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O latim é de direita?

Litor carregando os "fasces"

O Prof. Paulo Sérgio de Vasconcellos, em artigo à revista Nabuco (n. 1), informa que os estudos clássicos vivem no Brasil um momento áureo, e chega mesmo a profetizar nossa apoteose como “referência internacional na área”. Afinal, diz ele, temos grande número de traduções lançadas no mercado, todas feitas no âmbito universitário, e alguns professores-doutores brasileiros apresentaram um painel num evento da American Philological Association – fenômeno inédito, reforça o Prof. Vasconcellos. Não deixa também de lembrar-nos do interesse crescente de estudantes universitários nas graduações em latim e grego, e ressalta que tudo isso ocorre apenas nas universidades estatais, verdadeiras detentoras de tão excelsos méritos.

Tais coisas só se tornaram possíveis, explica-nos o artigo, porque escrupulosos professores abandonaram a imagem tradicional do latinista ranzinza, conservador e, o que é pior, “de direita” (sic). Os classicistas entendemos agora que nossos estudos não possuem qualquer relação com “valores morais” (sic) e que o latim não é “nem de direita nem de esquerda” (sic!mil vezes sic!). Mais ainda: foi essa compreensão que despertou o interesse dos jovens e colocou-nos, alfim e ao cabo, na posição “de ponta” que ora ocupamos. Não farei (prometo!) nenhuma outra piada com essa história de “ponta”.

É assombroso, mas acredito que o Prof. Vasconcellos realmente não tenha percebido como o crescimento de interesse nos estudos clássicos é um sintoma claríssimo do seu total fracasso no Brasil. Falo desse assunto com bastante propriedade, tendo sido eu mesmo um dos ingressantes, em 2006, no curso de latim da USP. Eu e meus colegas nos surpreendemos ao tomar conhecimento da imensa importância dos autores antigos, da sua relação orgânica, indissociável, com praticamente qualquer livro que valha a pena na cultura ocidental. Chamar tal sentimento de “interesse” seria prosaico demais; ficamos chocados, isso sim.

A causa profunda de nossa curiosidade, e mesmo de nosso empenho no latim e no grego, não é outra senão o sumiço indesculpável, o seqüestro criminoso de qualquer referência aos clássicos na educação fundamental e média; e os responsáveis, numa palavra os culpados do crime, não foram outros senão os burocratas ignorantes (Napoleão Mendes os apelidou de “ratos de ministério”); muitos dos quais, pertencentes a esses depósitos de papel a que chamamos universidades, ainda roubam e vilipendiam o digno nome de professor.

É verdade que, a princípio, o choque dos jovens estudantes não se manifesta de acordo com a situação objetiva que o gerou, e em vez de produzir indignação beira o entusiasmo. Como um cego que enxergasse (muito mal) pela primeira vez, não nos concentramos na miséria de nosso estado presente, e sim na luminosa promessa de visões futuras. Mas o otimismo desorientado desses jovens não desculpa, antes condena a omissão (quando não a participação consciente e ativa) de professores e jornalistas diante do estupro intelectual que se pratica contra nossas crianças, cotidianamente, nesses pardieiros, nessas feiras vulgares, nesses lupanares que têm se tornado as escolas brasileiras.

O Prof. Vasconcellos, porém, insiste que nossa verdadeira motivação para escolher os clássicos foram professores animados e bonzinhos. O único, dentre os meus professores na graduação, que se encaixava de algum modo nesse perfil, e que tinha, ao mesmo tempo, competência real, era João Angelo Oliva Neto – um sujeito tão rigoroso que, segundo contavam seus colegas, corrigia até Machado de Assis. O que nos levou aos clássicos foi a percepção de que eles eram importantes. Se os professores fossem carrascos assustadores, alguns colegas talvez tivessem fugido. Eu, não; e falo também pelas pessoas mais inteligentes que conheci nas disciplinas de latim e grego. Nós teríamos topado qualquer negócio para corrigir a educação que recebemos.

Porém, se vamos falar de qualidade técnica, o exemplo do próprio articulista – traduções acadêmicas – é de fato o mais eloqüente. Um português terrível, não raro eivado de erros de concordância e pontuação, uma incapacidade assombrosa de traduzir os termos antigos sem recorrer ao literal ou ao etimológico, em suma, a inépcia na língua de partida e o iletramento na de chegada – essas são as características da tão louvada torrente tradutória que jorra de nossas universidades. Nem poderia ser diferente, num país em que a suposta erradicação do analfabetismo vem acompanhada do crescimento avassalador de sua variante funcional (que, segundo pesquisa recente, afeta mais da metade dos universitários brasileiros). A suposição de que jovens semiletrados possam tornar-se “pesquisadores de ponta” em questão de cinco anos é pura insanidade. O fato, que testemunhei com estes olhos que a terra há de comer, é que mesmo os estudantes mais talentosos terminam a graduação em latim sem serem capazes de ler uma peça clássica, não digo com fluência de vocabulário, mas sequer com compreensão adequada da sintaxe.

Se o latim (ou o grego) tem algo a oferecer ao Brasil, este algo é a absorção – trabalhosa e atrasada – de uma cultura que nos foi sonegada por burocratas tão ignorantes quanto presunçosos. O latim pode não ser “de direita ou de esquerda”, já que o significado concreto dessas categorias varia com o tempo, e ele, não; mas é exatamente por ter alguma permanência, por estar ligado a valores tradicionais, que foi tratado como inimigo pelas forças revolucionárias (algumas das quais, segundo ouvimos, eram de direita). Quem escolheu para ele esse papel? Cícero, César, Virgílio? Se alguém é culpado da associação entre latim e direita, esse culpado é a esquerda, cujo proverbial desprezo pelos bens da cultura forçou-os a tomar refúgio “do outro lado”. Não é bem o latim que é direitista; mas a direita é, neste momento, a única que está disposta a protegê-lo contra o assédio de mil variantes da esquerda política e universitária. O mesmo se pode dizer de muitos outros assuntos e doutrinas supostamente conservadores, whatever that means.

Ademais, confessar – como o Prof. Vasconcellos – que o latim é a porta para a cultura ocidental, enquanto nega qualquer relação sua com valores morais, é querer dissociar a cultura dos valores. Esta idéia pode perfeitamente ocorrer a um cidadão comum, que não tenha qualquer familiaridade com os clássicos; num latinista, ela deixa de ser apenas inconseqüente e começa a soar absurda. Se os clássicos não têm qualquer relação com a formação moral do estudante, tampouco se pode dizer que possuam alguma significância intelectual – a não ser que o Prof. Vasconcellos acredite num intelecto abstrato que não tem coisa alguma a ver com as idéias de bem e mal, certo e errado, numa palavra, com a vida. Suspeito que seja nisso mesmo que ele crê: no estudo artificial e estéril duma língua e duma literatura morta, irrelevante para o homem moderno, fechada em si mesma e em suas convenções “interessantes” – objeto de curiosidade mórbida; cadáver literário para legistas iletrados.

No fundo, é sempre a este ponto que as idéias do Prof. Vasconcellos retornam: a defesa duma corporação de legistas lingüísticos, financiados por verba estatal para brincar de acadêmicos respeitáveis e apresentar seus painéis irrelevantes nos States enquanto novos ignorantes são abandonados à própria sorte nas infladas e falidas universidades. Se ele se esforça tanto para ver “pesquisa de ponta” onde tudo indica existir um oceano de vigaristas e semi-analfabetos, não é por outro motivo, senão porque discursa em causa própria. O latim, para ele, não é “nem de direita, nem de esquerda”: é dele e dos seus amigos. E o país que se dane.

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Por que a escola moderna não pode oferecer uma educação clássica

Assista também à minha palestra baseada neste artigo, que foi proferida na Global Home Education Conference 2016. Clique no link: Educação Clássica e Homeschooling.

O Estado mandou matar Sócrates. Não é razoável supor que lhe dariam uma escola para dirigir.
O Estado mandou matar Sócrates. Não é razoável supor que lhe dariam uma escola para dirigir.

A verdadeira educação clássica tem requisitos que as escolas modernas são incapazes de satisfazer. Só o homeschooling pode atender às exigências espirituais da tradição antiga, medieval e renascentista.

Não falo, evidentemente, do que vem sendo chamado de “educação clássica” ou “educação liberal” pelos norte-americanos — a primeira expressão se refere a uma teoria pedagógica de Dorothy Sayers, e a segunda, aos projetos inspirados por Mortimer Adler. Ambas as doutrinas possuem importância própria, especialmente como tentativas de recuperar alguma sanidade na pedagogia moderna, mas não refletem nem de longe o que era feito no verdadeiro sistema das artes liberais. As diferenças são numerosas demais para que eu as cubra neste artigo; um princípio, porém, que talvez explique muitas delas é justamente o fator que lhes permite a aplicação nas escolas modernas, separando-as portanto da pedagogia antiga. Chamarei esse princípio de “estrutura maquinal”.

A “estrutura maquinal” se manifesta na obsessão moderna por currículos, cronogramas, metas, manuais com exercícios pré-prontos, etc. O prestígio do professor é transferido para livros, computadores ou — o que é muito pior — instituições de ensino, que nada mais fazem do que conglomerar professores sob o comando de burocratas. As tentativas modernas de recuperar a “educação clássica” sofrem, justamente, de preconceitos derivados dessa estrutura maquinal, os quais geralmente são considerados “avanços” que não devem ser “perdidos”.

Em termos claros: educação, no espírito clássico, é a relação entre um ser humano adulto e um jovem, em que o adulto examina cuidadosamente todos os meios convenientes pelos quais o jovem pode ser levado à perfeição do seu ser individual. Assim sendo, o papel do sistema teórico, dos livros, e mais ainda o das instituições envolvidas, é o de facilitar o trabalho do mentor; e no momento mesmo em que esses instrumentos começam a substituir o juízo humano, desejando impor determinados meios numa ordem fixa, sabemos que nosso espírito se tornou incompatível com a tradição clássica. Nenhum currículo, nenhuma imitação de aspectos superficiais da tradição pode fazer grande diferença nessas condições.

Mais ainda: o princípio da educação clássica é o amor, espécie de paternidade espiritual, entre dois seres humanos, um velho, o outro jovem; mas só se ama o que se conhece, e a estrutura escolar moderna é montada para que os professores e alunos não possam conhecer-se, muito menos amar-se uns aos outros. A tendência inexorável é a de burocratizar as instituições educacionais, transformando professores em “funcionários” e alunos em “beneficiários” — isto é, reduzindo-os a papéis abstratos que prescindem da manifestação de suas personalidades integrais, e chegam mesmo a proibi-la.

Ora, se as escolas (e universidades) se tornaram ambientes necessariamente anti-educativos, o único lugar em que resta a possibilidade do diálogo amoroso entre professor e aluno é a sua própria casa — já que, ao menos por enquanto, não tentam regular o que se faz nela. Isso pressupõe, naturalmente, a presença de instrutores particulares e especializados, quando o assunto o exigir: mas os diretores da educação, aqueles que decidem a quem e quando entregar as crianças, serão aqueles que as conhecem como ninguém, e que possuem mais condições de amá-las do que qualquer pretensioso diplomado. Assim é que os aspectos técnicos e instrumentais, inclusive os professores, se submetem novamente à finalidade real da educação.

O ensino domiciliar é o único, portanto, que oferece, neste momento, alguma chance de produzir seres humanos completos, livres e intelectualmente desenvolvidos. Toda intromissão da instituição escolar, seja ela política, ideológica ou pedagógica, será um mal a ser evitado. Que o ambiente doméstico se pareça o mínimo possível às escolas modernas, e que seja dotado de uma intensa busca pela perfeição intelectual e existencial, são as exigências para que o homeschooling cumpra o papel intransferível de formar a futura inteligência do Ocidente. Só ele nos dá esperança de que, inspirados pelo seu sucesso, os homens do futuro decidam remover as amarras burocráticas das escolas, tornando-as novamente centros de educação.

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Educação Clássica e Homeschooling

 

Esta palestra foi dada na Global Home Education Conference 2016, no Rio de Janeiro. Para conhecer mais sobre meu trabalho na área de educação infantil, acesse: A Formação Literária da Criança.

Para ler uma versão resumida da palestra, acesse: Por que a escola moderna não pode oferecer uma educação clássica?

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A unidade do Trivium

Esta palestra foi dada no II Congresso de Artes Liberais, em Porto Alegre. Seu tema é a relação entre as três disciplinas do Trivium, e de que modo elas compõem uma unidade, como sugere o tradicional esquema triangular em que cada arte leva, organicamente, às outras duas. Para demonstrar a relação entre as artes, é preciso examiná-las individualmente, ressaltando os elementos permanentes que parecem guiar o curso do Trivium do começo ao fim.

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Introdução a Os Lusíadas

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PROGRAMA

Aula I: Vida de Camões e contexto da obra
Aula II: Métrica e sintaxe
Aula III: Camadas de sentido

Estas aulas são parte do curso Formação Literária da Criança. Tendo discutido, nas aulas anteriores, como aplicar as técnicas clássicas de ensino usando os instrumentos modernos, percebi que os alunos sentiam necessidade de assistir a uma aplicação do método. Os exemplos dados ao longo das aulas teóricas não eram suficientes para formar uma visão integral do que seria ensinar segundo os princípios clássicos.

Os Lusíadas foi a obra que recomendei mais efusivamente como matéria-prima da formação literária, por atender a todos os critérios clássicos, ter sido composta na língua portuguesa e ter como autor o maior poeta do nosso idioma. Assim, decidi dar este curso, não como se eu fosse um especialista em Camões — pois não o sou — mas como um professor de literatura que deseja demonstrar o método clássico de formação literária, em sua primeira etapa: a interpretação de poesia.

Portanto, este curso pode ser útil àqueles que nunca estudaram Os Lusíadas, já que encontrarão nele uma introdução rápida e substanciosa, e ainda mais útil aos que desejam entender e aplicar o método clássico de explicação de textos. Diferentemente do Formação Literária da Criança, este curso não abrange a gramática do Trivium inteira, mas apenas a sua primeira etapa; isso porque é mais fácil ser conciso numa exposição teórica. Demonstrar tudo na prática exigiria muito mais tempo; mas dar continuidade a esse esforço está nos meus planos.

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Conservadores, Brás Cubas e a pedra filosofal

emplasto-bras-cubasQuem ouve falar aos sedizentes conservadores brasileiros fica, suponho eu, aliviado. Descobertas há as mais surpreendentes, declaradas em meio à celeuma de heurecas: existe verdade, não é relativa, Cristo isto, virtudes aquilo. As mesmas respostas, milagrosamente, solucionam todo gênero de problemas. Passou o tempo da ignorância. O Brasil tem futuro garantido.

Não importa o campo do conhecimento, o emplasto Brás Cubas resolve o dilema. A “dignidade humana” e a “lei natural” passeiam, enquanto falamos, pelas alamedas da inteligência; estavam há pouco com um biólogo pró-vida… agora cruzaram para a casa de um jurista – que escrevia sobre cotas – e parece que saíram de um bar na Rua Augusta. Amanhã visitarão um pedagogo, que com elas diagnosticará a educação brasileira; depois têm hora marcada com certo professor de matemática, que sabe-se lá como as envolverá em suas exatas ciências.

Agora há pouco me bateram à porta uns finórios de cartola e bengala, perguntando-me que tenho eu contra tão nobres senhoras. Sou eu inimigo da dignidade humana? Que me fez ela? E a lei natural? E quem mais pretendo insultar com vagas referências literárias? Os distintos cavalheiros me avisaram que nem cogite mencionar a “santa pureza” ou a “caridade”. Mas me entenderam mal: debaixo das cartolas, continuam brasileiros, e como ótimos brasileiros, péssimos leitores. Não tenho nada contra as damas citadas, que entre nós são, aliás, donzelas intocadas e desconhecidas. Parece-me que cá nunca pisaram, ou se o fizeram, já faz tempo e foi em segredo.

Não sou opositor da caridade, da santa pureza, da dignidade humana ou (de modo algum!) da lei natural. Cortejo-as todas de longe, quase sempre por carta e foto, já que não se dignam a visitar-me, nem tenho eu recursos para visitá-las com frequência.

Minha desconfiança – não a chamem inimizade! – é com o bálsamo universal, que às vezes usurpa os nomes a essas senhoras e a outras mui dignas. Percebe-se a fraude por sinais exteriores: de repente a caridade mostra impaciência, a santa pureza explode em tremores psicóticos, a dignidade humana soa cafona e burocrática, a lei natural rasga as vestes como um fariseu. E todas, sem exceção, ocupam lugares alheios, posando de soluções definitivas para grandes mistérios que, se encarados por um pobre mortal como eu, pareceriam exigir décadas de estudo cada um.

Lia eu, há não mais que algumas horas, em algum site conservador, assim de passagem, num artigo sobre outro assunto, uma observação rápida e impaciente, em tom de quem diz o óbvio ululante: “o propósito da educação é…”. É o quê? Adivinhe o leitor, optando entre: a) incutir virtudes/valores; b) nutrir bons afetos; c) apreciar a beleza; e d) todas as anteriores. Tanto faz, todos dizem o mesmo, todos sabem qual é o propósito da educação. Aristocles, o filósofo de ombros largos, desbravou o mistério; depois Cícero, Quintiliano, Boécio, Alcuíno, Dhuoda, Hugo de S. Vítor, John Milton, Rousseau, Tolstói, Jean Piaget… embalde. A solução para este problema, como para os demais, já estava reservada ao Brasil do século XXI.

Ora, se há um hábito que o brasileiro, conservador ou revolucionário, esquerdista ou direitista, criança ou adulto, jamais abandona, é o de ter respostas simples e pré-fabricadas para todos os problemas do universo, sem nunca ter-se dado ao trabalho de estudá-los individualmente. Não por acaso, o texto teórico parece exercer uma assombrosa atração sobre nossas classes pensantes, que o preferem a todos os demais gêneros literários. Quanto mais universais as pretensões do texto, mais sedutor ele se torna. O brasileiro não se aproxima de Aristóteles pelo interesse na metafísica, mas pelo desejo de valer-se da metafísica como de um elixir alquímico que tudo transformasse em ouro. Nem se aproxima de Karl Marx pelo interesse em economia, mas pelo ardor de, munido de conceitos econômicos, apresentar ao mundo uma solução final.

Se o leitor quiser, portanto, economizar anos de leitura de blogs intelectualóides, pode adotar o seguinte método: caso queira saber a opinião “de esquerda” a respeito de qualquer problema, recorra à ideia de luta de classes e à opressão da elite burguesa sobre as classes trabalhadoras; caso queira saber a opinião “conservadora”, recorra ao Catecismo Romano, com especial atenção ao exame dos Dez Mandamentos. Ali se encontram todas as respostas que o conservador brasileiro deu, dá e dará a respeito das mais intrincadas questões filosóficas, políticas, psicológicas, pedagógicas, mecânicas e esportivas. Na verdade, alguns de nossos conservadores já começam a considerar a literatura um passatempo perigoso e a filosofia pagã como mera peça de museu (já absorvida, em tudo o que nela havia de proveitoso, no Código de Direito Canônico). Nas drogarias, já não há espaço para outro fármaco; o emplasto Brás Cubas cura todas as dores, inclusive a consciência da própria burrice.

MaquiavelPedagogo

O Vocabulário Diabólico da UNESCO (Notas a Pascal Bernardin)

MaquiavelPedagogoAs coisas terríveis às quais aludirei neste texto estão documentadas no livro Maquiavel Pedagogo, de Pascal Bernardin (publicado em português pela VIDE Editorial): são idéias sistematicamente defendidas e propagadas, em documentos oficiais, por cientistas e pedagogos da UNESCO. Se não cito aqui as fontes específicas de cada uma delas é por falta de tempo, e por saber que esse grosso trabalho já está feito e publicado. Por outro lado, mesmo que não houvesse provas textuais, algo deveria trazer-me o benefício da dúvida: muito do que vou dizer aqui pode provocar no leitor, como provocou em mim, lembranças de uma idade mais inocente, em que um pervertido obteve permissão de meus pais para estuprar minha consciência, assim aviltando o nome e a nobreza da profissão de professor.

Não tratarei aqui dos fins das ações da UNESCO. Ela possui um ideário que é, de resto, o mesmo da ONU, e que não deixa de ter muito em comum com a mentalidade jornalística brasileira (ou, o que dá no mesmo, com os liberals americanos). Tudo o que se diz nos documentos da organização é sempre justificado pela necessidade de acabar com o preconceito, a discriminação, o atraso cultural da sociedade, etc. Não preciso dizer que, múltiplas vezes, vemos essas lindas palavras ligadas à célula familiar (“transmissora de preconceitos”), às religiões e às culturas nacionais e tradicionais (“preconceito étnico”). Numa palavra, a Unesco sonha com uma “ética universal” (sic) fundamentada nos chamados direitos humanos – explicitamente, no internacionalismo, no materialismo, cientificismo, pacifismo radical (“não-violência”) e ecologismo. Esse, porém, não é o meu objeto, porque já vem sendo discutido com seriedade por autores como o Mons. Juan Claudio Sanahuja.

Para eliminar os preconceitos e demais mazelas das nações, os pedagogos da UNESCO vêm estudando, há décadas, uma disciplina chamada Psicologia Social (muitas vezes aludida com o nome genérico de “Ciências Sociais”, mas facilmente interpretada no contexto como significando especificamente a Psicologia Social). Meu objetivo aqui é explicitar o significado concreto da terminologia (vaga e de difícil interpretação, aos olhos de um leigo) que vem sendo utilizada nos documentos da UNESCO e, consequentemente, no ensino universitário de Pedagogia. Esses termos aparecem na boca de pedagogos do Brasil e do mundo, com ares de sabedoria esotérica, e é importantíssimo que cada pai e mãe saibam seu real significado, para poderem dar-lhes resposta apropriada.

O conceito-chave é, evidentemente, educação. A palavra tem um sentido muito específico, que é delineado pelas exigências que dela se fazem. Os maníacos da UNESCO admitem que todo projeto educacional é determinado pelo seu objetivo, pelo seu fim; e neste caso, dizem eles, o fim não pode ser um “intelectualismo elitista”, que privilegie o “acadêmico”. A educação segundo a UNESCO visa, ao contrário, ao desenvolvimento social. “Desenvolvimento social” quer dizer a construção de um certo tipo de sociedade, em que as pessoas se comportam assim-assado — e isso remete, evidentemente, à “ética universal” de que falei acima. A idéia é, numa primeira fase, desenvolver uma educação multicultural, isto é, uma educação que facilite a convivência de diversas “culturas” (no sentido de “sociedades distintas”). Em seguida, passar-se-á a uma educação intercultural, que deveria ser chamada “unicultural”, pois visa à ética supracitada. A oposição multicultural x intercultural é importantíssima, pois diz respeito, respectivamente, a uma fase de transição e ao objetivo propriamente dito.

Ora, uma “educação” que pretende produzir um conjunto de atitudes, visando ao “desenvolvimento social”, não pode prescindir de um método adequado – o qual, como vimos, não pode ser o método tradicional, cuja fundamentação “acadêmica” é pouco eficaz na criação de culturas (os cientistas enfatizam bastante a ineficácia “prática” do método tradicional, “intelectualista” e “elitista”, isto é, que ele não consegue transformar as crianças em autômatos pré-programados). Aqui entram as “Ciências Sociais”, e por isso a UNESCO encomendou um estudo intitulado A Mudança de Atitudes (“atitude” significa o comportamento, a conduta, behavior). A educação tem de tornar-se não-cognitiva ou, como os pedagogos preferem, ativa, multidimensional, experimental. Isso se deve a psicólogos comportamentais (behaviorists) terem demonstrado experimentalmente a eficácia das ações na mudança de comportamento.

Descobriu-se, por exemplo, um fenômeno chamado dissonância cognitiva. Suponha que uma pessoa faz, um pouco por acidente, algo incompatível com alguma de suas crenças. Não encontrando razão plenamente confessável para o ato, a mente tenderá a justificá-lo a posteriori (o que se chama normalmente de racionalização). Isso é particularmente comum em confissões escritas. Um prisioneiro americano que odiava a China comunista foi induzido a escrever um elogio do país, como uma espécie de jogo. Seu texto foi publicado na prisão e muito elogiado. Em alguns dias, o americano passou a defender convictamente o regime*. A dissonância cognitiva mostra que existe um modo praticamente seguro de mudar rapidamente o comportamento das pessoas. E esse não é o único método. A título de exemplo, há outro chamado norma de grupo, que significa basicamente que se um grupo de pessoas começa a discutir um fenômeno elas tenderão a adotar um consenso. O que interessa aos “pedagogos” é que esse consenso não precisa ser verdadeiro. Ele pode ser influenciado de diversos modos. O mais simples é a inserção de uma figura de autoridade no grupo: as pesquisas mostram que em praticamente todos os casos a figura de autoridade determina o resultado da “discussão”, e ainda assim permanece o efeito de “consenso”.

Esses dois conceitos são especialmente relevantes porque o primeiro é a origem do uso pedagógico do psicodrama, enquanto o segundo resultou em diversas práticas de grupo. Toda vez que temos encenações em sala de aula, apresentações teatrais ou simulações as mais variadas, é o psicodrama que está em jogo. Os cientistas da UNESCO comemoram que o psicodrama tem imenso sucesso na “modificação de atitudes”. A criança que joga lixo no chão, depois de fazer o papel de um herói ecológico que passa sermão na plateia inteira, tende a tornar-se uma ecochata fanática (para a UNESCO, um exemplo de santidade). Isso se dá porque o psicodrama é uma eficaz técnica hipnótica, usada por terapeutas para transformar crenças e hábitos. As práticas de grupo se manifestam nos supostos “debates” (que, como sabemos, são filtrados e controlados pelo professor para chegar à conclusão esperada). Também se estimula todo tipo de atividade que atribua mais autoridade ao grupo do que aos pais ou à tradição (pois ambas, na opinião dos cientistas, são fontes de “preconceitos”). Segundo os psicólogos, é muito fácil influenciar a opinião dos grupos de jovens, o que torna esses grupos autoridades desejáveis (especialmente em comparação com outras como pais e sacerdotes). Isto é, mina-se a autoridade da família e da religião, substituindo-a pela do grupo, ao mesmo tempo em que se aplicam técnicas de psicologia social para controlar as opiniões do grupo.

Quando se fala de educação multidimensional, também surge a ideia de que a educação não deve “apenas” transmitir “informações”, mas atingir a totalidade da personalidade. Fala-se que toda educação pressupõe a dimensão dos valores, e que deve assumi-los e trabalhar por eles. O significado concreto disso é que a educação deve moldar o comportamento dos estudantes, e essa formatação deve ser completa: emoções, convicções, hobbies, sonhos, tudo deve ser influenciado o quanto possível dentro do quadro dos “valores” da UNESCO. Ensinar uma doutrina não é o bastante, nem é desejável, porque uma doutrina precisa persuadir a inteligência. O melhor é “modificar atitudes”, isto é, condutas, de preferência sem que o sujeito perceba que está sendo induzido. Ele deve sentir que está fazendo tudo porque quer. A mudança é sub-reptícia. Repito que tudo isso está dito, tal e qual, nos documentos da UNESCO.

Quando escolas promovem atividades práticas (outro jeito de dizer ativas ou experimentais), que colocam os estudantes numa posição ideologicamente comprometida, isso não deve ser encarado como acidental. Os pedagogos que citei preconizam explicitamente atividades extracurriculares que ajudem a internalizar as “atitudes” apropriadas. Quando se fazem discussões em grupo sobre temas “atuais”, com intromissões sutis do professor, não se trata de coincidência. A UNESCO vem promovendo artigos, manuais pedagógicos e cursos de atualização que ensinam os professores a fazer exatamente isso. E o poder dessa coisa sobre a mente de crianças e adultos está documentado. É o mais extenso controle cerebral já feito na História, com grau elevadíssimo de sucesso. A primeira coisa que pretendo com este texto é divulgar a terminologia pseudopedagógica que vem sendo utilizada para esconder essas técnicas de manipulação mental.

Em segundo lugar, eu gostaria também que os leitores pensassem sobre os efeitos que essa pedagogia teve em seus próprios casos. Quaisquer pessoas que tenham estado na escola nas últimas duas décadas devem ter sido submetidas a técnicas como as que descrevi. Quanto mais jovem a pessoa, pior, pois os métodos se desenvolveram e disseminaram. Lembrem-se de que essa educação visa simplesmente a desenvolver reflexos condicionados, e despreza totalmente o desenvolvimento intelectual. Lembrem-se também de que, com o tempo, tendemos a nos dessensibilizar e achar natural que sempre reajamos a tudo de modo automático e semi-consciente. Achamos normal nunca termos lido Os Lusíadas, não sabermos diferenciar uma oração subordinada de uma coordenada, não conseguirmos escrever um texto sem erros grotescos, demorarmos para fazer uma conta simples, não sabermos as diferenças situacionais entre um debate e um discurso, nunca termos lido uma fonte primária de algum evento histórico etc.

Isso significa que há grandes chances das minhas e das tuas capacidades linguísticas, matemáticas, etc. estarem numa situação tenebrosa. É urgente que desenvolvamos uma grande desconfiança de nossas próprias inteligências, e que corramos contra o tempo para corrigir esse processo. É igualmente urgente que aqueles que possuem filhos passem, além de conscientizar as crianças a respeito dessas técnicas, a vigiar cada passo de seus professores e cobrar as escolas fazendo quanto escândalo possível. Quando falarem de “multidimensionalidade”, digam que é bestialidade. Quando falarem de “habilidades sociais” digam que é engenharia social, estupro intelectual e abuso de menores. Quando falarem de “valores”, digam que quem ensina valores a seus filhos são vocês, e que não vão aceitar que pressionem e induzam as crianças contra a família. Seu filho é um ser humano. Não deixe a escola adestrá-lo como um animal.

* A mesma técnica é aplicada diariamente na escola, quando se pede que alunos escrevam redações sobre temas que desconhecem totalmente. É claro que, antes da redação, eles têm uma “aula” em que o professor lhes diz exatamente tudo o que devem pensar a respeito. Depois de escrever o texto, as crianças adotam aquelas opiniões como se as tivessem formado sozinhas, com grande convicção.

grammatica

Notas sobre o Estudo do Latim

grammaticaComo celebro agora o primeiro Natal depois da conclusão das gravações para o Curso de Latim Online, sinto-me inclinado a avaliar a experiência, levando em consideração os depoimentos de alunos e o contato que tive com outros professores de latim e áreas próximas.

Encontrei o latim enquanto procurava minha origem. A princípio mero símbolo de uma jornada ainda obscura, provou-se legítimo soberano, tendo sido por mim abandonado e redescoberto mais de uma vez; pode-se dizer que afinal entendi, num sentido mais profundo que o usual, por que todos os caminhos levam a Roma.

Ao contrário de muitos (talvez a maioria) dos latinistas, não me interessei propriamente pela língua do Lácio, instrumento precioso dos filólogos, chave da etimologia, manual dos eruditos. Queria mesmo era estudar filosofia. Enquanto a maioria dos meus semelhantes saltava, ávida, para o grego ático (tentação que sofri eu mesmo), tive a felicidade de perceber que, mais que da “língua original”, era preciso participar da “tradição cultural” que levava à filosofia. O templo de Apolo não se abria aos ímpios; antes os envolvia numa teia de ilusões, guiando-os para o mais denso da floresta, onde envelheciam delirantes, privados para sempre da luz do sol. A verdadeira Sibila só respondia a quem se dirigisse a ela na linguagem correta: a língua perpétua da humildade, da submissão aos ancestrais, da “pietas” impiedosa representada pelo Rei Anquises, no mundo dos mortos, instruindo seu filho Eneias sobre a vontade dos deuses. Não o brilho, o chamariz, o Olimpo; sim as sombras, o reino desprezado ou temido, o inferno. Foi este o caminho de Virgílio; foi este o de Dante. É o verdadeiro sentido dos versos de Pope:

“A little learning is a dang’rous thing;
Drink deep, or taste not the Pierian spring”

“Drink deep”, e não “much”. Não se trata, aqui, de erudição, isto é, do acúmulo de estudos sobre um autor ou uma época, que poderíamos chamar de estudo “horizontal”. Ao contrário, é preciso descobrir a significância de cada elemento, o peso que adquiriram na história e na formação das maiores almas de todos os tempos e, consequentemente, da nossa civilização como um todo. Ironicamente, a língua latina, que normalmente atrai inteligências minuciosas, “fault-finders” e normativistas ranzinzas, impressionou-me justamente pela elevação, pelo desprendimento, pela transcendência dos seus autores e da tradição que eles compunham.

Em outras palavras, não eram os particípios, gerundivos e declinações que interessavam — embora fossem, evidentemente, parte do caminho. O foco (digo-o no sentido etimológico, que remete ao fogo sagrado do deus Lar) era, para mim, o latim como disciplina intelectual e, em certo sentido, espiritual. O latim como “lingua pontifex”, construtora de pontes, ligando Dante e Camões a Homero por intermédio de Virgílio (esse Príncipe e Sumo Pontífice dos poetas), o organismo vivo que, ao longo de dois mil anos, adaptou-se harmoniosamente à cosmologia neoplatônica, à religião cristã, à literatura e filosofia da Grécia. O latim, não como língua, mas como alma; como ancião do Ocidente, profeta longevo, “magister gentium”. Aos poucos ele se tornou, para mim, a mesma coisa que a filosofia. Mais tarde eu descobriria que assim o concebiam os mestres medievais, que chamavam o estudo da língua e literatura latina (“grammatica”) de “pars prima philosophiae”, e John de Salisbury, que lembrava a seus contemporâneos (como poderia lembrar aos nossos): “em vão se avança rumo às demais disciplinas, sem a posse desta”.

Os métodos tradicionais de latim costumavam apresentar a língua como uma espécie de “introdução à lógica matemática”. Não estavam inteiramente enganados, claro; não obstante, bravos guerreiros tombaram perante os rigorosos “magistri” ginasiais, entre gemidos de “rosa, rosam, rosae…”. Contra tais sofrimentos, levantaram-se muitos, dentre os quais destaca-se a corrente de Hans Ørberg, que rememora a natureza social da linguagem e pede que o latim seja ensinado mais ou menos como as línguas modernas.

Eu me formei, inicialmente, com a Gramática Latina de Napoleão Mendes de Almeida e com os “Gradus” de Paulo Rónai, ambos representantes do ensino tradicional; na universidade, estudei com um método intermediário, o “Reading Latin”, que procurava ensinar a teoria gramatical de passagem, enquanto enfatizava a quantidade de leitura. Quando conheci Ørberg, já dava aulas particulares há alguns anos, mas me interessei e li alguns de seus materiais complementares (minha paciência para os livros introdutórios já não era grande), cuja qualidade nunca me decepcionou.

Sou um sujeito simples: não tendo motivo contrário, gosto de tudo e todos. Achei difícil escolher entre as tantas virtudes dos vários métodos e, no esforço de aprender a língua com máxima eficácia, acabei compondo uma metodologia própria que de original tem nada ou muito pouco. É possível descrevê-la como um “Reading Latin” sem textos adaptados, em que a teoria gramatical foi substituída pelo método analítico de Napoleão Mendes, com o acréscimo da “enarratio poetarum” conforme a aprendi nos pedagogos antigos e medievais. Dentre os autores famosos, Ørberg foi quem menos influenciou minhas concepções, talvez porque eu já pensasse de modo semelhante a ele em vários aspectos, mas os pontos nos quais divergimos dizem respeito, simplesmente, a diferenças em nossos objetivos.

A língua latina é muitas coisas; entre elas, é uma língua. Já foi falada um dia, e pode ser falada de novo. Evidentemente, não se aprende latim para fazer compras ou turismo, nem para conversar sobre um programa de televisão; tais coisas cada um pode fazer em sua respectiva língua moderna. Há um ou outro americano maluco que, segundo li, organiza “acampamentos latinos” indignos de homens adultos, mas isso não está necessariamente ligado à ideia de ensinar “latim vivo”.

O latim já foi a língua da alta cultura e das universidades, e poderia voltar a ser (refiro-me agora ao bonito projeto de Luigi Miraglia); contudo, não é o caso no presente momento, nem creio que será pelas próximas décadas. No novo papel social que os acadêmicos passaram a desempenhar, o idioma dos antigos escolásticos não lhes interessa mais. Além do mais, a integração de universidade, Igreja e cultura clássica não parece poder ser restituída imediatamente. Tenho mesmo a impressão de que sua existência na Baixa Idade Média não foi causa do esplendor intelectual da época, mas um de seus efeitos: se quisermos de fato restaurar a possibilidade de uma língua única para a alta cultura ocidental, creio que, antes de tentar a “renovação” do latim em moldes humanistas, o correto seria empreender sua “restauração” à maneira carolíngia. Noutras palavras, o que interessa no latim são, primeiramente, os “auctores” clássicos; o resto pode esperar, e talvez espere muito.

Aprender latim como uma língua comum pode ser o objetivo de alguns; outros preferem, como já mencionei, fazer dele uma espécie de treinamento lógico. Do modo como o vejo, contudo, trata-se da “primeira parte da filosofia” e, de certo modo, “imagem da filosofia”: uma disciplina cujo objetivo é passar de aparências a essências, por intermédio da resolução dialética de interpretações contraditórias. Uma arte que começa na recitação e na análise sintática, transita pela apreciação de figuras de pensamento e de palavras, chega à crítica literária e aponta para as mais altas inspirações do gênio humano.

Segundo a lição de Olavo de Carvalho, “a filosofia é a busca da sabedoria; a poesia é a sabedoria em busca dos homens”, e facilmente se redescobre o mesmo sentido na fórmula de S. João: “amamos nós, porque Ele nos amou primeiro”. Se a sabedoria é o Verbo, segunda Pessoa da Santíssima Trindade, hoje encarnado e ressurreto sob o nome de Jesus Cristo, a poesia é Cristo que bate à porta e entra em nossas casas; a filosofia somos nós que abandonamos nossas casas, de portas escancaradas, para reencontrar Cristo. Este reencontro, expresso por diferentes autores como a modalidade suprema de consciência, é todo o objetivo da filosofia, e uma sombra dele resplandece em cada uma de suas partes menores. O estudo das letras não é exceção: seu objetivo deve ser, portanto, o estabelecimento de certa ordem na inteligência; a qual, não obstante ser ordem, impele para uma superação de si mesma, rumo àquela sabedoria que não pode ser abarcada por disciplina alguma. Todo e qualquer conhecimento só me interessa se contribui para esse fim, e testemunho que a língua latina, conforme a estudei e ensinei, sempre se mostrou tão eficaz quanto prometiam os mestres antigos e medievais.

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Saindo do atoleiro

Entre as perguntas que recebi ao final da minha última palestra, intitulada As Crianças e o Trivium ( http://www.icls.com.br/aula/as-criancas-e-o-trivium/ ), percebi uma inquietude generalizada sobre a preparação requerida para dar às crianças uma educação de qualidade superior. Minha resposta imediata consistiu em garantir que o trabalho não é tão difícil quanto parece, que qualquer um pode começar a fazê-lo com seus próprios filhos; mas senti que, em tão breve tempo, não pude transmitir a segurança de que aqueles pais precisavam. Segue uma tentativa mais elaborada de tranquilizá-los.

Primeiro, é preciso enfatizar a concepção educacional das artes liberais como um treinamento. Hoje se considera que educar é empilhar conhecimentos variados na cabeça de uma criança, na expectativa de que algum dia ela use cada um deles. Eu já esqueci a maior parte do que suei para aprender na escola, mas não sinto falta de nada; na verdade, esqueci porque tive de aprender outras coisas, essas sim realmente relevantes para tomar decisões acertadas e lidar com os problemas da vida. As artes liberais não servem para acumular conhecimento, e sim para desenvolver faculdades da alma. Uma vez afiados, os instrumentos da inteligência podem ser aplicados livremente ao que o estudante deseje.

Assim sendo, o trivium não tem compromisso com um currículo fechado ou com “avaliações de conhecimento”. Seus exercícios são isto mesmo: exercícios, como os que se fazem nas academias de musculação. E o dever essencial do professor, por melhor que seja sua formação, é simplesmente fazer com que o aluno exercite corretamente suas faculdades. Na arte literária — o primeiro estágio — o foco não é dar eruditas palestras sobre língua e literatura, mas desenvolver a sensibilidade para essas disciplinas. Em outras palavras, não é o fim do mundo perceber-se ignorante e incapaz: ao contrário, é um motivo extra para apresentar suas crianças às artes liberais e, junto a elas, descobrir você também o que os clássicos têm a oferecer-nos hoje.

Se você não conhece as palavras do texto, abra o dicionário e procure-as, junto com o seu filho. Se “não sabe” interpretar um poema, esta é sua chance de, discutindo-o à mesa da cozinha com as crianças, começar a desenvolver suas habilidades interpretativas. Não faz tanta diferença se o resultado não for o ideal, porque o “espírito da coisa” não é chegar a algum ideal. É justamente o processo, o esforço de entender o texto, que desenvolve a inteligência: a do seu filho, e a sua também.

Não estou dizendo que vai ser fácil, nem que é indiferente ter mais ou menos preparação. Estou, sim, chamando atenção para um fato: na atual situação do país, ou você educa seu filho, ou ninguém vai fazê-lo. Um pai ignorante, brigando para educar-se, ainda é melhor do que duzentos ignorantes fantasiados de professores, para quem educar os filhos dos outros é transmitir-lhes seus próprios preconceitos. Concentrando-se no essencial, e insistindo em obter tanta formação quanto possível, podemos esperar resultados muito bons.

conselhos

Conselhos para o Estudo do Latim

Tendo recebido uma mensagem de certa irmã carmelita, que me solicitava algum apoio para aprender o latim da liturgia de seu convento, e que não podia ter aulas particulares – já que vive em clausura – decidi gravar este pequeno vídeo para o benefício dos que não podem – ou não querem – estudar latim com um professor. Trata-se de alguns conselhos para um estudo eficaz e frutífero que, roubando o mínimo de energia e tempo, apresente máximo resultado. Espero que o vídeo seja transmitido para a estudiosa monja e quiçá, por meio da bondade divina, para outros que dele possam beneficiar-se.

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