Ascensao-Universidades

A Ascensão das Universidades — Prefácio

[Prefácio à tradução brasileira de A Ascensão das Universidades, Danúbio, 2015]

Ascensao-UniversidadesQuando este utilíssimo livrinho chegou primeiro às minhas mãos, eu investigava a educação da Idade Média, em busca daquele equilíbrio intelectual que só o senso histórico pode dar, por meio de cuja posse eu seria capaz de avaliar os méritos da minha própria educação. O Prof. Charles Homer Haskins deu-me duas vantagens: a primeira, de conhecer diversos aspectos importantes ou pitorescos da vida universitária medieval; a segunda, de perceber que eu, de acordo com meus propósitos no momento, não ganharia muito se continuasse a estudar o assunto.

Talvez o leitor não perceba de imediato como é que a segunda vantagem pode resultar num elogio ao livro do Prof. Haskins. Ocorre que dificilmente eu encontraria um elogio maior, para qualquer obra informativa, do que declará-la suficiente. Para a maioria absoluta dos interessados na universidade medieval, A Ascensão das Universidades será o bastante: suprirá sua curiosidade, alimentará sua inteligência, questionará seus preconceitos e enriquecerá sua cultura. Alguns poucos sentirão o aguilhão da inquietude e consultarão, na cuidadosa bibliografia de apoio (apesar de hoje bastante desatualizada), uma obra-prima como The Mediaeval Mind, ou buscarão estudos mais recentes e específicos; esses são os escolhidos da mestra História, destinados a continuar o penoso trabalho de investigar e esclarecer as condições do ensino universitário medieval. Em suma, este livro satisfaz a muitos pela sua generalidade, excita uns seletos pela sua riqueza, e acima de tudo é útil, de modos diversos, a todos.

E eu não gostaria que pensassem tratar-se de uma “obra introdutória”, como muitas há, que se propõe falar de tudo sem tocar em nada, transmitindo uns poucos rudimentos do “estado científico” do assunto para estudantes condenados a muitos anos ainda de pesquisa detalhista. Não me lembro de jamais ter lido um livro introdutório com o prazer e proveito que me vieram deste. Nele, o Prof. Haskins deu um curso completo sobre a universidade medieval, sem poupar o leitor de muitos exemplos, detalhes e citações a obras da época. De fato, poder-se-ia dizer que temos aqui um belo exemplo de como pode um especialista falar para leigos sem sacrificar nem um pouco a qualidade da informação oferecida.

Por outro lado, convém considerar que A Ascensão das Universidades resultou de um ciclo de palestras numa universidade: o palestrante era um professor universitário, e os alunos, estudantes universitários. O contexto faz do livro, então, um diálogo entre membros de um clã, sobre a origem do mesmo clã; Haskins não ignora esse dado por um só momento, e de fato parece ter planejado suas palestras neste sentido. A história da universidade medieval é, pois, também uma narrativa sobre a origem do palestrante e dos próprios ouvintes, de sua hierarquia, de seus ritos; trata-se como que de um mito fundador, e o Prof. Haskins é o pajé, o guardião das crônicas, o mestre de mitos que desvela os segredos da fundação e a história dos antepassados.

Não posso deixar de observar que, se eu mesmo faço parte do clã e se tenho, pois, interesse pessoal no seu mito fundador, também é verdade que, tendo ouvido, ao longo da formação universitária, muito falar de fetiches como “rigor”, “seriedade” e “ciência”, encontrei no Prof. Haskins uma face diferente do magistério: um espírito erudito, rigoroso, firme e no entanto humano, flexível, compreensivo. Atento às exigências do conhecimento autêntico, mas aberto a refletir sobre seu objeto de estudo e a compreendê-lo com empatia, com imaginação, como convém fazer nas ciências humanas. A universidade não parece, se tomamos este livro como manifestação sua, uma instituição fracassada ou desastrosa ― como a descreveriam alguns que, como eu, tiveram contato com ela no século XXI. De fato, se estudasse na universidade do Prof. Haskins, eu sentiria a tentação de venerá-la, de orgulhar-me dela, de lutar por uma posição dentro de sua hierarquia. Feliz ou infelizmente, aquele tempo passou, e A Ascensão das Universidades não seria hoje aceito nem como mestrado na USP. É interessante demais. Humano demais.

Caso me perguntassem, contudo, se eu gostaria de estudar na universidade do Prof. Haskins, eu responderia que não. E citaria seu próprio livro em minha defesa:

Sócrates, que era um grande professor, não oferecia diplomas, e o estudante moderno que sentasse aos seus pés durante três meses exigiria um certificado, algo tangível e externo que pudesse exibir como uma vantagem do seu estudo ― aliás, esse seria um excelente tema para um diálogo socrático. É somente nos séculos XII e XIII que realmente surgem no mundo aquelas características tão marcantes da educação organizada com as quais estamos mais familiarizados, todos aqueles mecanismos de instrução representados por faculdades, colégios, cursos, exames, formaturas e graus acadêmicos.

No trecho acima está condensada uma verdade lancinante, tão profunda quanto desagradável para nós. De fato, que posição Sócrates teria tomado nesse hipotético diálogo? Será possível que ele seria tão cego quanto nós para o fato de que a criação dessa “segunda realidade”, com suas leis, ritos, dogmas e hierarquias, substituiria e aniquilaria o conhecimento autêntico?

É evidente que, da perspectiva de um professor universitário da década de 1920, o trecho é um elogio à universidade medieval: foi ela que, ao criar todo o maquinário estudantil, tornou possíveis nossas glórias mais recentes. Na década de 1920, talvez eu estivesse de acordo. Hoje, porém, creio estar absolutamente claro que a universidade engessou as inteligências, massacrou os talentos, esmagou o verdadeiro gênio humano, sempre individual e livre, sob o peso mastodôntico da corporação.

Quem ler A Ascensão das Universidades aprenderá, por exemplo, que estudantes universitários sempre foram ― e sempre serão, eu acrescentaria ― uma verdadeira praga, danosos para si mesmos e para todos ao seu redor:

Se fosse preciso evocar evidências adicionais para dissipar a ilusão de que a universidade medieval se dedicava principalmente aos estudos bíblicos e à vida religiosa, os pregadores de Paris desse período forneceriam prova suficiente. “O coração dos estudantes está no lodo”, diz um deles, “atrelado às prebendas, às coisas temporais e à satisfação dos desejos”. “Eles são tão litigiosos e briguentos que não há paz com eles por perto; em qualquer lugar que estejam, seja em Paris ou Orleães, eles perturbam essa terra, os seus colegas e até mesmo toda a universidade.” Muitos deles andam pelas ruas armados, atacam os cidadãos e insultam as mulheres. Eles brigam entre si por causa de cachorros, mulheres e outras coisas mais, ocasião em que decepam os dedos uns dos outros com suas espadas ou, munidos apenas de facas em suas mãos e sem nenhuma proteção para suas cabeças tonsuradas, precipitam-se em combates que cavaleiros armados evitariam. Os seus compatriotas vêm em seu auxílio, e logo nações inteiras de estudantes podem estar envolvidas no conflito.

O tom condescendente do Prof. Haskins, ao longo do livro, faz parecer que esse tempo passou; no entanto, quem foi universitário nas últimas décadas sabe que, sob certo aspecto, até piorou. A agressividade estudantil continua virtualmente a mesma ― apesar de uma ilusória contenção das brigas e assassinatos que ocorriam entre os medievais ― mas hoje, com as técnicas de manipulação psicológica em massa, ela é direcionada para propósitos políticos dos mais nefastos, que (como se não bastasse) aproveitam-se ainda do prestígio residual dos universitários para ganhar uma aparência de “ideais esclarecidos”. Os scholares, sabemos agora, nunca foram esclarecidos; sempre compuseram um dos grupos mais estúpidos, arrogantes e violentos de seres humanos.

Quanto aos professores, logo também formaram suas corporações, com exames de admissão, bancas e diversos critérios de avaliação. Seu poder era grande: conferiam um certificado (licentia docendi) que, raramente usado para seu fim nominal (o de ensinar), servia no entanto para obter prestígio e altos cargos na burocracia estatal ou eclesiástica. Provavelmente funcionou bem nos primeiros anos, enquanto os professores ainda eram homens de estudo; tão logo a licentia ganhasse valor político, porém, era evidente que as corporações se encheriam de carreiristas incapazes e maliciosos, que se valeriam daquele poder para conseguir favores os mais variados e que fariam todo o possível para corromper ou eliminar do jogo qualquer estudante de talento verdadeiro, cujo desempenho brilhante, se não fosse interrompido, inevitavelmente acabaria por jogar luz sobre a charlatanice e os procedimentos escusos dos seus “pares”. Todos os que passaram recentemente por uma universidade sabem o grau de desenvolvimento ao qual o processo já chegou ― e oxalá esteja correta minha impressão, de que quase já não resta mais prestígio, na universidade, para ser sugado por esses burocratas.

Falo assim, não para persuadir o leitor da minha interpretação dos fatos ― coisa que, na minha experiência, raríssimas vezes ocorreu ― mas para ilustrar como é bem-escrito o livro do Prof. Haskins, que me permitiu chegar, com total clareza de idéias, a conclusões opostas às do seu próprio autor.

Evidentemente, não há apenas trevas na origem das universidades. Além das verdades inconvenientes e das curiosidades quase cômicas, o Prof. Haskins ensina muito que pode ser aproveitado de maneira positiva, e que talvez apele, por exemplo, às esperanças dos que ainda crêem numa “reforma da universidade”. Esses gostarão de saber que sua nobre instituição foi fundada, não como um corpo burocrático, mas bâtie en hommes ― feita de homens, e mais nada. Os regulamentos, ritos e obrigações que vieram logo depois foram respostas a necessidades desses mesmos homens (embora muitos deles, posteriores, já não respondessem a necessidades, mas a ânsias nem sempre honestas). Ninguém na Idade Média teve uma “idéia de universidade”, como o Cardeal Newman teria séculos depois.

A raiz das universidades sempre foi, ao que tudo indica, um professor. Alguém se destacava no ensino de uma disciplina, e eis que a ele acorriam alunos de toda parte, seja para matar a curiosidade ou para obter desempenho superior em alguma profissão nobre (como advocacia, medicina ou teologia). Não fique o leitor espantado se isso lembrá-lo dos antigos sofistas, do próprio Sócrates ou do filósofo Pedro Abelardo, falecido pouco antes do surgimento da Universidade de Paris. De fato, parece ser essa uma lei universal do empreendimento pedagógico: o professor é a pessoa mais importante, aquela que determina o sucesso e o fracasso das escolas e faculdades e, em última instância, do aprimoramento cultural de todo o mundo.

É claro que o professor, que aprecia um bom salário, também deve curvar-se às exigências do dever, do bom-senso e, ocasionalmente, dos caprichos estudantis. Não nos surpreendamos ao saber que ele era obrigado a começar a aula ao toque do primeiro sino, e a sair apenas um minuto depois do último; nem evitemos sorrir ao descobrirmos que ele era proibido de pular capítulos e que estava obrigado a expor um livro inteiro (do começo ao fim) dentro do prazo do curso ― nada de passar três meses discutindo bibliografia. A maioria dos nossos professores universitários gritaria de horror diante dessas exigências; mas elas eram, na opinião do mestre medieval, bem razoáveis ― pois os alunos daquela época, como até hoje é hábito dos homens normais, valorizavam seu dinheiro.

Como quem conta casos de família, cheios de interesse pessoal e anedotas graciosas que suavizam a densidade de sua erudição, o Prof. Haskins conduz seus leitores a um conhecimento geral, mas sólido, da universidade primitiva. Não poupa suas imperfeições, nem exagera seus defeitos, nem louva demasiado suas qualidades; tampouco adota a monotonia insuportável da imparcialidade; faz sempre questão de ilustrar o assunto com sentimentos firmes, serenos e, não obstante, intensamente pessoais.

Está de parabéns a Danúbio, que traz aos leigos um livro perfeito, aos historiadores, uma excelente introdução ao assunto, e à cultura do país, um estímulo significativo ao estudo dessa época fascinante em que surgiram as universidades.

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Um livro para ler — e entender

(Apresentação à reedição dos comentários de Francisco de Sales Lencastre pela Editora Concreta)

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Quando eu tinha quinze anos, abri uma edição “com notas” de Os Lusíadas. Li o poema inteiro — isto é, fiz aquilo que, à época, eu chamava de “ler” — e, para além de captar o sentido superficial da maioria das estrofes e algo da entonação épica, não entendi bulhufas.

Camões é um clássico; é o clássico da língua portuguesa. Nele estão os sentimentos morais, as virtudes, a dignidade da civilização lusa. Camões é o fundamento da nossa cultura, é o herói dos nossos escritores.

Mas como arranhar as intuições poéticas, a elevação moral, os arroubos sobrenaturais de um poeta, quando não se consegue juntar sujeito com predicado em seus longos períodos? Quando suas expressões figuradas parecem enigmáticas e até incompreensíveis? Quando não se sabe ao menos do que está ele a falar: quem é Pacheco, em que ponto da Terra os heróis se encontram, que diabos é um mauritano?

Os abecedários medievais começavam com os dizeres: legere et non intellegere, neglegere est — ler, e não entender, é negligenciar. Na raiz etimológica de intellegere, segundo uma tradição antiga, estavam as palavras intus legere (“ler dentro”); na de neglegere, nec legere (“nem ler”); e a mesma frase, lida etimologicamente, assim se traduz: ler, e não ler dentro, não é nem mesmo ler. Passar os olhos pelas letras, apenas pressentindo seu significado, não é leitura de forma alguma. Só lê de fato aquele que domina o campo semântico das palavras, sabe distingui-las de suas parentas, ligá-las a suas amantes, apreciá-las em sua força específica.

E como se aprende a ler, senão com o guiamento de um mestre? Como qualquer arte, a leitura passa pela memorização de alguns dados, e pela prática disciplinada de certos movimentos mecânicos; e, como toda arte, ela só se realiza de fato na articulação de palavras, movimentos e hábitos segundo uma razão complexa, cujo registro completo em livro seria provavelmente impossível — em todo caso, certamente nada prático — e que só pode ser transmitida apropriadamente por um ser humano treinado e dedicado: um mestre de leitura, o grammaticus.

O grammaticus conhece todos os passos para ler adequadamente o gênero textual mais exigente de todos — a poesia — e por isso lê bem tudo o mais. Sabe decodificar os sons sem erro; sabe entonar e pausar; ler e interpretar. Identifica as figuras, quando aparecem, e deduz sua função e sentido; estuda as referências e alusões, reconstrói a sintaxe dos versos, domina-os como a palma de sua mão. Quanto disso pode ser posto em livro? Muito pouco. Mas já nos primeiros séculos da nossa era, quando a barbárie ameaçava as instituições do Império Romano, alguns mestres se puseram a registrar o que podiam. Fizeram-no da maneira mais apropriada, mais rica e mais útil: simulando por escrito suas aulas, explicando um poema verso a verso, e criando assim o único gênero de material didático aceitável para aquele modelo de ensino. A tradição de comentários didáticos se estendeu durante mais de mil anos, até desfalecer subitamente em meados do século XX.

Hoje é segredo e mistério, mas um século atrás ainda se publicavam edições comentadas de clássicos como Os Lusíadas. Eram belos livros escolares, com paráfrases em prosa de cada estrofe, para garantir a compreensão da sintaxe; com notas explicativas que, diferentemente das atuais, explicavam de verdade as referências do texto e as figuras de linguagem; com introduções ricas e eruditas que fundamentavam e aprofundavam a leitura. Não dispensavam o estudo disciplinado e a presença do mestre, nem procuravam substituí-lo, como hoje se faz por meio de “métodos” e “livros didáticos”, pretensas máquinas de educar que convertem os professores em meros fiscais de sala — negando aos alunos, sob pretexto de evitar os defeitos humanos, o privilégio de aprender o que só um ser humano pode ensinar: a apreciação real e vital da poesia. Separado o domínio técnico da contemplação poética, perde-se o sentido de todo o estudo, agora tornado mero formalismo; e o vocabulário da arte, esvaziado da experiência estética integral, vira palavreado oco.

Os comentários, portanto, não visavam a substituir as aulas, mas a servir de apoio para o estudo; preenchiam os vãos da ignorância histórica e lingüística, possibilitando a discussão do poema em níveis mais altos; dispensavam o professor de literatura de tornar-se um filólogo ou historiador, o que lhe tiraria, talvez, o tempo e a disposição de estudar o poema enquanto poema, que é seu aspecto mais interessante e útil; davam aos alunos os meios de ler e entender sozinhos, em casa, o que de outro modo exigiria longas pesquisas, e na prática os tornaria dependentes do professor para tudo.

Por que pararam de editar esses ótimos instrumentos do estudo? Por que, num país em que 92% da população geral e 84% dos profissionais da educação são incapazes de ler, os intelectuais e eruditos crêem que essas edições se tornaram dispensáveis?

Talvez porque não lhes interesse divulgar Os Lusíadas. Os milhões de livros didáticos despejados nas escolas públicas todos os anos, à custa — é bom lembrar — de exorbitantes impostos, preferem analisar revistas em quadrinhos e obscenas letras de “funk”. As publicações de divulgação científica, feitas por acadêmicos que se doutoram na França e nos EUA — mais uma vez, com dinheiro público — insistem em materiais semelhantes aos sobreditos e, se mencionam o nome de Camões, é para equipará-lo a algum sambista pretensioso. Não é exagero dizer que as tirinhas, letras de música — com o perdão da palavra — popular e crônicas de jornalistas semiletrados bloqueiam eficazmente qualquer contato com a cultura tradicional do nosso povo e civilização, para não falar do uso correto, expressivo e belo da língua portuguesa.

Quem sabe qual é o interesse de toda uma classe letrada — nas atuais condições seria mais justo chamá-la pseudoletrada — em tornar inacessível a obra mais importante do nosso idioma? Quem sabe por que razões se investe tanto tempo e dinheiro em desensinar a língua portuguesa e privar as crianças de todo contato com valores morais básicos? Terá sido tudo isto feito conscientemente, ou será fruto de um longo e paulatino processo de emburrecimento? Seja qual for a resposta, a prudência aconselhará a mesma atitude: correr de volta ao passado e recuperar os instrumentos didáticos que formaram nossos grandes homens. A edição de Francisco de Sales Lencastre representa muito honradamente as virtudes da tradição de comentadores escolares aos quais deveram tanto nossos antepassados. Endividemo-nos também nós, para nosso bem, e das futuras gerações.

Pergunte a São Tomás de Aquino o que ele pensa dos seus flashcards.

O Princípio da Educação Clássica

(a ser publicado na revista do I Congresso Regional de Educação Católica)

Pergunte a São Tomás de Aquino o que ele pensa dos seus flashcards.
Pergunte a São Tomás de Aquino o que ele pensa dos seus flashcards.

Em artigos e palestras anteriores, demonstrei a existência de uma tradição clássica na pedagogia do Ocidente, a qual, desde tempos remotos, desenvolveu-se, através das eras, segundo um mesmo espírito, até alcançar a admirável forma em que a vemos nas escolas medievais do século XII. Beneficiar-se dessa tradição é possível, mas não fácil; as exigências técnicas e disciplinares são enormes, e as espirituais talvez sejam ainda mais difíceis de atender — porque exigem o abandono quase completo da mentalidade em que fomos criados e (com o perdão do termo) educados. Continue reading

dante-alighieri

O que é educação clássica

(publicado em Gazeta do Povo, 5 de outubro de 2016)

A educação moderna perverteu-se a tal ponto que se tornou praticamente impossível confiar nas escolas comuns. Quem, em sã consciência, pode desejar seus filhos aprendendo que a identificação do sexo depende do “gênero” que cada um escolha; que jogar lixo na rua é mais ou menos tão grave quanto matar uma pessoa; que a família é um antro de preconceitos nazistas e o comunismo, uma utopia sonhada por floristas inocentes – e não, como é de fato, um ensaio ideológico do diabo?

A solução, evidentemente, está em fazer o que funcionou durante mais de mil anos, antes de as escolas se tornarem laboratórios para reformadores irresponsáveis: buscar os pedagogos certificados não por alguma pós-graduação, mas pela qualidade dos homens que seus ensinamentos produziram. Nomes como Platão, Cícero, Santo Agostinho, Dante Alighieri e tantos outros deveram sua educação a uma mesma tradição pedagógica, que chamamos “clássica”.
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cicero

Dois sentidos de “cultura”

(publicado em Gazeta do Povo, 11 de janeiro de 2016)
ciceroA página do Ministério da Cultura no Facebook compartilhou recentemente uma mensagem catequética que afirmava: “funk é cultura, sim”. A mensagem faz parte de uma campanha intitulada “Dialoga, Brasil”, que supostamente se destina a livrar os brasileiros de seus terríveis preconceitos. Mas o Ministério da Cultura sabe que está usando a palavra “cultura” numa acepção diferente daquela em que o povo, ao negar ao funk esse estatuto, se fundamenta; a catequese governamental não é senão mais uma tentativa de obliterar um sentido da palavra, de modo que não mais seja possível distinguir obras de arte de produções vulgares. Continue reading

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Leitura do Poema II, 26 de Propércio

300px-Prop_and_CynthO amor possuía três grandes gêneros na Roma antiga: a lírica, a elegia e bucólica. A diferença mais enfatizada entre esses gêneros provavelmente é o caráter lacrimoso da poesia elegíaca, o que não significa meramente “triste”. É que a elegia, embora ressalte dores e sofrimentos de amor, não fica privada de certa felicidade e mesmo de um estranho humor; pode-se dizer até que não é raro as tristes lágrimas serem causa de conforto e prazer. Uma diferença mais concreta entre a elegia e os demais gêneros é o metro, o dístico elegíaco, que consiste de um hexâmetro e um pentâmetro dactílico (o segundo verso sendo chamado, com maior exatidão, um “hexâmetro duplamente cataléctico”). O primeiro é feito com seis pés dáctilos (sílaba longa-sílaba breve-sílaba breve), ao passo que o segundo é exatamente como o primeiro, exceto pela falta das duas breves no último pé de cada hemistíquio. Vemos então dois dáctilos, uma sílaba longa, mais dois dáctilos e uma sílaba longa. (Continue lendo esse artigo…)

(CODEX – Revista Discente de Estudos Clássicos, v. 1, p. 7-15, 2010)

Catilina2-Maccari_affresco

Questões de gênero nas Catilinárias

Catilina2-Maccari_affrescoO objetivo deste artigo é explicar, preliminarmente, a estrutura dos gêneros retóricos na Antigüidade Clássica, a saber: deliberativo, epidíctico e judicial. Essa divisão em três gêneros, encarada pelos teóricos e pelos próprios oradores como descritiva e normativamente útil, será examinada com vistas à aplicação desses conceitos nas Catilinárias Prima e Secunda. Esses discursos, do orador Marco Túlio Cícero, apresentam dificuldades se submetidos à classificação antiga, por misturarem os gêneros. Sendo assim, procuraremos explicá-los, servindo-nos principalmente do instrumental oferecido pela Semiótica de linha francesa, mas lembrando igualmente de conceitos formulados por Bakhtin e pela escola francesa de Análise do Discurso, conceitos esses que foram herdados pela Semiótica greimasiana. Entendemos que o gênero, definido pela Semiótica como “uma classe de discurso, reconhecível graças a critérios de natureza socioletal”, é ele mesmo constituinte do sentido do discurso, por revelar escolhas do enunciador e, ao mesmo tempo, determinar uma postura de recepção do discurso, no que se refere ao enunciatário.  (Continue lendo esse artigo…)

(Estudos Semióticos, v. 5, pp. 9-16, 2009)

bouguereau-idylle

O dístico elegíaco latino em português: uma proposta de tradução

bouguereau-idylleFazemos neste artigo uma proposta de tradução do dístico elegíaco latino. Para tanto, além de expor certos princípios teóricos, demonstraremos alguns dos possíveis resultados práticos desses princípios, usando como amostra a elegia I, 9 de Propércio, reproduzida a seguir com a respectiva tradução.

Sexto Propércio foi um poeta romano do círculo de Mecenas, em que convivia com homens como Virgílio e Horácio. Sua poesia é musical e suave, própria para a recitação porque agradável aos ouvidos, tanto no som como no sentido. Não obstante, Propércio impressiona ainda mais por sua habilidade de  usar uma palavra para expandir o sentido de outra. Por isso Ezra Pound considerou-o um mestre da logopéia, a “dança do intelecto entre as palavras”. (Continue lendo esse artigo…)

(Cadernos de Literatura em Tradução, v. 10, pp. 71-79, 2009)

curso de latim online

Sobre a Arte de Ler em Latim

curso de latim onlineEste artigo foi escrito para servir de introdução ao livro “The Art of Reading Latin”, do Prof. William Hale, em edição brasileira pela Editora Resistência Cultural.

Nele, abordo a história do ensino do latim, a função tradicional dessa disciplina e como ela se encaixava no sistema das artes liberais, para mostrar que erram os que a vêem como mero ensino de idiomas. Verdadeiramente, trata-se de uma disciplina intelectual e, o que é mais, daquela que é fundamento de todo o resto.

Baixe o artigo, gratuitamente, clicando no link: Sobre a Arte de Ler em Latim.