitulado A Mudança de Atitudes (“atitude” significa o comportamento, a conduta, behavior). A educação tem de tornar-se não-cognitiva ou, como os pedagogos preferem, ativa, multidimensional, experimental. Isso se deve a psicólogos comportamentais (behaviorists) terem demonstrado experimentalmente a eficácia das ações na mudança de comportamento.

Descobriu-se, por exemplo, um fenômeno chamado dissonância cognitiva. Suponha que uma pessoa faz, um pouco por acidente, algo incompatível com alguma de suas crenças. Não encontrando razão plenamente confessável para o ato, a mente tenderá a justificá-lo a posteriori (o que se chama normalmente de racionalização). Isso é particularmente comum em confissões escritas. Um prisioneiro americano que odiava a China comunista foi induzido a escrever um elogio do país, como uma espécie de jogo. Seu texto foi publicado na prisão e muito elogiado. Em alguns dias, o americano passou a defender convictamente o regime*. A dissonância cognitiva mostra que existe um modo praticamente seguro de mudar rapidamente o comportamento das pessoas. E esse não é o único método. A título de exemplo, há outro chamado norma de grupo, que significa basicamente que se um grupo de pessoas começa a discutir um fenômeno elas tenderão a adotar um consenso. O que interessa aos “pedagogos” é que esse consenso não precisa ser verdadeiro. Ele pode ser influenciado de diversos modos. O mais simples é a inserção de uma figura de autoridade no grupo: as pesquisas mostram que em praticamente todos os casos a figura de autoridade determina o resultado da “discussão”, e ainda assim permanece o efeito de “consenso”.

Esses dois conceitos são especialmente relevantes porque o primeiro é a origem do uso pedagógico do psicodrama, enquanto o segundo resultou em diversas práticas de grupo. Toda vez que temos encenações em sala de aula, apresentações teatrais ou simulações as mais variadas, é o psicodrama que está em jogo. Os cientistas da UNESCO comemoram que o psicodrama tem imenso sucesso na “modificação de atitudes”. A criança que joga lixo no chão, depois de fazer o papel de um herói ecológico que passa sermão na plateia inteira, tende a tornar-se uma ecochata fanática (para a UNESCO, um exemplo de santidade). Isso se dá porque o psicodrama é uma eficaz técnica hipnótica, usada por terapeutas para transformar crenças e hábitos. As práticas de grupo se manifestam nos supostos “debates” (que, como sabemos, são filtrados e controlados pelo professor para chegar à conclusão esperada). Também se estimula todo tipo de atividade que atribua mais autoridade ao grupo do que aos pais ou à tradição (pois ambas, na opinião dos cientistas, são fontes de “preconceitos”). Segundo os psicólogos, é muito fácil influenciar a opinião dos grupos de jovens, o que torna esses grupos autoridades desejáveis (especialmente em comparação com outras como pais e sacerdotes). Isto é, mina-se a autoridade da família e da religião, substituindo-a pela do grupo, ao mesmo tempo em que se aplicam técnicas de psicologia social para controlar as opiniões do grupo.

Quando se fala de educação multidimensional, também surge a ideia de que a educação não deve “apenas” transmitir “informações”, mas atingir a totalidade da personalidade. Fala-se que toda educação pressupõe a dimensão dos valores, e que deve assumi-los e trabalhar por eles. O significado concreto disso é que a educação deve moldar o comportamento dos estudantes, e essa formatação deve ser completa: emoções, convicções, hobbies, sonhos, tudo deve ser influenciado o quanto possível dentro do quadro dos “valores” da UNESCO. Ensinar uma doutrina não é o bastante, nem é desejável, porque uma doutrina precisa persuadir a inteligência. O melhor é “modificar atitudes”, isto é, condutas, de preferência sem que o sujeito perceba que está sendo induzido. Ele deve sentir que está fazendo tudo porque quer. A mudança é sub-reptícia. Repito que tudo isso está dito, tal e qual, nos documentos da UNESCO.

Quando escolas promovem atividades práticas (outro jeito de dizer ativas ou experimentais), que colocam os estudantes numa posição ideologicamente comprometida, isso não deve ser encarado como acidental. Os pedagogos que citei preconizam explicitamente atividades extracurriculares que ajudem a internalizar as “atitudes” apropriadas. Quando se fazem discussões em grupo sobre temas “atuais”, com intromissões sutis do professor, não se trata de coincidência. A UNESCO vem promovendo artigos, manuais pedagógicos e cursos de atualização que ensinam os professores a fazer exatamente isso. E o poder dessa coisa sobre a mente de crianças e adultos está documentado. É o mais extenso controle cerebral já feito na História, com grau elevadíssimo de sucesso. A primeira coisa que pretendo com este texto é divulgar a terminologia pseudopedagógica que vem sendo utilizada para esconder essas técnicas de manipulação mental.

Em segundo lugar, eu gostaria também que os leitores pensassem sobre os efeitos que essa pedagogia teve em seus próprios casos. Quaisquer pessoas que tenham estado na escola nas últimas duas décadas devem ter sido submetidas a técnicas como as que descrevi. Quanto mais jovem a pessoa, pior, pois os métodos se desenvolveram e disseminaram. Lembrem-se de que essa educação visa simplesmente a desenvolver reflexos condicionados, e despreza totalmente o desenvolvimento intelectual. Lembrem-se também de que, com o tempo, tendemos a nos dessensibilizar e achar natural que sempre reajamos a tudo de modo automático e semi-consciente. Achamos normal nunca termos lido Os Lusíadas, não sabermos diferenciar uma oração subordinada de uma coordenada, não conseguirmos escrever um texto sem erros grotescos, demorarmos para fazer uma conta simples, não sabermos as diferenças situacionais entre um debate e um discurso, nunca termos lido uma fonte primária de algum evento histórico etc.

Isso significa que há grandes chances das minhas e das tuas capacidades linguísticas, matemáticas, etc. estarem numa situação tenebrosa. É urgente que desenvolvamos uma grande desconfiança de nossas próprias inteligências, e que corramos contra o tempo para corrigir esse processo. É igualmente urgente que aqueles que possuem filhos passem, além de conscientizar as crianças a respeito dessas técnicas, a vigiar cada passo de seus professores e cobrar as escolas fazendo quanto escândalo possível. Quando falarem de “multidimensionalidade”, digam que é bestialidade. Quando falarem de “habilidades sociais” digam que é engenharia social, estupro intelectual e abuso de menores. Quando falarem de “valores”, digam que quem ensina valores a seus filhos são vocês, e que não vão aceitar que pressionem e induzam as crianças contra a família. Seu filho é um ser humano. Não deixe a escola adestrá-lo como um animal.

* A mesma técnica é aplicada diariamente na escola, quando se pede que alunos escrevam redações sobre temas que desconhecem totalmente. É claro que, antes da redação, eles têm uma “aula” em que o professor lhes diz exatamente tudo o que devem pensar a respeito. Depois de escrever o texto, as crianças adotam aquelas opiniões como se as tivessem formado sozinhas, com grande convicção.

grammatica

Notas sobre o Estudo do Latim

grammaticaComo celebro agora o primeiro Natal depois da conclusão das gravações para o Curso de Latim Online, sinto-me inclinado a avaliar a experiência, levando em consideração os depoimentos de alunos e o contato que tive com outros professores de latim e áreas próximas.

Encontrei o latim enquanto procurava minha origem. A princípio mero símbolo de uma jornada ainda obscura, provou-se legítimo soberano, tendo sido por mim abandonado e redescoberto mais de uma vez; pode-se dizer que afinal entendi, num sentido mais profundo que o usual, por que todos os caminhos levam a Roma.

Ao contrário de muitos (talvez a maioria) dos latinistas, não me interessei propriamente pela língua do Lácio, instrumento precioso dos filólogos, chave da etimologia, manual dos eruditos. Queria mesmo era estudar filosofia. Enquanto a maioria dos meus semelhantes saltava, ávida, para o grego ático (tentação que sofri eu mesmo), tive a felicidade de perceber que, mais que da “língua original”, era preciso participar da “tradição cultural” que levava à filosofia. O templo de Apolo não se abria aos ímpios; antes os envolvia numa teia de ilusões, guiando-os para o mais denso da floresta, onde envelheciam delirantes, privados para sempre da luz do sol. A verdadeira Sibila só respondia a quem se dirigisse a ela na linguagem correta: a língua perpétua da humildade, da submissão aos ancestrais, da “pietas” impiedosa representada pelo Rei Anquises, no mundo dos mortos, instruindo seu filho Eneias sobre a vontade dos deuses. Não o brilho, o chamariz, o Olimpo; sim as sombras, o reino desprezado ou temido, o inferno. Foi este o caminho de Virgílio; foi este o de Dante. É o verdadeiro sentido dos versos de Pope:

“A little learning is a dang’rous thing;
Drink deep, or taste not the Pierian spring”

“Drink deep”, e não “much”. Não se trata, aqui, de erudição, isto é, do acúmulo de estudos sobre um autor ou uma época, que poderíamos chamar de estudo “horizontal”. Ao contrário, é preciso descobrir a significância de cada elemento, o peso que adquiriram na história e na formação das maiores almas de todos os tempos e, consequentemente, da nossa civilização como um todo. Ironicamente, a língua latina, que normalmente atrai inteligências minuciosas, “fault-finders” e normativistas ranzinzas, impressionou-me justamente pela elevação, pelo desprendimento, pela transcendência dos seus autores e da tradição que eles compunham.

Em outras palavras, não eram os particípios, gerundivos e declinações que interessavam — embora fossem, evidentemente, parte do caminho. O foco (digo-o no sentido etimológico, que remete ao fogo sagrado do deus Lar) era, para mim, o latim como disciplina intelectual e, em certo sentido, espiritual. O latim como “lingua pontifex”, construtora de pontes, ligando Dante e Camões a Homero por intermédio de Virgílio (esse Príncipe e Sumo Pontífice dos poetas), o organismo vivo que, ao longo de dois mil anos, adaptou-se harmoniosamente à cosmologia neoplatônica, à religião cristã, à literatura e filosofia da Grécia. O latim, não como língua, mas como alma; como ancião do Ocidente, profeta longevo, “magister gentium”. Aos poucos ele se tornou, para mim, a mesma coisa que a filosofia. Mais tarde eu descobriria que assim o concebiam os mestres medievais, que chamavam o estudo da língua e literatura latina (“grammatica”) de “pars prima philosophiae”, e John de Salisbury, que lembrava a seus contemporâneos (como poderia lembrar aos nossos): “em vão se avança rumo às demais disciplinas, sem a posse desta”.

Os métodos tradicionais de latim costumavam apresentar a língua como uma espécie de “introdução à lógica matemática”. Não estavam inteiramente enganados, claro; não obstante, bravos guerreiros tombaram perante os rigorosos “magistri” ginasiais, entre gemidos de “rosa, rosam, rosae…”. Contra tais sofrimentos, levantaram-se muitos, dentre os quais destaca-se a corrente de Hans Ørberg, que rememora a natureza social da linguagem e pede que o latim seja ensinado mais ou menos como as línguas modernas.

Eu me formei, inicialmente, com a Gramática Latina de Napoleão Mendes de Almeida e com os “Gradus” de Paulo Rónai, ambos representantes do ensino tradicional; na universidade, estudei com um método intermediário, o “Reading Latin”, que procurava ensinar a teoria gramatical de passagem, enquanto enfatizava a quantidade de leitura. Quando conheci Ørberg, já dava aulas particulares há alguns anos, mas me interessei e li alguns de seus materiais complementares (minha paciência para os livros introdutórios já não era grande), cuja qualidade nunca me decepcionou.

Sou um sujeito simples: não tendo motivo contrário, gosto de tudo e todos. Achei difícil escolher entre as tantas virtudes dos vários métodos e, no esforço de aprender a língua com máxima eficácia, acabei compondo uma metodologia própria que de original tem nada ou muito pouco. É possível descrevê-la como um “Reading Latin” sem textos adaptados, em que a teoria gramatical foi substituída pelo método analítico de Napoleão Mendes, com o acréscimo da “enarratio poetarum” conforme a aprendi nos pedagogos antigos e medievais. Dentre os autores famosos, Ørberg foi quem menos influenciou minhas concepções, talvez porque eu já pensasse de modo semelhante a ele em vários aspectos, mas os pontos nos quais divergimos dizem respeito, simplesmente, a diferenças em nossos objetivos.

A língua latina é muitas coisas; entre elas, é uma língua. Já foi falada um dia, e pode ser falada de novo. Evidentemente, não se aprende latim para fazer compras ou turismo, nem para conversar sobre um programa de televisão; tais coisas cada um pode fazer em sua respectiva língua moderna. Há um ou outro americano maluco que, segundo li, organiza “acampamentos latinos” indignos de homens adultos, mas isso não está necessariamente ligado à ideia de ensinar “latim vivo”.

O latim já foi a língua da alta cultura e das universidades, e poderia voltar a ser (refiro-me agora ao bonito projeto de Luigi Miraglia); contudo, não é o caso no presente momento, nem creio que será pelas próximas décadas. No novo papel social que os acadêmicos passaram a desempenhar, o idioma dos antigos escolásticos não lhes interessa mais. Além do mais, a integração de universidade, Igreja e cultura clássica não parece poder ser restituída imediatamente. Tenho mesmo a impressão de que sua existência na Baixa Idade Média não foi causa do esplendor intelectual da época, mas um de seus efeitos: se quisermos de fato restaurar a possibilidade de uma língua única para a alta cultura ocidental, creio que, antes de tentar a “renovação” do latim em moldes humanistas, o correto seria empreender sua “restauração” à maneira carolíngia. Noutras palavras, o que interessa no latim são, primeiramente, os “auctores” clássicos; o resto pode esperar, e talvez espere muito.

Aprender latim como uma língua comum pode ser o objetivo de alguns; outros preferem, como já mencionei, fazer dele uma espécie de treinamento lógico. Do modo como o vejo, contudo, trata-se da “primeira parte da filosofia” e, de certo modo, “imagem da filosofia”: uma disciplina cujo objetivo é passar de aparências a essências, por intermédio da resolução dialética de interpretações contraditórias. Uma arte que começa na recitação e na análise sintática, transita pela apreciação de figuras de pensamento e de palavras, chega à crítica literária e aponta para as mais altas inspirações do gênio humano.

Segundo a lição de Olavo de Carvalho, “a filosofia é a busca da sabedoria; a poesia é a sabedoria em busca dos homens”, e facilmente se redescobre o mesmo sentido na fórmula de S. João: “amamos nós, porque Ele nos amou primeiro”. Se a sabedoria é o Verbo, segunda Pessoa da Santíssima Trindade, hoje encarnado e ressurreto sob o nome de Jesus Cristo, a poesia é Cristo que bate à porta e entra em nossas casas; a filosofia somos nós que abandonamos nossas casas, de portas escancaradas, para reencontrar Cristo. Este reencontro, expresso por diferentes autores como a modalidade suprema de consciência, é todo o objetivo da filosofia, e uma sombra dele resplandece em cada uma de suas partes menores. O estudo das letras não é exceção: seu objetivo deve ser, portanto, o estabelecimento de certa ordem na inteligência; a qual, não obstante ser ordem, impele para uma superação de si mesma, rumo àquela sabedoria que não pode ser abarcada por disciplina alguma. Todo e qualquer conhecimento só me interessa se contribui para esse fim, e testemunho que a língua latina, conforme a estudei e ensinei, sempre se mostrou tão eficaz quanto prometiam os mestres antigos e medievais.

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