setembro 1

Saindo do atoleiro

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Entre as perguntas que recebi ao final da minha última palestra, intitulada As Crianças e o Trivium ( http://www.icls.com.br/aula/as-criancas-e-o-trivium/ ), percebi uma inquietude generalizada sobre a preparação requerida para dar às crianças uma educação de qualidade superior. Minha resposta imediata consistiu em garantir que o trabalho não é tão difícil quanto parece, que qualquer um pode começar a fazê-lo com seus próprios filhos; mas senti que, em tão breve tempo, não pude transmitir a segurança de que aqueles pais precisavam. Segue uma tentativa mais elaborada de tranquilizá-los.

Primeiro, é preciso enfatizar a concepção educacional das artes liberais como um treinamento. Hoje se considera que educar é empilhar conhecimentos variados na cabeça de uma criança, na expectativa de que algum dia ela use cada um deles. Eu já esqueci a maior parte do que suei para aprender na escola, mas não sinto falta de nada; na verdade, esqueci porque tive de aprender outras coisas, essas sim realmente relevantes para tomar decisões acertadas e lidar com os problemas da vida. As artes liberais não servem para acumular conhecimento, e sim para desenvolver faculdades da alma. Uma vez afiados, os instrumentos da inteligência podem ser aplicados livremente ao que o estudante deseje.

Assim sendo, o trivium não tem compromisso com um currículo fechado ou com “avaliações de conhecimento”. Seus exercícios são isto mesmo: exercícios, como os que se fazem nas academias de musculação. E o dever essencial do professor, por melhor que seja sua formação, é simplesmente fazer com que o aluno exercite corretamente suas faculdades. Na arte literária — o primeiro estágio — o foco não é dar eruditas palestras sobre língua e literatura, mas desenvolver a sensibilidade para essas disciplinas. Em outras palavras, não é o fim do mundo perceber-se ignorante e incapaz: ao contrário, é um motivo extra para apresentar suas crianças às artes liberais e, junto a elas, descobrir você também o que os clássicos têm a oferecer-nos hoje.

Se você não conhece as palavras do texto, abra o dicionário e procure-as, junto com o seu filho. Se “não sabe” interpretar um poema, esta é sua chance de, discutindo-o à mesa da cozinha com as crianças, começar a desenvolver suas habilidades interpretativas. Não faz tanta diferença se o resultado não for o ideal, porque o “espírito da coisa” não é chegar a algum ideal. É justamente o processo, o esforço de entender o texto, que desenvolve a inteligência: a do seu filho, e a sua também.

Não estou dizendo que vai ser fácil, nem que é indiferente ter mais ou menos preparação. Estou, sim, chamando atenção para um fato: na atual situação do país, ou você educa seu filho, ou ninguém vai fazê-lo. Um pai ignorante, brigando para educar-se, ainda é melhor do que duzentos ignorantes fantasiados de professores, para quem educar os filhos dos outros é transmitir-lhes seus próprios preconceitos. Concentrando-se no essencial, e insistindo em obter tanta formação quanto possível, podemos esperar resultados muito bons.


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Educação


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  1. Que Deus abençoe seu trabalho!!
    Desde que decidi educar meus filhos em casa, tenho estudado sobre  Artes Liberiais com os grandes nomes aqui no EUA. Portanto, não tenho medo de dizer que você é o “grande” nome brasileiro para aprendermos sobre o assunto.   Sua sabedoria é uma alegria. 
    Muito obrigada!
     

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