O que é poesia

Fim, limites, natureza e função da arte poética

Para que haja uma teoria da poesia, é necessário saber qual é o fim dessa arte e que meios lhe são convenientes. Mas primeiro deve-se perguntar o que é poesia; e diremos que hoje se entende por essa palavra certa modulação do discurso, isto é, uma maneira de falar, que tende a valorizar o ato mesmo da fala, transformando-o em objeto de contemplação e deleite. Assim, poesia é o discurso em função do deleite.

A relação entre discurso e deleite tem desenvolvimentos importantes. Todo discurso, como diz a gramática, é composto de significante e significado, e o deleite poético, portanto, é produzido em relação com esses elementos. Ora, como a função da língua é comunicar, na linguagem corrente o significado é priorizado sobre o significante; já na poesia, como seu fim é o deleite, surge uma competição entre a função de significar e a de comprazer.

É claro que o poema nem pode deixar de ser linguagem, nem pode deixar de ser poema; mas ora será mais poema que linguagem, ora mais linguagem que poema — caso em que diremos ser “prosaico”. À medida que a função propriamente poética prevalece sobre as outras, o poema se torna mais perfeito, e em lugar de “contar uma história” ou “expressar um sentimento”, transforma-se num artefato ou opus, convertendo a linguagem humana em instrumento a serviço da beleza.

Não obstante, a beleza é obtida mediante a linguagem, de forma que o poema é comunicação, e é por comunicar, e conforme comunica, que se torna belo. Não corresponde à realidade, portanto, a idéia hoje vulgar de que o assunto do poema seja indiferente, importando apenas a “forma”; pois o assunto é parte da forma, e dele depende, em grande parte, a beleza do artefato, como a qualidade do mármore contribui para a perfeição da estátua.

Além disso, nada impede que a poesia seja usada para fins outros, como favorecer um partido político ou despertar interesse por uma disciplina acadêmica; pois como sua função é produzir deleite, ela extrairá do partido ou da disciplina, que tomou como seu objeto, tudo o que ali houver de mais agradável, para atingir seu próprio fim. Contudo, o poema em si não pode ser escrito pensando em persuadir, ou se tornaria um discurso retórico, mesmo que em versos; nem em excitar a inteligência, ou seria uma palestra acadêmica, ainda que metrificada. O poeta trabalha como artífice, visando à beleza de seu artefato, e não à exaltação do material utilizado. Daí que um homem letrado possa, por exemplo, detestar a Igreja Católica, e mesmo assim ler Dante com grande gosto; ele reconhece a beleza do poema, e talvez até a da fé católica, mas tal não basta para persuadi-lo a converter-se, pois o fim da poesia não é persuadir.

Utilidade da poesia

É bem verdade que, uma vez transmutado em poema, o assunto entra em simbiose com a forma poética: por um lado, é dele que o poema extrai parte de sua beleza; por outro, o opus resultante contribui para exaltar e favorecer os valores incorporados em sua matéria. Este não é o fim imediato da poesia, mas sua função social, a qual está como que embutida no objetivo de deleitar.

Em outras palavras, não se trata aqui do fim da arte poética, mas de sua justificativa perante a comunidade humana; e como o poeta não é apenas poeta, mas também e principalmente homem, este é um tópico importante para a sua formação. Não há artífice que um dia não se pergunte para que serve a sua arte, e que não se sinta diminuído ou perdido ao perceber que não sabe a resposta: por melhores que sejam os sapatos que faz o sapateiro, se ele tiver dúvidas sobre o valor de sua função social, não poderá permanecer contente.

Ora, como a poesia é o discurso em função do deleite, convém perguntar qual seria a utilidade de deleitar pelo discurso. E sendo todo discurso comunicação, o que investigamos é para que serviria tornar bela a comunicação. Mas “comunicar” é transmitir a outrem alguma idéia, seja ela simples ou complexa, e embelezar a comunicação é, portanto, embelezar a própria idéia comunicada. A idéia, por sua vez, atinge a inteligência e permanece na memória; se é bela, permanece como valor. Portanto, o valor é uma idéia bela; e a utilidade da poesia é formar valores. Assim, como atividade social, a poesia é parte da cultura (no sentido clássico da palavra, de cultura animi ou “cultivo do espírito”), tendo como irmãs a pedagogia, a legislação, a oratória epidíctica e demais instrumentos formativos que a sociedade dispõe para o aperfeiçoamento dos homens.

Por aí se entende que a poesia, em seus primórdios, estivesse tão unida ao culto religioso, às leis, à filosofia e, de modo geral, aos valores dos povos: não há modo mais eficiente de preservar uma cultura do que tornando-a bela, pois a beleza inflama o coração do homem e mantém viva a memória das coisas. Se o poema de Dante não persuade, diretamente, a uma conversão, ele aumenta e intensifica, no entanto, a comunhão de valores; de forma que, apesar de não aderir à Igreja como fiel, creio nas mesmas coisas que ela crê — ou, se não creio, ao menos gostaria de crer, pois vejo sua beleza, e como que as idealizo e desejo amá-las. Não obstante, pode muito bem ser que não tenha forças para transformar esse desejo em ato: Nondum amabam, et amare amabam. Assim, a poesia não pode converter ninguém a uma religião, mas ajuda a sustentar uma cultura religiosa.

Por que meios a poesia atinge seu fim

É característico da poesia que o seu prazer se dê por meios discursivos: o acompanhamento musical, a presença de dançarinos, o uso de imagens ou animações não parecem fazer parte do conceito de poesia. Uma associação impactante de imagens, que por si mesma produza deleite, não é chamada de “poética”; mas se as imagens são evocadas por palavras, o impacto se torna poético de todo direito. Isto mostra que a palavra “poesia” designa um tipo específico de prazer que se obtém apenas pela linguagem.

Por isso, os recursos de um dado poema serão os recursos do idioma em que o poema foi escrito. Dentre os elementos mais óbvios que podem ser manipulados pelos poetas, consta a construção musical da fala, segundo as regras de cada idioma: daí vem o uso da rima, que em tantos idiomas modernos se consagrou como marca da poesia. Daí também os aspectos menos conhecidos do grande público, mas igualmente importantes em nossa tradição, como o metro fixo, os tipos de estrofe, etc.

Contudo, apesar de os elementos musicais serem mais palpáveis, não são os únicos nem os mais importantes da linguagem poética; há um imenso rol de figuras de linguagem, desde a manipulação de expressões e provérbios populares até os jogos conceituais mais intricados, que ficam à disposição dos poetas para criar o seu artefato linguístico.

Veja-se o exemplo abaixo:

Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prêmio pretendia.

Luis de Camões

Os dois primeiros versos, quanto ao conteúdo conceitual, compõem uma narrativa prosaica; entretanto, ainda que não pudéssemos perceber a divisão do texto em versos, haveria o metro fixo, o ritmo, a construção algo concisa e elegante demais, que denunciam tratar-se de poesia. Na segunda metade da estrofe, saltam aos olhos as figuras de linguagem: primeiro, a contradição paradoxal que força uma releitura do verso anterior (até então quase prosaico), transformando retroativamente um mero adjunto adnominal no objeto mesmo do verbo; segundo, a repetição retórica de servia; terceiro, a repetição do objeto a ela com mudança do verbo, a ponto de gerar efeito de zeugma. A profusão de figuras de linguagem parece patentear mais a natureza poética desses dois versos, por causa de seu impacto sobre a sensibilidade.

O papel dos elementos fixos

A percepção visual do verso, isto é, de um rompimento demasiado frequente na estrutura da frase, é hoje o principal indício usado para identificar um poema. Quer isto dizer que, se não tiver acesso ao texto escrito, o leitor moderno não sabe julgar se está diante dum poema ou não. Essa dificuldade pode causar a falsa impressão de que a poesia não tenha uma natureza objetivamente diferente da prosa. Trata-se, porém, apenas de falta de treinamento adequado para perceber o que as distingue.

As crianças, por sua vez, costumam identificar um poema pela presença de rimas, ou por um metro fixo, que são elementos mais robustos do que a disposição visual do verso, pois permitem a identificação por via auditiva; contudo, nem a rima nem o metro fixo são essenciais à poesia. Ambos estabelecem certo padrão por detrás das variações sonoras necessárias à comunicação, isto é, contrastam um fundo permanente e uma superfície variável, o que causa prazer e, por causa da repetição, facilita que o poema seja memorizado. Como a finalidade da poesia é deleitar pelo discurso, um poema que não causasse deleite na dimensão sonora estaria deixando de cumprir sua finalidade no elemento mais palpável da linguagem. Daí que o metro e a rima sejam tão característicos da poesia e, em muitas épocas e lugares, uma necessidade praticamente incontornável.

Ademais, se metro e rima não são essenciais à poesia, o mesmo não se pode dizer das figuras de sonoridade; o texto que não seja significativamente dotado de prazer sonoro se exclui ipso facto da poética, já que, como dissemos, recusa-se a cumprir sua finalidade. Podemos reconhecer elementos poéticos num texto prosaico, mas não o chamaremos de poema se não satisfizer os requisitos mínimos; assim também reconhecemos que um utensílio doméstico muito bonito é “praticamente uma obra de arte”, mas como a forma do utensílio não tende completamente à beleza, uma vez que sofre coerções de natureza utilitária, não pensaremos que seja de fato uma obra de arte.

Prosa poética e poema em prosa

Para iluminar as fronteiras de poesia e prosa, é útil examinar aqueles gêneros intermediários que hoje se classificam como “prosa poética” e “poema em prosa”. Embora haja alguma confusão entre os termos, que para alguns podem até ser intercambiáveis, tentaremos estabelecer limites claros entre um e outro.

Veja-se um exemplo clássico de prosa poética:

O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado.

José de Alencar

O ritmo hipnótico, a escolha da palavra indígena jati, que designa uma espécie de abelha, as comparações com bichos e plantas não descrevem simplesmente Iracema, “a virgem dos lábios de mel”, mas antes criam uma atmosfera deleitosa, em que não se lê apenas para “saber o que se passou”, como se leria um jornal, nem sequer para imaginar uma história excitante, como se leria um romance comum, mas pelo ato mesmo de ler — e é preciso ler em voz alta, ou ao menos imaginar vivamente que o faz, para experimentar o prazer da leitura. Assim, a prosa de Alencar é muito próxima da poesia, por tender quase tanto ao deleite pelo discurso quanto tende à comunicação de sua narrativa. Daí podermos chamá-la de “prosa poética”; mas não pareceria razoável considerá-la um “poema em prosa”, a não ser que a função poética ali estivesse sensivelmente acima da função de comunicar.

Observemos agora, em comparação, o verso a seguir:

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces.

Vinicius de Moraes

Se quiséssemos contar, nele acharíamos vinte e uma sílabas poéticas. Tomado na superfície, poderia ser uma prosa curta, como certos bilhetes de amor; mas uma leitura mais cuidadosa exclui completamente tal possibilidade. O sinal mais evidente talvez seja o modo de expressão vago, etéreo; como na subordinada que são doces, tão questionável do ponto de vista lógico, tão estranha ao uso corriqueiro da língua. Contudo, é sem dúvida o ritmo que comprova o caráter poético do período: é demasiado firme para a prosa.

O “verso” em questão parece um composto de três versos menores, sendo o primeiro um octossílabo com peônios de quarta: eu deixarei que morra em mim; o segundo, um eneassílabo em ritmo anapéstico: o desejo de amar os teus olhos; o terceiro, enfim, um trissílabo que mantém o ritmo do anterior: que são doces. O eneassílabo anapéstico é clássico, e foi celebrizado por Gonçalves Dias: não descende o cobarde do forte; e a presença do jambo em ritmo anapéstico é orgânica e inclusive tradicional, como se vê no “martelo agalopado” dos cordelistas. Um período dotado de tanta musicalidade tem de ser poesia: bem poderíamos chamá-lo de “verso prosaico”, e com outros semelhantes comporíamos um “poema em prosa”.

Unidade e forma

Explicamos por que a estrutura melódica é fator definitivo na formação de um poema. Seria, porém, um erro pensar que basta uma sonoridade agradável para fazer um bom poema. Satisfazer às exigências mínimas é apenas o começo: põe o texto dentro das fronteiras do gênero, mas não lhe confere por si só o desenvolvimento conveniente. Para tanto, é necessário não apenas produzir algum deleite, mas o maior possível com os meios que lhe são próprios, e com perfeita harmonia entre seus elementos constituintes. Nesse sentido é que os grandes autores censuram a presença de partes desnecessárias, ou a incoerência entre elas, ou alguma impropriedade para com o assunto escolhido. Isto é o que se chama unidade ou forma poética.

Todo instrumento deve ter exatamente as partes necessárias para cumprir sua função, e em perfeita ordem: um garfo com apenas uma ponta seria tão defeituoso como seria se tivesse dez, ou como se as tivesse espalhadas em círculo em vez de alinhadas. Ora, também na obra que visa ao deleite, tudo deve contribuir para esse fim. A música, quando repete demais as mesmas notas, provoca tédio; e se nunca repete estrutura nenhuma, ou rejeita toda e qualquer semelhança entre elas, irrita o espírito.

Horácio evoca satiricamente uma pintura que unisse cabeça de mulher, pescoço de cavalo, um corpo coberto de penas e rabo de peixe, observando que, como na pintura, também na poesia é necessário haver coesão entre as partes. Contudo, como sugere a construção mesma do monstrum horaciano, o poema — diferentemente da pintura — é dinâmico, e sua coesão se constrói dinamicamente durante a leitura, de modo que tanto produzir como captar sua unidade é obra de intelectos treinados. E o que é mais: esta exigência de unidade é tão grande, que não diz respeito só ao nível das estrofes, ou dos versos, mas atinge o interior mesmo das palavras, seus diversos níveis de sentido, sua sonoridade interna, pedindo que tudo, desde a menor parte, tenda à forma maior e última.

Ora, uma vez que o papel específico da poesia, dentre os demais gêneros de discurso, é o de produzir deleite, e que para isso gera um artefato uno e estruturado, visando à contemplação, torna-se claro que é ela o gênero mais propriamente artístico de todos. Assim, pode-se também dizer que é o gênero mais habilitado a expressar a forma das coisas reais — em outros termos, é o modo de linguagem verbal mais próximo da realidade. É claro que esta proximidade é analógica e, como dizia Platão, a sombra de uma sombra, mas ainda assim, na comparação com os demais gêneros, é a poesia o mais apto a representar as coisas com integridade. De fato, ela está para a escultura como a oratória está para a carpintaria, e algo parecido pode ser dito dos gêneros restantes.

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