A Semana Santa

por São Bernardo de Claraval
(traduzido do Sermão de quarta-feira da Semana Santa, 1-4)

HOLY-FACE-JESUSMeus irmãos, vigiai em espírito, para que os mistérios deste tempo não passem por vós sem frutificar. A bênção é abundante: oferecei receptáculos limpos! A tão grandes dons de graças, mostrai almas devotadas, e sentidos alertas, e emoções equilibradas, e consciências puras. Sem dúvida vos está advertindo quanto a esta preocupação, não só o especial modo de vida que professastes, mas também a observância geral da Igreja de que sois filhos. Pois que a totalidade dos cristãos, nesta semana sagrada, ou contra seu costume, ou mais que de costume, cultivam a religião, transparecem modéstia, perseguem a humildade, vestem-se de seriedade, para que de alguma maneira pareçam partilhar do padecimento de Cristo.

E quem é tão irreligioso, que não se comova? Quem tão insolente, que não se humilhe? Quem tão iracundo, que não condescenda? Quem tão voluptuoso, que não se abstenha? Quem tão depravado, que se não contenha? Quem tão malvado, que nestes dias não se arrependa? E com razão: pois eis aqui a paixão do Senhor, que ainda hoje está movendo a terra, rachando as pedras, os túmulos abrindo.

Está perto também Sua ressurreição, em que celebrareis uma solenidade ao Senhor Altíssimo: tomara estejais então subindo, com entusiasmo e anseio do Espírito, às altíssimas maravilhas por Ele feitas. Nada melhor se pudera fazer no mundo, que o feito pelo Senhor nestes dias. Nada melhor ou mais útil se pudera recomendar ao mundo, que celebrar em rito perpétuo a cada ano o Seu memorial no desejo da alma, e exalar a memória da abundância de Sua doçura. E ambas as coisas por nós mesmos: pois ambas dão fruto para nossa salvação; pois em ambas está a vida do nosso espírito. Senhor Jesus, é admirável a vossa paixão, que a todos de nossas paixões nos protegeu; por todas as nossas iniqüidades a Deus propiciou; e nunca se mostra ineficaz contra qualquer de nossas pestilências. Pois o que é tão de morte, que com a vossa morte não se desfaça?

Ora, meus irmãos, quanto a esta paixão cabe observar em especial três coisas: a obra, a maneira e a causa. Na obra se enaltece a paciência; na maneira, a humildade; e na causa, a caridade. E a paciência é singular, pois quando sobre Suas costas entalhavam os pecadores; quando de tal modo se estendia no lenho, que se podiam contar todos os Seus ossos; quando aquela fortíssima Fortaleza, que guarda Israel, era de toda parte arrombada; quando se perfuravam Suas mãos e pés; conduzido qual cordeiro ao abate, como ovelha diante do tosador, não abriu sua boca; não murmurava contra o Pai, por quem fora enviado; nem contra a espécie humana, pela qual Ele pagava o que não roubara; nem, enfim, contra o povo mesmo que Lhe pertencia, do qual estava a receber, em troca de favores tamanhos, tamanhos males.

Alguns são torturados por causa de seus pecados, e suportam humildemente: e no entanto por este mesmo feito lhes atribuímos paciência. Outros são açoitados, não tanto para serem castigados, quanto provados e, por fim, coroados; e nestes comprovamos e enaltecemos uma paciência ainda superior. Como não reconheceremos, então, sua modalidade suprema em Cristo, que é punido — no quinhão de sua herança, por estes, dos quais especialmente viera para ser o Salvador — com morte crudelíssima, como um ladrão, embora não tivesse absolutamente nenhum pecado, nem por ato próprio, nem contraído com outrem… não, nem no qual pudesse crescer!?

Sem dúvida, n’Ele em quem mora toda a plenitude da divindade — não como em sombras, mas corporalmente; em quem está Deus reconciliando o mundo consigo — não simbólica, mas substancialmente; que é enfim cheio de graça e verdade — não por cooperação, mas pessoalmente, para que faça Sua obra. Sua obra Lhe é alheia, diz Isaías; pois, por um lado, foi obra Sua a que Lhe deu o Pai, para que a fizesse; e por outro, era-Lhe alheia, para que uma Pessoa tal tais coisas passasse. Assim, pois, vemos na obra Sua paciência. E a maneira mesma de obrar, se lhe prestarmos bastante atenção, reconhecê-la-emos não só por mansa, mas também humilde de coração. Pois em humildade sofreu Seu julgamento, em que não respondia nem a blasfêmias tamanhas, nem aos crimes falsíssimos de que O acusavam. Vimo-Lo, e não havia nele beleza, não com forma atraente ante os filhos dos homens, mas vergonha dos homens, e qual um leproso; último dos varões, claramente um varão de dores, golpeado por Deus e humilhado: de tal maneira que não lhe restava brilho ou graça.

Ó último, e Altíssimo! Ó humilde, e Sublime! Ó vergonha dos homens, e Glória dos Anjos! Ninguém do que Ele mais sublime, e tampouco mais humilde. Por fim, besuntado de cuspe, coberto de infâmias, foi condenado à mais abjeta das mortes; foi contado entre os criminosos. Acaso não merecerá nada uma humildade destas, que possui tal medida — ou antes que está tão além da medida? Como é singular Sua paciência, assim é admirável Sua humildade; e ambas não têm precedente.

Ambas, porém, são grandiosamente enaltecidas por aquilo mesmo que as causa: trata-se, sem dúvida, da caridade. Pois por causa de Sua caridade imensa, com que Deus nos amou, para pagar o preço de um escravo, nem o Pai poupou ao Filho, nem o Filho a Si mesmo. Imensa, de fato; pois também ela excede a medição, supera a medida, destacando-se claramente de tudo o que existe. Ninguém tem caridade maior, que oferecer um homem a sua própria vida por seus amigos. Vós tivestes uma maior, Senhor: pois oferecestes também por vossos inimigos. Quando ainda éramos inimigos, por meio de vossa morte tanto fomos reconciliados convosco, como com o Pai.

Que outra, pois, pode haver ou ter havido, ou ainda vir a existir, que seja semelhante a esta caridade? É difícil que alguém aceite morrer em lugar dum justo; e Vós padecestes no lugar de injustos, morrendo por causa de nossos crimes; Vós que viestes justificar os pecadores sem pedir nada em troca; fazer de escravos, irmãos; de prisioneiros, co-herdeiros; de exilados, reis. E não há outra coisa que tão bem esclareça esta paciência e humildade, que o fato de ter entregue à morte sua própria alma, e tomado sobre si os pecados de muitos, rogando também pelos transgressores, para que não se perdessem. Discurso fiel, e digno de toda acolhida! Foi porque quis, que foi exposto. Não é que quis, e foi exposto: mas porque quis. Só Ele tinha o poder de oferecer sua própria alma; ninguém a tirou dele por força; e nesse esforço foi mais além. Tendo recebido o vinagre, declarou: Está consumado. “Nada resta a completar: já não há o que eu possa esperar”. Eis que a cabeça se inclina, e Ele, feito obediente até a morte, entregou o espírito.

Quem se domina tanto, que com essa facilidade consiga dormir, quando o quer? Sim, é fraqueza grande morrer; mas morrer de tal forma é, claramente, desmedida força. Pois que o fraco de Deus é mais forte que os homens. O homem, ensandecido, pode suas mãos criminosas lançar contra si mesmo para matar-se; mas isto não é oferecer sua própria alma; é mais sufocá-la e rompê-la violentamente, que oferecê-la com assentimento. Tu, ímpio Judas, em tua miséria, evidentemente não tinhas a capacidade de ofertar tua alma, mas de enforcá-la; e não foi por ti entregado, mas tragado por um laço, que esse teu espírito execrável te abandonou, não porque o enviaste, mas porque o transviaste. Só poderia ter entregue à morte sua própria alma aquele que, sozinho, por sua própria força retornou à vida. Só tinha o poder de ofertar Aquele que, sozinho, tinha a livre capacidade de retomar, porque possuía autoridade sobre a vida e a morte.

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