dezembro 1

O burrinho do Natal

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Em certa canção popular dos Estados Unidos, alguns bichos estão reunidos no presépio ao redor do menino Jesus, e se gabam um por um dos presentes que Lhe deram. A música em si é carregada de melancolia infantil, como todas as grandes melodias natalinas; a letra, exemplo de boa poesia popular, manifesta o júbilo daqueles pobres animais por poderem oferecer ao Criador seus desprezíveis dons, e sentir que com isso acodem à Sua pobreza. De fato, é como se Ele Se tivesse colocado em posição tão frágil precisamente para valorizar os humildes esforços de Suas criaturas.

O primeiro a falar é, evidentemente, o burrinho, que é tão querido do povo, creio eu, por prefigurar aquele em que Nosso Senhor montaria no dia de Ramos; mas este tem algo de melhor. Primeiro, porque não foi visto por multidões, nem entrou numa grande cidade; seu público foram pobres pastores, e seu destino, um estábulo. Segundo, porque não recebeu crédito nenhum, não foi sequer registrado nos Evangelhos, e por isso nem sabemos se de fato existiu. Terceiro, porque não carregou o Cristo adulto e famoso, mas um ainda pequeno, desconhecido e oculto até aos sentidos corporais. Quarto, porque não carregou somente a Deus Filho, mas também Sua Santíssima Mãe, destinada a reinar sobre todos os anjos — a mais bela e mais perfeita criatura de Deus, tanto no mundo material como no espiritual. Este burrinho dá exemplo de uma vida verdadeiramente cristã.

“I”, said the donkey, shaggy and brown,

“I carried his Mother uphill and down;

“I carried her safely to Bethlehem town;

“I”, said the donkey, shaggy and brown.

“Eu”, diz ele, “fui eu quem levou Sua Mãe a Belém”. Por tal gesto, foi instrumento notável do Natal do Senhor. Glorioso burrinho!

Gosto, ademais, de pensar que, quando ele repete seu enfático “eu”, não é por orgulho, como pode parecer à primeira vista. Não — nosso burrinho não tem de que se orgulhar: ele é sujo e pobre, pertence a uma espécie universalmente desprezada, e está destinado a ser esquecido pelo mundo. Portanto, repete “eu”, não com orgulho, mas com incredulidade. “Carreguei Sua Mãe nestas minhas costas”, diz ele, “Eu!… Logo eu!…”

De fato, este burrinho não é cristão apenas na tarefa que recebeu, ou nas circunstâncias exteriores em que a cumpriu; sua humildade interior é igualmente notável. Não entende como pode ter sido considerado digno de tal missão, nem como pode tê-la cumprido, sendo o vil animal que é. Daí o contraste dos versos intermediários com os extremos, enfatizado na rima: tudo o que ele fez pela Rainha do Céu é oposto ao fato de ser hirsuto e marrom.

Noutra canção popular, nosso burrinho aparece no meio de sua jornada. Agora, a melodia é monótona, e a letra é repetitiva, como que imitando a longa viagem de nosso herói com sua preciosa carga. A canção se compadece de seu cansaço, mas implora que ele não desista, pois Belém é logo ali.

Este burrinho lembra, pela humildade, paciência e silenciosa memória, o imenso São José, que carregava a Santíssima Virgem como um tesouro do qual se sentiu perpetuamente indigno. Curioso, de fato, é que José não apareça nestas canções. Não era ele um dos principais personagens desta viagem? Por que então só se menciona Maria?

Talvez que o burrinho seja mesmo ele, transfigurado em símbolo: sim, talvez seja ele, S. José, o verdadeiro jumentinho da profecia de Zacarias:

Salta de extremado prazer, ó filha de Sião; enche-te de júbilo, ó filha de Jerusalém; eis aí o teu rei virá a ti, Justo e Salvador; ele é pobre, e ele vem montado sobre uma jumenta e sobre o potrinho da jumenta.

Ele vem na Sua jumenta — aquela que disse: eis aqui a serva do Senhor — e no potrinho da jumenta, o humilde José, que nunca quis nada senão servir à Mãe de Deus. E como nem se julgava digno de servir à serva, ou ser potro da jumenta, mereceu ser menos que potro, e recebeu do profeta aquele diminutivo que, na linguagem do Senhor, é título máximo de glória.

Feliz José! O Cristo veio a nós montado em tua esposa, e ela, montada em ti; em ti, que não te julgavas digno de ser para ela tapete que pisasse. Tu é que a levaste a Belém, quieto e persistente, desfalecendo de cansaço, sem jamais perder a esperança. Tu, meu burrinho amado, que até hoje te escondes e disfarças para que não te honremos como mereces! Permite, glorioso José, que eu desfaça os teus disfarces, e escancare para o mundo inteiro a tua virtude. Tu serás sempre o burrinho de Maria, o potrinho da jumenta de Jesus; mas para nós, que sejas antes o grande S. José, nosso pai e protetor amado, nosso modelo de humildade e serviço; que por tua glória nós desejemos ser burrinhos desprezados de todos, e por tua graça cheguemos a sê-lo.

Roga por nós, poderoso José, e especialmente pelos do teu sexo, a quem o mundo e o diabo assediam, com aviltantes promessas e ameaças piores, para que queiram ser grandes homens, e não pequenos jumentos como foste tu. Roga pelos pobres e humildes, pelos que são hoje invisíveis como eras tu, pelos que os poderosos perseguem, como te perseguiram e à tua família. Roga pelos que são alvo de maledicência, como foi a tua angelical esposa, e pelas crianças expostas ao sofrimento e ao pecado, pois ninguém sofreu mais com os pecados dos homens do que esse Menino a quem amaste mais que a vida.


Tags

Cristianismo, Humildade


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  1. Professor que texto lindo e cheio de sensibilidade. São José apesar de protagonista, silente e humilde, contrasta com um mundo envolto em barulho e orgulho. Um barulho que muitas vezes aponta para o pecado e a presunção de acharmos que somos mais do que realmente somos.
    Um texto que faz refletir , pensar os meus valores, reavaliar o valor da humildade e disponibilidade em servir. Que o Advento seja um período de reflexão e de imensa Misericórdia e Graça sobre nossas vidas.
    Um feliz Advento e feliz Natal para o professor e a família!

    1. Sem dúvida, Karine, enquanto S. José auxiliava a Rainha do Céu a dar à luz o Deus encarnado, muitos heróis gabolas eram aplaudidos por séquitos de coitados impressionáveis; enquanto a Sagrada Família tremia de frio entre os bichos do presépio, outros eram paparicados por motivo nenhum exceto o ouro que tinham no baú. Com exceção de Jesus e Maria, ninguém no mundo era mais importante ou heróico do que José — e ninguém foi mais ignorado e desprezado. Até depois de morto, insultaram seu divino protegido assim: “Não é este o filho do carpinteiro?”. Eis como era lembrado: “o carpinteiro”. Herodes, por sua vez, era chamado “o Grande”. Vejamos nós quem é que admiramos e imitamos: se os Grandes deste mundo, ou os meros carpinteiros.

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