O que é poesia

Fim, limites, natureza e função da arte poética

Para que haja uma teoria da poesia, é necessário saber qual é o fim dessa arte e que meios lhe são convenientes. Mas primeiro deve-se perguntar o que é poesia; e diremos que hoje se entende por essa palavra certa modulação do discurso, isto é, uma maneira de falar, que tende a valorizar o ato mesmo da fala, transformando-o em objeto de contemplação e deleite. Assim, poesia é o discurso em função do deleite.

A relação entre discurso e deleite tem desenvolvimentos importantes. Todo discurso, como diz a gramática, é composto de significante e significado, e o deleite poético, portanto, é produzido em relação com esses elementos. Ora, como a função da língua é comunicar, na linguagem corrente o significado é priorizado sobre o significante; já na poesia, como seu fim é o deleite, surge uma competição entre a função de significar e a de comprazer.

É claro que o poema nem pode deixar de ser linguagem, nem pode deixar de ser poema; mas ora será mais poema que linguagem, ora mais linguagem que poema — caso em que diremos ser “prosaico”. À medida que a função propriamente poética prevalece sobre as outras, o poema se torna mais perfeito, e em lugar de “contar uma história” ou “expressar um sentimento”, transforma-se num artefato ou opus, convertendo a linguagem humana em instrumento a serviço da beleza.

Não obstante, a beleza é obtida mediante a linguagem, de forma que o poema é comunicação, e é por comunicar, e conforme comunica, que se torna belo. Não corresponde à realidade, portanto, a idéia hoje vulgar de que o assunto do poema seja indiferente, importando apenas a “forma”; pois o assunto é parte da forma, e dele depende, em grande parte, a beleza do artefato, como a qualidade do mármore contribui para a perfeição da estátua.

Além disso, nada impede que a poesia seja usada para fins outros, como favorecer um partido político ou despertar interesse por uma disciplina acadêmica; pois como sua função é produzir deleite, ela extrairá do partido ou da disciplina, que tomou como seu objeto, tudo o que ali houver de mais agradável, para atingir seu próprio fim. Contudo, o poema em si não pode ser escrito pensando em persuadir, ou se tornaria um discurso retórico, mesmo que em versos; nem em excitar a inteligência, ou seria uma palestra acadêmica, ainda que metrificada. O poeta trabalha como artífice, visando à beleza de seu artefato, e não à exaltação do material utilizado. Daí que um homem letrado possa, por exemplo, detestar a Igreja Católica, e mesmo assim ler Dante com grande gosto; ele reconhece a beleza do poema, e talvez até a da fé católica, mas tal não basta para persuadi-lo a converter-se, pois o fim da poesia não é persuadir.

Utilidade da poesia

É bem verdade que, uma vez transmutado em poema, o assunto entra em simbiose com a forma poética: por um lado, é dele que o poema extrai parte de sua beleza; por outro, o opus resultante contribui para exaltar e favorecer os valores incorporados em sua matéria. Este não é o fim imediato da poesia, mas sua função social, a qual está como que embutida no objetivo de deleitar.

Em outras palavras, não se trata aqui do fim da arte poética, mas de sua justificativa perante a comunidade humana; e como o poeta não é apenas poeta, mas também e principalmente homem, este é um tópico importante para a sua formação. Não há artífice que um dia não se pergunte para que serve a sua arte, e que não se sinta diminuído ou perdido ao perceber que não sabe a resposta: por melhores que sejam os sapatos que faz o sapateiro, se ele tiver dúvidas sobre o valor de sua função social, não poderá permanecer contente.

Ora, como a poesia é o discurso em função do deleite, convém perguntar qual seria a utilidade de deleitar pelo discurso. E sendo todo discurso comunicação, o que investigamos é para que serviria tornar bela a comunicação. Mas “comunicar” é transmitir a outrem alguma idéia, seja ela simples ou complexa, e embelezar a comunicação é, portanto, embelezar a própria idéia comunicada. A idéia, por sua vez, atinge a inteligência e permanece na memória; se é bela, permanece como valor. Portanto, o valor é uma idéia bela; e a utilidade da poesia é formar valores. Assim, como atividade social, a poesia é parte da cultura (no sentido clássico da palavra, de cultura animi ou “cultivo do espírito”), tendo como irmãs a pedagogia, a legislação, a oratória epidíctica e demais instrumentos formativos que a sociedade dispõe para o aperfeiçoamento dos homens.

Por aí se entende que a poesia, em seus primórdios, estivesse tão unida ao culto religioso, às leis, à filosofia e, de modo geral, aos valores dos povos: não há modo mais eficiente de preservar uma cultura do que tornando-a bela, pois a beleza inflama o coração do homem e mantém viva a memória das coisas. Se o poema de Dante não persuade, diretamente, a uma conversão, ele aumenta e intensifica, no entanto, a comunhão de valores; de forma que, apesar de não aderir à Igreja como fiel, creio nas mesmas coisas que ela crê — ou, se não creio, ao menos gostaria de crer, pois vejo sua beleza, e como que as idealizo e desejo amá-las. Não obstante, pode muito bem ser que não tenha forças para transformar esse desejo em ato: Nondum amabam, et amare amabam. Assim, a poesia não pode converter ninguém a uma religião, mas ajuda a sustentar uma cultura religiosa.

Por que meios a poesia atinge seu fim

É característico da poesia que o seu prazer se dê por meios discursivos: o acompanhamento musical, a presença de dançarinos, o uso de imagens ou animações não parecem fazer parte do conceito de poesia. Uma associação impactante de imagens, que por si mesma produza deleite, não é chamada de “poética”; mas se as imagens são evocadas por palavras, o impacto se torna poético de todo direito. Isto mostra que a palavra “poesia” designa um tipo específico de prazer que se obtém apenas pela linguagem.

Por isso, os recursos de um dado poema serão os recursos do idioma em que o poema foi escrito. Dentre os elementos mais óbvios que podem ser manipulados pelos poetas, consta a construção musical da fala, segundo as regras de cada idioma: daí vem o uso da rima, que em tantos idiomas modernos se consagrou como marca da poesia. Daí também os aspectos menos conhecidos do grande público, mas igualmente importantes em nossa tradição, como o metro fixo, os tipos de estrofe, etc.

Contudo, apesar de os elementos musicais serem mais palpáveis, não são os únicos nem os mais importantes da linguagem poética; há um imenso rol de figuras de linguagem, desde a manipulação de expressões e provérbios populares até os jogos conceituais mais intricados, que ficam à disposição dos poetas para criar o seu artefato linguístico.

Veja-se o exemplo abaixo:

Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
Mas não servia ao pai, servia a ela,
E a ela só por prêmio pretendia.

Luis de Camões

Os dois primeiros versos, quanto ao conteúdo conceitual, compõem uma narrativa prosaica; entretanto, ainda que não pudéssemos perceber a divisão do texto em versos, haveria o metro fixo, o ritmo, a construção algo concisa e elegante demais, que denunciam tratar-se de poesia. Na segunda metade da estrofe, saltam aos olhos as figuras de linguagem: primeiro, a contradição paradoxal que força uma releitura do verso anterior (até então quase prosaico), transformando retroativamente um mero adjunto adnominal no objeto mesmo do verbo; segundo, a repetição retórica de servia; terceiro, a repetição do objeto a ela com mudança do verbo, a ponto de gerar efeito de zeugma. A profusão de figuras de linguagem parece patentear mais a natureza poética desses dois versos, por causa de seu impacto sobre a sensibilidade.

O papel dos elementos fixos

A percepção visual do verso, isto é, de um rompimento demasiado frequente na estrutura da frase, é hoje o principal indício usado para identificar um poema. Quer isto dizer que, se não tiver acesso ao texto escrito, o leitor moderno não sabe julgar se está diante dum poema ou não. Essa dificuldade pode causar a falsa impressão de que a poesia não tenha uma natureza objetivamente diferente da prosa. Trata-se, porém, apenas de falta de treinamento adequado para perceber o que as distingue.

As crianças, por sua vez, costumam identificar um poema pela presença de rimas, ou por um metro fixo, que são elementos mais robustos do que a disposição visual do verso, pois permitem a identificação por via auditiva; contudo, nem a rima nem o metro fixo são essenciais à poesia. Ambos estabelecem certo padrão por detrás das variações sonoras necessárias à comunicação, isto é, contrastam um fundo permanente e uma superfície variável, o que causa prazer e, por causa da repetição, facilita que o poema seja memorizado. Como a finalidade da poesia é deleitar pelo discurso, um poema que não causasse deleite na dimensão sonora estaria deixando de cumprir sua finalidade no elemento mais palpável da linguagem. Daí que o metro e a rima sejam tão característicos da poesia e, em muitas épocas e lugares, uma necessidade praticamente incontornável.

Ademais, se metro e rima não são essenciais à poesia, o mesmo não se pode dizer das figuras de sonoridade; o texto que não seja significativamente dotado de prazer sonoro se exclui ipso facto da poética, já que, como dissemos, recusa-se a cumprir sua finalidade. Podemos reconhecer elementos poéticos num texto prosaico, mas não o chamaremos de poema se não satisfizer os requisitos mínimos; assim também reconhecemos que um utensílio doméstico muito bonito é “praticamente uma obra de arte”, mas como a forma do utensílio não tende completamente à beleza, uma vez que sofre coerções de natureza utilitária, não pensaremos que seja de fato uma obra de arte.

Prosa poética e poema em prosa

Para iluminar as fronteiras de poesia e prosa, é útil examinar aqueles gêneros intermediários que hoje se classificam como “prosa poética” e “poema em prosa”. Embora haja alguma confusão entre os termos, que para alguns podem até ser intercambiáveis, tentaremos estabelecer limites claros entre um e outro.

Veja-se um exemplo clássico de prosa poética:

O favo da jati não era doce como seu sorriso; nem a baunilha recendia no bosque como seu hálito perfumado.

José de Alencar

O ritmo hipnótico, a escolha da palavra indígena jati, que designa uma espécie de abelha, as comparações com bichos e plantas não descrevem simplesmente Iracema, “a virgem dos lábios de mel”, mas antes criam uma atmosfera deleitosa, em que não se lê apenas para “saber o que se passou”, como se leria um jornal, nem sequer para imaginar uma história excitante, como se leria um romance comum, mas pelo ato mesmo de ler — e é preciso ler em voz alta, ou ao menos imaginar vivamente que o faz, para experimentar o prazer da leitura. Assim, a prosa de Alencar é muito próxima da poesia, por tender quase tanto ao deleite pelo discurso quanto tende à comunicação de sua narrativa. Daí podermos chamá-la de “prosa poética”; mas não pareceria razoável considerá-la um “poema em prosa”, a não ser que a função poética ali estivesse sensivelmente acima da função de comunicar.

Observemos agora, em comparação, o verso a seguir:

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces.

Vinicius de Moraes

Se quiséssemos contar, nele acharíamos vinte e uma sílabas poéticas. Tomado na superfície, poderia ser uma prosa curta, como certos bilhetes de amor; mas uma leitura mais cuidadosa exclui completamente tal possibilidade. O sinal mais evidente talvez seja o modo de expressão vago, etéreo; como na subordinada que são doces, tão questionável do ponto de vista lógico, tão estranha ao uso corriqueiro da língua. Contudo, é sem dúvida o ritmo que comprova o caráter poético do período: é demasiado firme para a prosa.

O “verso” em questão parece um composto de três versos menores, sendo o primeiro um octossílabo com peônios de quarta: eu deixarei que morra em mim; o segundo, um eneassílabo em ritmo anapéstico: o desejo de amar os teus olhos; o terceiro, enfim, um trissílabo que mantém o ritmo do anterior: que são doces. O eneassílabo anapéstico é clássico, e foi celebrizado por Gonçalves Dias: não descende o cobarde do forte; e a presença do jambo em ritmo anapéstico é orgânica e inclusive tradicional, como se vê no “martelo agalopado” dos cordelistas. Um período dotado de tanta musicalidade tem de ser poesia: bem poderíamos chamá-lo de “verso prosaico”, e com outros semelhantes comporíamos um “poema em prosa”.

Unidade e forma

Explicamos por que a estrutura melódica é fator definitivo na formação de um poema. Seria, porém, um erro pensar que basta uma sonoridade agradável para fazer um bom poema. Satisfazer às exigências mínimas é apenas o começo: põe o texto dentro das fronteiras do gênero, mas não lhe confere por si só o desenvolvimento conveniente. Para tanto, é necessário não apenas produzir algum deleite, mas o maior possível com os meios que lhe são próprios, e com perfeita harmonia entre seus elementos constituintes. Nesse sentido é que os grandes autores censuram a presença de partes desnecessárias, ou a incoerência entre elas, ou alguma impropriedade para com o assunto escolhido. Isto é o que se chama unidade ou forma poética.

Todo instrumento deve ter exatamente as partes necessárias para cumprir sua função, e em perfeita ordem: um garfo com apenas uma ponta seria tão defeituoso como seria se tivesse dez, ou como se as tivesse espalhadas em círculo em vez de alinhadas. Ora, também na obra que visa ao deleite, tudo deve contribuir para esse fim. A música, quando repete demais as mesmas notas, provoca tédio; e se nunca repete estrutura nenhuma, ou rejeita toda e qualquer semelhança entre elas, irrita o espírito.

Horácio evoca satiricamente uma pintura que unisse cabeça de mulher, pescoço de cavalo, um corpo coberto de penas e rabo de peixe, observando que, como na pintura, também na poesia é necessário haver coesão entre as partes. Contudo, como sugere a construção mesma do monstrum horaciano, o poema — diferentemente da pintura — é dinâmico, e sua coesão se constrói dinamicamente durante a leitura, de modo que tanto produzir como captar sua unidade é obra de intelectos treinados. E o que é mais: esta exigência de unidade é tão grande, que não diz respeito só ao nível das estrofes, ou dos versos, mas atinge o interior mesmo das palavras, seus diversos níveis de sentido, sua sonoridade interna, pedindo que tudo, desde a menor parte, tenda à forma maior e última.

Ora, uma vez que o papel específico da poesia, dentre os demais gêneros de discurso, é o de produzir deleite, e que para isso gera um artefato uno e estruturado, visando à contemplação, torna-se claro que é ela o gênero mais propriamente artístico de todos. Assim, pode-se também dizer que é o gênero mais habilitado a expressar a forma das coisas reais — em outros termos, é o modo de linguagem verbal mais próximo da realidade. É claro que esta proximidade é analógica e, como dizia Platão, a sombra de uma sombra, mas ainda assim, na comparação com os demais gêneros, é a poesia o mais apto a representar as coisas com integridade. De fato, ela está para a escultura como a oratória está para a carpintaria, e algo parecido pode ser dito dos gêneros restantes.

Fundamentos da gramática

Considerações preliminares ao estudo racional da linguagem humana

A estrutura da inteligência humana é dual: sempre há uma superfície e um fundo, a coisa que se entende e o conceito ou idéia que dela extraímos. Se não houvesse um ente a que chamamos “mãe”, nunca poderíamos formar uma idéia de mãe. Essa estrutura dual, em que há uma “matéria” e uma “forma”, algo por meio do que se entende, e algo que se entende, aparece de vários modos segundo os gêneros de objetos da inteligência; as características desses diversos modos distinguem as ciências e, além delas, também as artes liberais, cuja natureza é próxima das ciências.

Em especial quanto às artes liberais, é igualmente pela relação entre esses dois elementos que elas se distinguem entre si, e que se estabelece sua hierarquia e ordem; é, portanto, daí que surge a estrutura da pedagogia clássica e medieval. E como todos os autores concordam que a primeira arte, origem e fundamento das outras, é a gramática, supõe-se que os objetos gramaticais sejam os que apresentam maior facilidade para a aplicação da inteligência.

E é assim, porque aquela dualidade se manifesta, na linguagem, de modo especialmente simples e conveniente à inteligência ainda destreinada. Enquanto que a maioria das artes e ciências busca compreender a realidade externa, a gramática trabalha em primeiro lugar sobre objetos mentais, como doravante mostraremos.

Os níveis de significação

A estrutura da inteligência se reflete na estrutura da palavra, que é composta de um elemento perceptível e um inteligível, isto é, daquilo que ouvimos e daquilo que entendemos; ao primeiro chamamos significante, e ao segundo, significado. Quando dizemos “gato”, há o que se diz e se ouve, e há uma idéia ou conceito de gato, que estava na mente de quem disse, e se evoca na mente de quem ouve; um é o significante, e o outro, o significado.

Mas não é apenas no nível da palavra que aparecem esses elementos: também ao dizermos algo como tem um homem te chamando no portão, a frase inteira corresponde a uma idéia inteira, cuja unidade e harmonia é mais que a soma das palavras que a compõem, e portanto a frase, enquanto frase, também tem significante e significado. O mesmo se pode dizer de um parágrafo, e de um texto, e de um livro. Além disso, mesmo dentro das palavras há elementos menores com significante e significado: a terminação de cheguei e chegaste se repete, respectivamente, em falei e falaste, significando em ambos os casos a mesma coisa.

O esquema desses níveis de significação, começando pelos morfemas, daí passando à sintaxe, à interpretação de textos e, por fim, à crítica de obras completas, é a chave de estudo da arte gramática; de forma que, assim como a relação dual dos objetos da inteligência se manifestava de vários modos, e a hierarquia desses modos é que dava a ordem da pedagogia clássica, começando pelo trivium e passando ao quadrivium, também dentro da mesma arte gramática há vários níveis de significação, e é deles que mana a ordem interna do estudo gramatical.

A natureza do significante

Antes, porém, de estudar a estrutura da significação gramatical, da qual falamos acima, é necessário examinar o significante e o significado em si mesmos, e determinar sua natureza. E nesse esforço convém principiar pelo significante, por ser aquele elemento que parece mais palpável e, portanto, mais acessível.

O significante, seja no âmbito da frase, palavra ou morfema, é composto de unidades mínimas, ou átomos, a que chamamos fonemas, em referência ao grego phónos (“som”). Contudo, há grande diferença entre som e fonema. Som é uma categoria física mensurável e, portanto, exata. Se as línguas humanas fossem baseadas em sons, isto é, na emissão de certas ondas sonoras específicas e exatas, não seria possível pronunciar a mesma palavra de muitos modos. No entanto, ocorre precisamente o contrário: é difícil que duas pessoas, falantes do mesmo idioma, pronunciem a mesma palavra exatamente da mesma maneira.

Além disso, dentro do mesmo país há regiões em que a mesma palavra se pronuncia de forma claramente diversa daquela que se usa em outras, sendo ambas as formas percebidas como distintas, e seus falantes não raro publicamente expostos pela peculiaridade, e até ridicularizados uns pelos outros; e esses mesmos sons são paradoxalmente aceitos como variantes legítimas do mesmo fonema. Isto prova que a disparidade fonética, ainda que percebida, e portanto consciente, não destrói a integridade da língua. Ora, se a unidade mínima do significante fosse destruída pela variação dos sons, a língua inteira o seria juntamente. Fonema, portanto, não é a mesma coisa que som, e há certa medida de independência entre sons e fonemas.

A incapacidade de reconhecer fonemas é o que impede os cães de obedecer a comandos verbais de pessoas estranhas. Sua intolerância não se restringe a sotaques e peculiaridades linguísticas; até o timbre de voz do novo dono pode bastar para confundir o cão. O fato de os seres humanos conseguirem criar categorias abstratas, dentro das quais diversos sons são classificados como um só, parece essencial para que um único idioma possa ser falado em grandes extensões territoriais. Se fôssemos tão rígidos na audição das línguas humanas como são os cães, não reconheceríamos a mesma palavra quando falada por duas pessoas muito diferentes, e a comunicação verbal seria incomparavelmente mais difícil.

É claro que, via de regra, o agrupamento de vários sons em um único fonema é limitado por semelhanças materiais, sobretudo quanto ao modo de produzir cada som no aparelho fonador: no Brasil, o fonema [s] aceita a variante sibilante (“paulista”) e chiada (“carioca”), mas ambos os sons são produzidos de forma parecida. Contudo, o que explica que, em outras línguas, o chiado corresponda a um fonema [sh] e o sibilo, a outro fonema distinto [s]? É que o agrupamento fonético, apesar de influenciado pelas características do aparelho fonador, é determinado de forma convencional pela comunidade falante de cada idioma.

Pode-se, então, dizer que o fonema é uma categoria essencialmente mental e convencional — isto é, independente das características físicas dos sons, e determinada por convenções sociais — e que, portanto, o elemento significante, considerado em si mesmo, tem natureza mental e convencional. Assim, estaria errado quem afirmasse que o significante é feito de sons, ou que é de natureza física, material ou sensorial. Isso não é negar que haja alguma relação entre o mundo físico e o estudo da linguagem, mas observar que o objeto da gramática, desde o seu princípio, é sobretudo uma estrutura interna da inteligência humana, a qual sofre grande influência das convenções sociais.

A natureza do significado

Quanto ao significante, para o fim de esclarecer os fundamentos da arte gramática, basta o já dito, e os detalhes, deixemo-los para um artigo cujo assunto exclusivo seja o fonema. Falta, porém, oferecer abordagem semelhante ao significado, que é aquela sua contraparte inteligível ou conceitual.

Em primeiro lugar, não se deve confundir o significado, nem com as imagens da fantasia, nem com sensações e emoções que, por reflexo, estejam associadas a algum som. Esses elementos não pertencem exclusivamente à linguagem humana; compartilhamo-los com os bichos, que podem até ser adestrados para responder a comandos que, para nós, são verbais, sem no entanto compreendê-los de forma verbal. O cão responde intensamente à palavra “passear”, mas não sabe escutá-la como palavra: ouve os sons, mas não reconhece fonemas; reage às sensações que o som lhe desperta, mas não possui conceito, nem do infinitivo em -ar, nem do que possa ser um passeio, para além das sensações corporais em sua memória.

Se adestrarmos um cão na cozinha, ele só obedecerá na cozinha; é preciso readestrá-lo continuamente em diversos lugares para garantir que o comando seja eficaz. Assim também, ele reagirá à palavra “passear”, mas não à forma conjugada “passearás”, porque não tem conceito de pessoa ou tempo gramatical; e jamais poderá conceber que o verbo “passear” se aplique a outros indivíduos, ou em circunstâncias diferentes, ou em sentido figurado. Sua reação será idêntica e restrita, porque é automática e puramente sensível.

As crianças humanas, por outro lado, não apenas conseguem responder a verbos conjugados em vários tempos e pessoas, como sabem perfeitamente que a palavra “passear” pode aplicar-se a outros sujeitos, e não reagem como se sua simples menção significasse que o passeio será delas. É verdade que não raro compensam as vantagens da inteligência humana com uma reação emocional pior que a canina; sed de hoc alias.

O significado está, pois, intimamente unido à natureza racional do homem: se não fôssemos capazes de abstrair conceitos da realidade, não nos seria possível formar algum significado. Ora, não havendo significado, não poderíamos ligá-lo ao significante; e assim não se formaria palavra alguma. Seríamos como cães, relacionando sons a meras reações fisiológicas, e como tais reações não possuem unidade ou estabilidade, não poderíamos combiná-las para formar frases; sem frases, não haveria diálogo. Assim, é fundamental que o homem seja capaz de formar conceitos dos entes materiais, para que possa falar deles.

Contudo, esses conceitos não são reflexos integralmente fiéis da realidade; tal como ocorria com o significante, que era limitado, mas não determinado pelo som, também os conceitos da língua refletem as coisas do mundo de forma parcial e seletiva, e não se pode prever ao certo que aspectos do ente serão reconhecidos e expressos pela linguagem. Na formação de vocábulos, alguns idiomas privilegiam diferenças acidentais, como tamanho, cor e formato, ou até o contexto específico em que o referente aparece; outros são mais abstratos e quase filosóficos; e essa flexibilidade dá a cada idioma um temperamento ou espírito.

E assim como, quanto ao significante, havia divergências na pronúncia, também as haverá no pensamento individual; e como os fonemas subsumiam as diferenças de som, também os conceitos da língua serão relativamente independentes das idéias pessoais. Posso considerar o homem um animal naturalmente político ou achar que a política lhe é contrária por natureza, contanto que minha idéia de homem corresponda ao conceito mínimo da língua. Se eu acreditasse, por exemplo, que homens são animais de oito patas, irracionais, que vivem no fundo do mar, provavelmente seria difícil falar português comigo. Pode-se, também, duvidar da existência de Deus e continuar falando o mesmo idioma, contanto que, nas conversas sobre religião, o uso da palavra corresponda ao seu conceito vulgar; caso contrário, não haveria compreensão mínima entre as partes.

Nota-se, até aqui, o surpreendente paralelismo entre as estruturas de significante e significado: como havia divergências de pronúncia, as há de pensamento, e como o fonema resolvia aquelas diferenças, sem necessariamente eliminá-las da percepção, para que nos pudéssemos comunicar, assim também o conceito linguístico exige apenas uma concordância mínima, permitindo que diversas impressões intelectuais e até visões de mundo bem diferentes convivam e se comuniquem. Se a Torre de Babel provocou a divisão e multiplicação dos idiomas, o castigo divino não foi tão grande que destruísse completamente o diálogo entre os homens; bem ao contrário, restou possível um retorno à unidade mediante as sutis estruturas da linguagem.

A Semana Santa

por São Bernardo de Claraval
(traduzido do Sermão de quarta-feira da Semana Santa, 1-4)

HOLY-FACE-JESUSMeus irmãos, vigiai em espírito, para que os mistérios deste tempo não passem por vós sem frutificar. A bênção é abundante: oferecei receptáculos limpos! A tão grandes dons de graças, mostrai almas devotadas, e sentidos alertas, e emoções equilibradas, e consciências puras. Sem dúvida vos está advertindo quanto a esta preocupação, não só o especial modo de vida que professastes, mas também a observância geral da Igreja de que sois filhos. Pois que a totalidade dos cristãos, nesta semana sagrada, ou contra seu costume, ou mais que de costume, cultivam a religião, transparecem modéstia, perseguem a humildade, vestem-se de seriedade, para que de alguma maneira pareçam partilhar do padecimento de Cristo.

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A Ascensão das Universidades 

Prefácio à tradução brasileira de A Ascensão das Universidades, Danúbio, 2015.

Quando este utilíssimo livrinho chegou primeiro às minhas mãos, eu investigava a educação da Idade Média, em busca daquele equilíbrio intelectual que só o senso histórico pode dar, por meio de cuja posse eu seria capaz de avaliar os méritos da minha própria educação. O Prof. Charles Homer Haskins deu-me duas vantagens: a primeira, de conhecer diversos aspectos importantes ou pitorescos da vida universitária medieval; a segunda, de perceber que eu, de acordo com meus propósitos no momento, não ganharia muito se continuasse a estudar o assunto.

Talvez o leitor não perceba de imediato como é que a segunda vantagem pode resultar num elogio ao livro do Prof. Haskins. Ocorre que dificilmente eu encontraria um elogio maior, para qualquer obra informativa, do que declará-la suficiente. Para a maioria absoluta dos interessados na universidade medieval, A Ascensão das Universidades será o bastante: suprirá sua curiosidade, alimentará sua inteligência, questionará seus preconceitos e enriquecerá sua cultura. Alguns poucos sentirão o aguilhão da inquietude e consultarão, na cuidadosa bibliografia de apoio (apesar de hoje bastante desatualizada), uma obra-prima como The Mediaeval Mind, ou buscarão estudos mais recentes e específicos; esses são os escolhidos da mestra História, destinados a continuar o penoso trabalho de investigar e esclarecer as condições do ensino universitário medieval. Em suma, este livro satisfaz a muitos pela sua generalidade, excita uns seletos pela sua riqueza, e acima de tudo é útil, de modos diversos, a todos.

E eu não gostaria que pensassem tratar-se de uma “obra introdutória”, como muitas há, que se propõe falar de tudo sem tocar em nada, transmitindo uns poucos rudimentos do “estado científico” do assunto para estudantes condenados a muitos anos ainda de pesquisa detalhista. Não me lembro de jamais ter lido um livro introdutório com o prazer e proveito que me vieram deste. Nele, o Prof. Haskins deu um curso completo sobre a universidade medieval, sem poupar o leitor de muitos exemplos, detalhes e citações a obras da época. De fato, poder-se-ia dizer que temos aqui um belo exemplo de como pode um especialista falar para leigos sem sacrificar nem um pouco a qualidade da informação oferecida.

Por outro lado, convém considerar que A Ascensão das Universidades resultou de um ciclo de palestras numa universidade: o palestrante era um professor universitário, e os alunos, estudantes universitários. O contexto faz do livro, então, um diálogo entre membros de um clã, sobre a origem do mesmo clã; Haskins não ignora esse dado por um só momento, e de fato parece ter planejado suas palestras neste sentido. A história da universidade medieval é, pois, também uma narrativa sobre a origem do palestrante e dos próprios ouvintes, de sua hierarquia, de seus ritos; trata-se como que de um mito fundador, e o Prof. Haskins é o pajé, o guardião das crônicas, o mestre de mitos que desvela os segredos da fundação e a história dos antepassados.

Não posso deixar de observar que, se eu mesmo faço parte do clã e se tenho, pois, interesse pessoal no seu mito fundador, também é verdade que, tendo ouvido, ao longo da formação universitária, muito falar de fetiches como “rigor”, “seriedade” e “ciência”, encontrei no Prof. Haskins uma face diferente do magistério: um espírito erudito, rigoroso, firme e no entanto humano, flexível, compreensivo. Atento às exigências do conhecimento autêntico, mas aberto a refletir sobre seu objeto de estudo e a compreendê-lo com empatia, com imaginação, como convém fazer nas ciências humanas. A universidade não parece, se tomamos este livro como manifestação sua, uma instituição fracassada ou desastrosa ― como a descreveriam alguns que, como eu, tiveram contato com ela no século XXI. De fato, se estudasse na universidade do Prof. Haskins, eu sentiria a tentação de venerá-la, de orgulhar-me dela, de lutar por uma posição dentro de sua hierarquia. Feliz ou infelizmente, aquele tempo passou, e A Ascensão das Universidades não seria hoje aceito nem como mestrado na USP. É interessante demais. Humano demais.

Caso me perguntassem, contudo, se eu gostaria de estudar na universidade do Prof. Haskins, eu responderia que não. E citaria seu próprio livro em minha defesa:

Sócrates, que era um grande professor, não oferecia diplomas, e o estudante moderno que sentasse aos seus pés durante três meses exigiria um certificado, algo tangível e externo que pudesse exibir como uma vantagem do seu estudo ― aliás, esse seria um excelente tema para um diálogo socrático. É somente nos séculos XII e XIII que realmente surgem no mundo aquelas características tão marcantes da educação organizada com as quais estamos mais familiarizados, todos aqueles mecanismos de instrução representados por faculdades, colégios, cursos, exames, formaturas e graus acadêmicos.

No trecho acima está condensada uma verdade lancinante, tão profunda quanto desagradável para nós. De fato, que posição Sócrates teria tomado nesse hipotético diálogo? Será possível que ele seria tão cego quanto nós para o fato de que a criação dessa “segunda realidade”, com suas leis, ritos, dogmas e hierarquias, substituiria e aniquilaria o conhecimento autêntico?

É evidente que, da perspectiva de um professor universitário da década de 1920, o trecho é um elogio à universidade medieval: foi ela que, ao criar todo o maquinário estudantil, tornou possíveis nossas glórias mais recentes. Na década de 1920, talvez eu estivesse de acordo. Hoje, porém, creio estar absolutamente claro que a universidade engessou as inteligências, massacrou os talentos, esmagou o verdadeiro gênio humano, sempre individual e livre, sob o peso mastodôntico da corporação.

Quem ler A Ascensão das Universidades aprenderá, por exemplo, que estudantes universitários sempre foram ― e sempre serão, eu acrescentaria ― uma verdadeira praga, danosos para si mesmos e para todos ao seu redor:

Se fosse preciso evocar evidências adicionais para dissipar a ilusão de que a universidade medieval se dedicava principalmente aos estudos bíblicos e à vida religiosa, os pregadores de Paris desse período forneceriam prova suficiente. “O coração dos estudantes está no lodo”, diz um deles, “atrelado às prebendas, às coisas temporais e à satisfação dos desejos”. “Eles são tão litigiosos e briguentos que não há paz com eles por perto; em qualquer lugar que estejam, seja em Paris ou Orleães, eles perturbam essa terra, os seus colegas e até mesmo toda a universidade.” Muitos deles andam pelas ruas armados, atacam os cidadãos e insultam as mulheres. Eles brigam entre si por causa de cachorros, mulheres e outras coisas mais, ocasião em que decepam os dedos uns dos outros com suas espadas ou, munidos apenas de facas em suas mãos e sem nenhuma proteção para suas cabeças tonsuradas, precipitam-se em combates que cavaleiros armados evitariam. Os seus compatriotas vêm em seu auxílio, e logo nações inteiras de estudantes podem estar envolvidas no conflito.

O tom condescendente do Prof. Haskins, ao longo do livro, faz parecer que esse tempo passou; no entanto, quem foi universitário nas últimas décadas sabe que, sob certo aspecto, até piorou. A agressividade estudantil continua virtualmente a mesma ― apesar de uma ilusória contenção das brigas e assassinatos que ocorriam entre os medievais ― mas hoje, com as técnicas de manipulação psicológica em massa, ela é direcionada para propósitos políticos dos mais nefastos, que (como se não bastasse) aproveitam-se ainda do prestígio residual dos universitários para ganhar uma aparência de “ideais esclarecidos”. Os scholares, sabemos agora, nunca foram esclarecidos; sempre compuseram um dos grupos mais estúpidos, arrogantes e violentos de seres humanos.

Quanto aos professores, logo também formaram suas corporações, com exames de admissão, bancas e diversos critérios de avaliação. Seu poder era grande: conferiam um certificado (licentia docendi) que, raramente usado para seu fim nominal (o de ensinar), servia no entanto para obter prestígio e altos cargos na burocracia estatal ou eclesiástica. Provavelmente funcionou bem nos primeiros anos, enquanto os professores ainda eram homens de estudo; tão logo a licentia ganhasse valor político, porém, era evidente que as corporações se encheriam de carreiristas incapazes e maliciosos, que se valeriam daquele poder para conseguir favores os mais variados e que fariam todo o possível para corromper ou eliminar do jogo qualquer estudante de talento verdadeiro, cujo desempenho brilhante, se não fosse interrompido, inevitavelmente acabaria por jogar luz sobre a charlatanice e os procedimentos escusos dos seus “pares”. Todos os que passaram recentemente por uma universidade sabem o grau de desenvolvimento ao qual o processo já chegou ― e oxalá esteja correta minha impressão, de que quase já não resta mais prestígio, na universidade, para ser sugado por esses burocratas.

Falo assim, não para persuadir o leitor da minha interpretação dos fatos ― coisa que, na minha experiência, raríssimas vezes ocorreu ― mas para ilustrar como é bem-escrito o livro do Prof. Haskins, que me permitiu chegar, com total clareza de idéias, a conclusões opostas às do seu próprio autor.

Evidentemente, não há apenas trevas na origem das universidades. Além das verdades inconvenientes e das curiosidades quase cômicas, o Prof. Haskins ensina muito que pode ser aproveitado de maneira positiva, e que talvez apele, por exemplo, às esperanças dos que ainda crêem numa “reforma da universidade”. Esses gostarão de saber que sua nobre instituição foi fundada, não como um corpo burocrático, mas bâtie en hommes ― feita de homens, e mais nada. Os regulamentos, ritos e obrigações que vieram logo depois foram respostas a necessidades desses mesmos homens (embora muitos deles, posteriores, já não respondessem a necessidades, mas a ânsias nem sempre honestas). Ninguém na Idade Média teve uma “idéia de universidade”, como o Cardeal Newman teria séculos depois.

A raiz das universidades sempre foi, ao que tudo indica, um professor. Alguém se destacava no ensino de uma disciplina, e eis que a ele acorriam alunos de toda parte, seja para matar a curiosidade ou para obter desempenho superior em alguma profissão nobre (como advocacia, medicina ou teologia). Não fique o leitor espantado se isso lembrá-lo dos antigos sofistas, do próprio Sócrates ou do filósofo Pedro Abelardo, falecido pouco antes do surgimento da Universidade de Paris. De fato, parece ser essa uma lei universal do empreendimento pedagógico: o professor é a pessoa mais importante, aquela que determina o sucesso e o fracasso das escolas e faculdades e, em última instância, do aprimoramento cultural de todo o mundo.

É claro que o professor, que aprecia um bom salário, também deve curvar-se às exigências do dever, do bom-senso e, ocasionalmente, dos caprichos estudantis. Não nos surpreendamos ao saber que ele era obrigado a começar a aula ao toque do primeiro sino, e a sair apenas um minuto depois do último; nem evitemos sorrir ao descobrirmos que ele era proibido de pular capítulos e que estava obrigado a expor um livro inteiro (do começo ao fim) dentro do prazo do curso ― nada de passar três meses discutindo bibliografia. A maioria dos nossos professores universitários gritaria de horror diante dessas exigências; mas elas eram, na opinião do mestre medieval, bem razoáveis ― pois os alunos daquela época, como até hoje é hábito dos homens normais, valorizavam seu dinheiro.

Como quem conta casos de família, cheios de interesse pessoal e anedotas graciosas que suavizam a densidade de sua erudição, o Prof. Haskins conduz seus leitores a um conhecimento geral, mas sólido, da universidade primitiva. Não poupa suas imperfeições, nem exagera seus defeitos, nem louva demasiado suas qualidades; tampouco adota a monotonia insuportável da imparcialidade; faz sempre questão de ilustrar o assunto com sentimentos firmes, serenos e, não obstante, intensamente pessoais.

Está de parabéns a Danúbio, que traz aos leigos um livro perfeito, aos historiadores, uma excelente introdução ao assunto, e à cultura do país, um estímulo significativo ao estudo dessa época fascinante em que surgiram as universidades.

Um livro para ler — e entender

Apresentação à reedição dos comentários de Francisco de Sales Lencastre pela Editora Concreta

Quando eu tinha quinze anos, abri uma edição “com notas” de Os Lusíadas. Li o poema inteiro — isto é, fiz aquilo que, à época, eu chamava de “ler” — e, para além de captar o sentido superficial da maioria das estrofes e algo da entonação épica, não entendi bulhufas.

Camões é um clássico; é o clássico da língua portuguesa. Nele estão os sentimentos morais, as virtudes, a dignidade da civilização lusa. Camões é o fundamento da nossa cultura, é o herói dos nossos escritores.

Mas como arranhar as intuições poéticas, a elevação moral, os arroubos sobrenaturais de um poeta, quando não se consegue juntar sujeito com predicado em seus longos períodos? Quando suas expressões figuradas parecem enigmáticas e até incompreensíveis? Quando não se sabe ao menos do que está ele a falar: quem é Pacheco, em que ponto da Terra os heróis se encontram, que diabos é um mauritano?

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O Princípio da Educação Clássica

(a ser publicado na revista do I Congresso Regional de Educação Católica)

Pergunte a São Tomás de Aquino o que ele pensa dos seus flashcards.
Pergunte a São Tomás de Aquino o que ele pensa dos seus flashcards.

Em artigos e palestras anteriores, demonstrei a existência de uma tradição clássica na pedagogia do Ocidente, a qual, desde tempos remotos, desenvolveu-se, através das eras, segundo um mesmo espírito, até alcançar a admirável forma em que a vemos nas escolas medievais do século XII. Beneficiar-se dessa tradição é possível, mas não fácil; as exigências técnicas e disciplinares são enormes, e as espirituais talvez sejam ainda mais difíceis de atender — porque exigem o abandono quase completo da mentalidade em que fomos criados e (com o perdão do termo) educados. Continue lendo

O que é educação clássica

(publicado em Gazeta do Povo, 5 de outubro de 2016)

A educação moderna perverteu-se a tal ponto que se tornou praticamente impossível confiar nas escolas comuns. Quem, em sã consciência, pode desejar seus filhos aprendendo que a identificação do sexo depende do “gênero” que cada um escolha; que jogar lixo na rua é mais ou menos tão grave quanto matar uma pessoa; que a família é um antro de preconceitos nazistas e o comunismo, uma utopia sonhada por floristas inocentes – e não, como é de fato, um ensaio ideológico do diabo?

A solução, evidentemente, está em fazer o que funcionou durante mais de mil anos, antes de as escolas se tornarem laboratórios para reformadores irresponsáveis: buscar os pedagogos certificados não por alguma pós-graduação, mas pela qualidade dos homens que seus ensinamentos produziram. Nomes como Platão, Cícero, Santo Agostinho, Dante Alighieri e tantos outros deveram sua educação a uma mesma tradição pedagógica, que chamamos “clássica”.
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Dois sentidos de “cultura”

(publicado em Gazeta do Povo, 11 de janeiro de 2016)
ciceroA página do Ministério da Cultura no Facebook compartilhou recentemente uma mensagem catequética que afirmava: “funk é cultura, sim”. A mensagem faz parte de uma campanha intitulada “Dialoga, Brasil”, que supostamente se destina a livrar os brasileiros de seus terríveis preconceitos. Mas o Ministério da Cultura sabe que está usando a palavra “cultura” numa acepção diferente daquela em que o povo, ao negar ao funk esse estatuto, se fundamenta; a catequese governamental não é senão mais uma tentativa de obliterar um sentido da palavra, de modo que não mais seja possível distinguir obras de arte de produções vulgares. Continue lendo