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Notas sobre o Estudo do Latim

grammaticaComo celebro agora o primeiro Natal depois da conclusão das gravações para o Curso de Latim Online, sinto-me inclinado a avaliar a experiência, levando em consideração os depoimentos de alunos e o contato que tive com outros professores de latim e áreas próximas.

Encontrei o latim enquanto procurava minha origem. A princípio mero símbolo de uma jornada ainda obscura, provou-se legítimo soberano, tendo sido por mim abandonado e redescoberto mais de uma vez; pode-se dizer que afinal entendi, num sentido mais profundo que o usual, por que todos os caminhos levam a Roma.

Ao contrário de muitos (talvez a maioria) dos latinistas, não me interessei propriamente pela língua do Lácio, instrumento precioso dos filólogos, chave da etimologia, manual dos eruditos. Queria mesmo era estudar filosofia. Enquanto a maioria dos meus semelhantes saltava, ávida, para o grego ático (tentação que sofri eu mesmo), tive a felicidade de perceber que, mais que da “língua original”, era preciso participar da “tradição cultural” que levava à filosofia. O templo de Apolo não se abria aos ímpios; antes os envolvia numa teia de ilusões, guiando-os para o mais denso da floresta, onde envelheciam delirantes, privados para sempre da luz do sol. A verdadeira Sibila só respondia a quem se dirigisse a ela na linguagem correta: a língua perpétua da humildade, da submissão aos ancestrais, da “pietas” impiedosa representada pelo Rei Anquises, no mundo dos mortos, instruindo seu filho Eneias sobre a vontade dos deuses. Não o brilho, o chamariz, o Olimpo; sim as sombras, o reino desprezado ou temido, o inferno. Foi este o caminho de Virgílio; foi este o de Dante. É o verdadeiro sentido dos versos de Pope:

“A little learning is a dang’rous thing;
Drink deep, or taste not the Pierian spring”

“Drink deep”, e não “much”. Não se trata, aqui, de erudição, isto é, do acúmulo de estudos sobre um autor ou uma época, que poderíamos chamar de estudo “horizontal”. Ao contrário, é preciso descobrir a significância de cada elemento, o peso que adquiriram na história e na formação das maiores almas de todos os tempos e, consequentemente, da nossa civilização como um todo. Ironicamente, a língua latina, que normalmente atrai inteligências minuciosas, “fault-finders” e normativistas ranzinzas, impressionou-me justamente pela elevação, pelo desprendimento, pela transcendência dos seus autores e da tradição que eles compunham.

Em outras palavras, não eram os particípios, gerundivos e declinações que interessavam — embora fossem, evidentemente, parte do caminho. O foco (digo-o no sentido etimológico, que remete ao fogo sagrado do deus Lar) era, para mim, o latim como disciplina intelectual e, em certo sentido, espiritual. O latim como “lingua pontifex”, construtora de pontes, ligando Dante e Camões a Homero por intermédio de Virgílio (esse Príncipe e Sumo Pontífice dos poetas), o organismo vivo que, ao longo de dois mil anos, adaptou-se harmoniosamente à cosmologia neoplatônica, à religião cristã, à literatura e filosofia da Grécia. O latim, não como língua, mas como alma; como ancião do Ocidente, profeta longevo, “magister gentium”. Aos poucos ele se tornou, para mim, a mesma coisa que a filosofia. Mais tarde eu descobriria que assim o concebiam os mestres medievais, que chamavam o estudo da língua e literatura latina (“grammatica”) de “pars prima philosophiae”, e John de Salisbury, que lembrava a seus contemporâneos (como poderia lembrar aos nossos): “em vão se avança rumo às demais disciplinas, sem a posse desta”.

Os métodos tradicionais de latim costumavam apresentar a língua como uma espécie de “introdução à lógica matemática”. Não estavam inteiramente enganados, claro; não obstante, bravos guerreiros tombaram perante os rigorosos “magistri” ginasiais, entre gemidos de “rosa, rosam, rosae…”. Contra tais sofrimentos, levantaram-se muitos, dentre os quais destaca-se a corrente de Hans Ørberg, que rememora a natureza social da linguagem e pede que o latim seja ensinado mais ou menos como as línguas modernas.

Eu me formei, inicialmente, com a Gramática Latina de Napoleão Mendes de Almeida e com os “Gradus” de Paulo Rónai, ambos representantes do ensino tradicional; na universidade, estudei com um método intermediário, o “Reading Latin”, que procurava ensinar a teoria gramatical de passagem, enquanto enfatizava a quantidade de leitura. Quando conheci Ørberg, já dava aulas particulares há alguns anos, mas me interessei e li alguns de seus materiais complementares (minha paciência para os livros introdutórios já não era grande), cuja qualidade nunca me decepcionou.

Sou um sujeito simples: não tendo motivo contrário, gosto de tudo e todos. Achei difícil escolher entre as tantas virtudes dos vários métodos e, no esforço de aprender a língua com máxima eficácia, acabei compondo uma metodologia própria que de original tem nada ou muito pouco. É possível descrevê-la como um “Reading Latin” sem textos adaptados, em que a teoria gramatical foi substituída pelo método analítico de Napoleão Mendes, com o acréscimo da “enarratio poetarum” conforme a aprendi nos pedagogos antigos e medievais. Dentre os autores famosos, Ørberg foi quem menos influenciou minhas concepções, talvez porque eu já pensasse de modo semelhante a ele em vários aspectos, mas os pontos nos quais divergimos dizem respeito, simplesmente, a diferenças em nossos objetivos.

A língua latina é muitas coisas; entre elas, é uma língua. Já foi falada um dia, e pode ser falada de novo. Evidentemente, não se aprende latim para fazer compras ou turismo, nem para conversar sobre um programa de televisão; tais coisas cada um pode fazer em sua respectiva língua moderna. Há um ou outro americano maluco que, segundo li, organiza “acampamentos latinos” indignos de homens adultos, mas isso não está necessariamente ligado à ideia de ensinar “latim vivo”.

O latim já foi a língua da alta cultura e das universidades, e poderia voltar a ser (refiro-me agora ao bonito projeto de Luigi Miraglia); contudo, não é o caso no presente momento, nem creio que será pelas próximas décadas. No novo papel social que os acadêmicos passaram a desempenhar, o idioma dos antigos escolásticos não lhes interessa mais. Além do mais, a integração de universidade, Igreja e cultura clássica não parece poder ser restituída imediatamente. Tenho mesmo a impressão de que sua existência na Baixa Idade Média não foi causa do esplendor intelectual da época, mas um de seus efeitos: se quisermos de fato restaurar a possibilidade de uma língua única para a alta cultura ocidental, creio que, antes de tentar a “renovação” do latim em moldes humanistas, o correto seria empreender sua “restauração” à maneira carolíngia. Noutras palavras, o que interessa no latim são, primeiramente, os “auctores” clássicos; o resto pode esperar, e talvez espere muito.

Aprender latim como uma língua comum pode ser o objetivo de alguns; outros preferem, como já mencionei, fazer dele uma espécie de treinamento lógico. Do modo como o vejo, contudo, trata-se da “primeira parte da filosofia” e, de certo modo, “imagem da filosofia”: uma disciplina cujo objetivo é passar de aparências a essências, por intermédio da resolução dialética de interpretações contraditórias. Uma arte que começa na recitação e na análise sintática, transita pela apreciação de figuras de pensamento e de palavras, chega à crítica literária e aponta para as mais altas inspirações do gênio humano.

Segundo a lição de Olavo de Carvalho, “a filosofia é a busca da sabedoria; a poesia é a sabedoria em busca dos homens”, e facilmente se redescobre o mesmo sentido na fórmula de S. João: “amamos nós, porque Ele nos amou primeiro”. Se a sabedoria é o Verbo, segunda Pessoa da Santíssima Trindade, hoje encarnado e ressurreto sob o nome de Jesus Cristo, a poesia é Cristo que bate à porta e entra em nossas casas; a filosofia somos nós que abandonamos nossas casas, de portas escancaradas, para reencontrar Cristo. Este reencontro, expresso por diferentes autores como a modalidade suprema de consciência, é todo o objetivo da filosofia, e uma sombra dele resplandece em cada uma de suas partes menores. O estudo das letras não é exceção: seu objetivo deve ser, portanto, o estabelecimento de certa ordem na inteligência; a qual, não obstante ser ordem, impele para uma superação de si mesma, rumo àquela sabedoria que não pode ser abarcada por disciplina alguma. Todo e qualquer conhecimento só me interessa se contribui para esse fim, e testemunho que a língua latina, conforme a estudei e ensinei, sempre se mostrou tão eficaz quanto prometiam os mestres antigos e medievais.

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12 thoughts on “Notas sobre o Estudo do Latim”

  • Muito interessante seu depoimento, Rafael. Razão e emoção em uníssono. Aproximo-me do Latim, por resolução muito recente, por motivos muito semelhantes: subir na escada da inteligência, alterando construtivamente as redes sinápticas pelo desafio que é aprender uma língua de estrutura tão complexa e refinada como é a do Latim. É como afinar um instrumento musical para que possa ser tocado por um virtuose: a sabedoria pode se fazer presente mais facilmente em uma mente que foi bem treinada para recebê-la, tanto cognitivamente quanto moralmente (e ai entra o legado dos mestres da língua latina). E vou começar muito bem o meu caminho na língua de Virgílio: na companhia do saudoso mestre Napoleão Mendes de Almeida, como vc. A propósito,vc me indicaria estudar também os dois volumes (Gradus Primus e Gradus Secundus) do prof. Rónai? Não vou poder iniciar agora o curso on-line com vc, por questões financeiras, mas, com certeza, o farei. Um abraço, um feliz Natal e que Deus o abençoe. 

  • Caro Rafael,
    Estou bastante interessado em fazer o seu curso de latim, que me foi enfaticamente recomendado. Minha dúvida: como estimativa, e supondo uma dedicação razoável, quanto tempo espera-se que durem os estudos do módulo básico? E quanto aos demais? Pergunto porque não cheguei a ver essa informação na página ou no programa do curso.
    Desde já, obrigado.
    Abraço.

  • André Sanges Veiga, indico os dois livrinhos do Prof. Rónai, e tenho certeza que lhe farão muito bem.

    Remo, o módulo básico tem doze aulas que podem ser feitas em qualquer ritmo. Essa informação está no programa do curso. Eu recomendaria que assistisse a uma aula por semana, o que lhe custaria mais ou menos três horas semanas (entre uma e duas horas para a aula, e o resto para fazer o exercício).

    Um abraço!

  • Senhor  Rafael,
    Sou jovem ainda, mas, planejo adquirir o conhecimento necessário para me estruturar melhor,
    Tenho dezesseis anos, e meu sonho é estudar filosofia. No entanto, queria saber, o Latim especificamente é uma língua difícil de se aprender, pois que, tem bases e é bem concisa…Eu conseguiria aprender em quanto tempo? minha mente se abriria para questões esotéricas?

  • Olá Rafael,

    (Aqui talvez não seja o espaço mais apropriado para isto, mas realmente não achei outro meio de contato.)

    Estou com um problema parecido. No meu caso, comprei o curso há algum tempo, mas aparentemente a mudança no site apagou meu login antigo e, com ele, o registro das minhas aquisições (estou logando a partir de um novo usuário, que criei agora).

    Pode me ajudar?

    Abraços,

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