Saindo do atoleiro

Entre as perguntas que recebi ao final da minha última palestra, intitulada As Crianças e o Trivium ( http://www.icls.com.br/aula/as-criancas-e-o-trivium/ ), percebi uma inquietude generalizada sobre a preparação requerida para dar às crianças uma educação de qualidade superior. Minha resposta imediata consistiu em garantir que o trabalho não é tão difícil quanto parece, que qualquer um pode começar a fazê-lo com seus próprios filhos; mas senti que, em tão breve tempo, não pude transmitir a segurança de que aqueles pais precisavam. Segue uma tentativa mais elaborada de tranquilizá-los.

Primeiro, é preciso enfatizar a concepção educacional das artes liberais como um treinamento. Hoje se considera que educar é empilhar conhecimentos variados na cabeça de uma criança, na expectativa de que algum dia ela use cada um deles. Eu já esqueci a maior parte do que suei para aprender na escola, mas não sinto falta de nada; na verdade, esqueci porque tive de aprender outras coisas, essas sim realmente relevantes para tomar decisões acertadas e lidar com os problemas da vida. As artes liberais não servem para acumular conhecimento, e sim para desenvolver faculdades da alma. Uma vez afiados, os instrumentos da inteligência podem ser aplicados livremente ao que o estudante deseje.

Assim sendo, o trivium não tem compromisso com um currículo fechado ou com “avaliações de conhecimento”. Seus exercícios são isto mesmo: exercícios, como os que se fazem nas academias de musculação. E o dever essencial do professor, por melhor que seja sua formação, é simplesmente fazer com que o aluno exercite corretamente suas faculdades. Na arte literária — o primeiro estágio — o foco não é dar eruditas palestras sobre língua e literatura, mas desenvolver a sensibilidade para essas disciplinas. Em outras palavras, não é o fim do mundo perceber-se ignorante e incapaz: ao contrário, é um motivo extra para apresentar suas crianças às artes liberais e, junto a elas, descobrir você também o que os clássicos têm a oferecer-nos hoje.

Se você não conhece as palavras do texto, abra o dicionário e procure-as, junto com o seu filho. Se “não sabe” interpretar um poema, esta é sua chance de, discutindo-o à mesa da cozinha com as crianças, começar a desenvolver suas habilidades interpretativas. Não faz tanta diferença se o resultado não for o ideal, porque o “espírito da coisa” não é chegar a algum ideal. É justamente o processo, o esforço de entender o texto, que desenvolve a inteligência: a do seu filho, e a sua também.

Não estou dizendo que vai ser fácil, nem que é indiferente ter mais ou menos preparação. Estou, sim, chamando atenção para um fato: na atual situação do país, ou você educa seu filho, ou ninguém vai fazê-lo. Um pai ignorante, brigando para educar-se, ainda é melhor do que duzentos ignorantes fantasiados de professores, para quem educar os filhos dos outros é transmitir-lhes seus próprios preconceitos. Concentrando-se no essencial, e insistindo em obter tanta formação quanto possível, podemos esperar resultados muito bons.

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